50 anos de sacerdócio “a desbravar caminhos”

50 anos de sacerdócio “a desbravar caminhos”
Entrevista – Cónego Manuel Alberto Pereira de Matos

O Cónego Manuel Alberto Pereira de Matos celebra, no dia 4 de Agosto, 50 anos de ordenação sacerdotal. Um percurso cheio de vida na Igreja da Guarda que vai ser celebrado com uma Missa de Acção de Graças, no Santuário do Senhor dos Aflitos, Barroquinho, no dia 5 de Agosto, Domingo, às 17.00 horas. Actualmente é Vigário Geral da Diocese, director da Escola Teológica de Leigos, membro do Conselho Presbiteral, Assistente Diocesano do Renovamento Carismático e administrador Paroquial de João Antão, Panoias e Santana d’Azinha.


A GUARDA: Com que sentimentos vive os 50 anos de sacerdócio?

 

Manuel Matos: Já cinquenta anos são passados? Quase diria que é preciso que sejam outros a lembrar-me que, de facto, assim é. Por isso, muitos são os pensamentos e sentimentos que, como é normal, se entrecruzam no meu espírito, ao dar-me conta de que já vivi cinquenta anos de sacerdócio, nesta Igreja da Guarda que eu amo. 
Recordo que, nos meus primeiros anos de padre e de pároco, eu pensava que se vivesse uns vinte anos de ministério pastoral já seria tempo bastante para fazer quase tudo. Depois fui-me apercebendo de que a existência real impõe um ritmo de ação que foge a quaisquer planos pré-estabelecidos. Houve que fazer opções, desbravar caminhos, também de valorização pessoal e compatíveis com a prioridade dos compromissos assumidos. No fundo, estava sempre presente a exigência da coerência com a decisão inicial. Agora, ao rever o percurso feito, o sentimento que prevalece é o de ação de graças Àquele que me chamou. 
Mas fica-me também a sensação de ter ficado, em vários aspectos, muito aquém daquilo que era possível ter feito, das potencialidades que poderia ter desenvolvido. Confesso que gostaria de, em determinadas circunstâncias, ter sido mais magnânimo.

A GUARDA: É importante celebrar esta data festiva com as comunidades de João Antão, Panoias e Santana da Azinha, onde é pároco? 

Manuel Matos: Não fui eu a decidir o modo de assinalar esta data. Por mim tê-la-ia celebrado com total discrição, como todos os dias, e simplesmente a desempenhar os deveres do quotidiano. Mas fico muito reconhecido a todos quantos querem dar maior expressão celebrativa a esta data, especialmente às paróquias que há uma dúzia de anos me estão confiadas. Ali tenho recebido muitas provas de estima, quer nos contactos gerais, quer especialmente na proximidade com as famílias que me franqueiam com a simplicidade o seu espaço doméstico, o que só não acontece com maior frequência pelo facto de eu não ter residência no meio dos meus paroquianos. Nesse particular, tenho saudades do que acontecia nas terras que primeiramente paroquiei e onde o estilo de vida, uma certa osmose no contacto diário com toda a gente deixou indeléveis recordações. 


A GUARDA: O seu percurso de vida está muito ligado ao estudo e ao ensino. Ainda gosta de estudar e de ensinar?

Manuel Matos: Sim, o estudo cativou-me desde criança, como uma exigência e um prazer. A par de todas as brincadeiras e diversões, estudar, adquirir novos conhecimentos, era mais um aspeto divertido do meu pacato dia-a-dia. 
Entretanto, como também sempre gostei de ensinar o que sabia, logo que me foi proporcionado entrar no ensino senti que aí estava uma forma privilegiada de realização pessoal. Contudo, nunca vi essa atividade desligada da minha vocação sacerdotal. Muito pelo contrário, ela ocupava o meu espírito em plena concordância com o ministério pastoral, atendendo aos deveres quotidianos nas paróquias. Fazia-o com amor e procurava ser competente, gostava dos alunos como filhos, sem paternalismos, mas procurando dar-lhes o melhor de mim. E senti sempre a retribuição da sua amizade, que perdura até hoje, quer dos alunos que tive no ensino particular, primeiro, quer depois no ensino público. Posteriormente, viriam os alunos do Seminário diocesano, das Ciências Religiosas, do Diaconado permanente. Mas quereria sublinhar o tempo e as energias que dediquei ao Instituto Superior de Teologia, pela variedade das dioceses implicadas e pela exigência científica que lhe estava inerente.
Ainda hoje, gostaria de dar mais tempo ao estudo, e de alimentar a curiosidade científica, sobretudo nas áreas que me são mais familiares, procurando não adormecer de todo, e por isso fiz uma ou outra publicação. Tal como gostaria de ter uma atividade docente mais intensa e que puxasse mais por mim, com dever de investigação e de alguma produção exigida e não simplesmente “porque sim”.


A GUARDA: Tem uma série de obras publicadas. O que é que o levou a escrever sobre temáticas menos habituais como o Fim do mundo, a Santíssima Trindade ou o Pai Nosso?

Manuel Matos: Do mesmo modo que eu sempre desejei comunicar nas aulas aqueles conhecimentos que eu próprio fui adquirindo, para que outros participem igualmente deles, foi também isso que quis partilhar com um público mais diversificado, mais vasto. Pensei especialmente nos meus paroquianos e imaginei que lhes seriam úteis livros que explicassem pontos doutrinais, e verdades da fé cristã que pudessem ser expostos de forma mais acessível à gente simples e menos instruída, mas sem perder o rigor científico devido à verdade teológica de fundo. 
Tenho consciência de que é uma tarefa bastante difícil tornar compreensíveis, para “leigos” nestas matérias, conceitos que são familiares aos versados na teologia e na exegese bíblica, sem ceder ao simplismo e mantendo o nível de investigação digno dos assuntos abordados. Isto designadamente quando está em causa a fé com expressão orante. É o que acontece com os escritos sobre o Pai Nosso, a Glória da Santíssima Trindade, mais na linha da oração, ou a ressurreição dos mortos e a parusia, mais vulgarmente conhecida com o Fim do mundo. Diria que o maior desejo seria o de alcançar um maior conhecimento do mistério de Deus. Depois, a aspiração de rezar melhor. Simultaneamente, a vontade de partilhar com outros estes desejos mais profundos, e de o fazer de uma for prática, proporcionando-lhes a  leitura e o exercício da oração.


A GUARDA: O Concílio Vaticano II decorreu no auge da sua juventude. Como acompanhou esta reunião magna?

Manuel Matos: O Concílio Vaticano II foi, efetivamente, a grande linha de orientação e de inspiração desde os primeiros anos da minha formação no Seminário da Guarda e, posteriormente, no exercício do ministério pastoral. Acompanhávamos com o maior interesse o dia-a-adia do Concílio. Respirávamos o espírito de renovação da Igreja que dele emanava e que a comunicação social trazia até nós, especialmente estimulados por alguns dos nossos formadores mas clarividentes. Foi uma maré de muita esperança. E não foi maré passageira, pelo contrário, sentíamo-nos a mergulhar no mar profundo do “espírito do Concílio”, verdadeiro mar do Espírito Santo. Depois, foram ganhando terreno no campo eclesial certas tendências refreadoras cujo efeitos viriam a ser mais complexos no impacto com as mudanças entretanto ocorridas na ordem social e política.
Com verdade, e com humildade, terei de reconhecer que foi difícil, que foi mesmo bastante duro, vencer a batalha do tempo, nas linhas fogo que se abriram especialmente na década de 70. Quanto custou ver partir colegas amigos, com o consequente depauperamento do presbitério diocesano, ver o Seminário Maior a esvaziar-se e os alunos de teologia, mesmo os que tentavam aguentar a passada, a serem desencorajados de o fazer! Como foi terrível ouvir da boca de colegas mais velhos (e sem má intenção), afirmar convictamente que nós, os padres que ainda resistíamos, éramos, inexoravelmente, os “abencerragens”, os últimos espécimes desta sacra espécie!... 

A GUARDA: Ao olhar para trás, quais as pessoas que mais o marcaram ao longo destes 50 anos de sacerdócio? 

Manuel Matos: Agradeço a Deus que em todo o meu percurso de vida, e em particular o da minha vida de padre, Ele me tenha providencialmente proporcionado a presença amiga de muitas pessoas, desde os familiares aos formadores do Seminário e aos colegas que encontrei no meu quotidiano caminhar. Tive o privilégio de ser acompanhado, quer nos anos de formação, quer depois na vida pastoral, por pessoas em que eu reconheci uma notável santidade de vida, dotadas de exemplar prudência e sabedoria, e com uma inteligente visão das pessoas e do mundo. 
Delas aprendi que as virtudes cristãs têm de estar alicerçadas nas virtudes humanas, como a retidão e a justiça, a sensibilidade diante da pobreza e da infelicidade dos outros, o desprendimento e a confiança recíproca. Aprendi, na prática, que as virtudes cardeais (a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança ou domínio de si próprio) são o melhor suporte das virtudes teologais. É um caminho a fazer continuamente e que sempre me desafia.

A GUARDA: Quando ouve falar da Diocese da Guarda, quais os sentimentos que o invadem?

Manuel Matos: Ao pensar nesta nossa Diocese da Guarda, sinto-me invadido por muitos sentimentos, não raro, desencontrados, sobretudo quando penso no que ela poderia ser. Mais, no que - como algures tenho escrito – ela “deveria” ser. Penso especialmente no nosso presbitério. Aqueles anos imediatamente pós-conciliares eram um augúrio muito promissor, com enormes potencialidades a germinar. Porém, muta coisa bem depressa estiolou. Só Deus sabe porquê e só Ele pode julgar com inteira verdade. Os nossos juízos a esse respeito, juízos em geral severos, são falíveis. 
Penso, consequentemente, que a tradição da Diocese da Guarda, em vários aspetos extraordinariamente rica, perdeu bastante do seu vigor. Damos, contudo graças a Deus pelo muito que entre nós ainda se mantém fiel às raízes, estas sempre capazes de fazer brotar novas expressões de vida cristã. Tenho especialmente fé num renascer das potencialidades vocacionais, em todos os ramos, quer para os ministérios ordenados, que para diversa formas de vida laical e religiosa. Mas a fé de que falo não pode ser apenas uma “fé” humana, garantida por determinadas estratégias. Tem de ser uma fé teologal, aliada a uma esperança da mesma natureza, em que a realidade é esperada com paciência e perseverança. Com humildade rogo a Deus que a mim, a todos nós, Ele a conceda em abundância.
 
 

Quinta, 2 de Agosto de 2018