II Domingo do Advento

II Domingo do Advento

Preparai os caminhos do Senhor

 

O II Domingo do Advento apresenta-nos uma das grandes figuras deste Tempo Santo que é João Baptista. Outras duas são o Profeta Isaías, que nos acompanha praticamente todos os dias e hoje, quase excecionalmente, é substituído pelo Profeta Baruc e a figura de Nossa Senhora, Maria Santíssima. Na próxima quarta-feira, Solenidade da Imaculada, Padroeira de Portugal, é nela que vamos concentrar da nossa atenção.

 

Voltamo-nos agora para a figura de João Baptista, que o Evan­gelista S. Lucas tem a preocupação de nos apresentar com o rigor do enquadramento histórico que ele bem sabe fazer. Nesse en­qua­dramento aparecem-nos figuras marcantes da história da época, como Herodes, Pilatos e o Imperador Tibério César Augus­to.

E tudo isto para valorizar a importância da mensagem que ele recebeu e agora transmite com a sua pregação, no deserto, junto ao Jordão.

Tudo começa com a indicação de que a Palavra de Deus lhe foi dirigida e é a partir dela que João Batista constrói a sua pregação. O essencial está na penitência e na conversão, apontando para o Batismo de Penitência que ele propõe e ao qual as pessoas aderem, em grande número. Por estranho que pareça, é o deserto com todo o desconforto que ele representa e a penitência, que envolve necessariamente sacrifício e renúncia, que atraem as pessoas para irem ao encontro de João e do Batismo de penitência que ele pratica.

O deserto é lugar do silêncio e do encontro com Deus, longe do burburinho do mundo. É habitualmente no deserto que Deus fala ao seu povo e aos seus mais diretos colaboradores; e lhes fala ao coração. É também o lugar onde se amadurecem as grandes decisões que hão-de ter aplicação no meio do mundo.

O que João Baptista mais pretende em todo o seu ministério é preparar os caminhos do Senhor e atribui a si mesmo o estatuto da voz que clama no deserto, segundo o oráculo do profeta Isaías, ao dizer – “Preparai os caminhos dos Senhor, endireitai as suas veredas”.

Convém lembrar que o primeiro a preparar os caminhos, através do deserto, para fazer passar os cativos do exílio a caminho da sua terra, foi o próprio Deus, segundo o mesmo oráculo de Isaías, que o profeta Baruc hoje retoma.

 

Este anúncio de João Baptista é um forte apelo para que, na nossa vida pessoal e quanto possível em comunidade, se possa repetir o que o próprio Deus fez, quando, à frente do Povo, o reconduziu à sua terra, acabando com o pesadelo do exílio.

 

Somos, assim, convidados a aproveitar da melhor maneira este Tempo do Advento para nos convertermos ao Senhor nosso Deus, abandonarmos caminhos errados que porventura estejamos a percorrer e voltarmo-nos para Ele. E respondemos a este apelo através da nossa revisão de vida pessoal, mas também aceitando que os outros possam  intervir com as suas sugestões e chamadas de atenção.

Entramos aqui na resposta à caminhada sinodal que nos é pedida. De facto, ela é oportunidade para cada um escutar os outros e o próprio Deus, na oração, sobre o que Ele nos quer dizer. Depois convida-nos a dar o nosso contributo, com sugestões para que os melhores caminhos possam ser mais bem definidos. Sobretudo precisamos de saber preparar, da melhor maneira, as nossas decisões, através do discernimento, onde conta a escuta de Deus e dos outros, caldeada com a nossa oração pessoal e a nossa meditação, em espaços de silêncio apropriados. E quem exerce o serviço da autoridade ainda mais precisa de cultivar processos de discernimento com participação o mais alargada possível de todos na comunidade.

Estamos, assim, a ver alguns contornos do que nos é pedido na caminhada sinodal proposta a toda a Igreja.

 

Desta forma, estamos a preparar a vinda do Senhor. Seja a comemoração da sua primeira vinda no Presépio de Belém, seja voltando o nosso olhar para a última vinda em glória no fim dos tempos, seja dando a devida atenção às Suas variadas vindas à nossa vida pessoal, sempre que lhe abrimos a porta e nos dispomos a recebê-lo.

Esta preparação da vinda do Senhor é pessoal, mas tem de envolver a comunidade, a começar pela Igreja e incluindo também os responsáveis da sociedade em geral.

De facto, há respostas de que as pessoas precisam e a sociedade como tal não pode fugir a procurá-las para as dar no momento próprio. O Papa Francisco, na sua viagem pelo Mediterrâneo oriental, agora em curso, continua a chamar atenção para muitas das respostas que os cidadãos precisam de ter da parte da sociedade, em função de valores fundamentais de que depende a vida e às vezes a sobrevivência de muitos cidadãos. É o caso dos refugiados, que ele, pela segunda vez, nos últimos cinco anos, evocou, na ilha de Lesbos, chamando a atenção para os deveres que todos temos para com eles.

Esta também está a ser uma viagem apostólica em que o Papa leva con­sigo o desejo de aprender com experiências novas e diferen­tes, como é o caso do encontro com o Sínodo Ordinário da Igreja Ortodoxa, onde ele confessou que a Igreja católica tem muito a aprender, no seu desejo de ser cada vez mais Igreja sinodal.

 

S. Paulo na carta aos Filipenses lembra-nos hoje que este percurso pessoal e também comunitário rumo ao encontro com Deus e à contemplação da sua glória tem de nos envolver a todos e a cada um no conjunto das suas capacidades; mas a iniciativa pertence sempre ao mesmo Deus, que nos trabalha pessoalmente, nos anima e segue à nossa frente, indicando-nos o caminho que devemos percorrer.

 

Claro que Deus quer realizar todo este seu trabalho contando coim a colaboração especial de alguns que ele escolheu, preparou e enviou para mediar a sua ação. Referimo-nos ao serviço dos pastores, que é insubstituível. Por isso, nunca é demais sentirmos o dever de rezar por eles, sobretudo os sacerdotes.

E pedimos, nestes dias, uma oração especial pelos dois candidatos ao Diaconado que vão ser ordenados na próxima Solenidade da Imaculada e têm no horizonte a Ordenação Sacerdotal.

Confiemo-los, desde já, à Providência Divina e aos cuidados maternais de Maria Santíssima, pois todos sabemos como a saúde e a vitalidade das nossas comunidades em muito dependem da generosidade da entrega dos seus pastores.

 

Que este Santo Advento a todos nos anime na preparação dos caminhos do Senhor, em nós mesmos e nos ambientes onde exercemos responsabilidades.

 

5.12.2021

 

+Manuel R. Felício, Bispo da Guarda