Pinhel celebra 400 anos do Missal Pontifical do abade de Cerejo

Pinhel celebra 400 anos do Missal Pontifical do abade de Cerejo

O mais importante testemunho da iluminura portuguesa do século XVII, o Missal Pontifical, também foi pintado em Cerejo, no Concelho de Pinhel, por Estêvão Gonçalves Neto, antigo abade de Cerejo.

De acordo com Manuel Neves, promotor do colóquio “Estevão Gonçalves Neto, abade de Cerejo e iluminador do Missal", que vai assinalar o encerramento das comemorações dos 400 anos da passagem deste padre pela paróquia de Cerejo, “parte do Missal foi pintado em Cerejo pois foi feito quando Estêvão Gonçalves Neto aqui foi pároco”.

 

Para preparar o colóquio do dia 22 de Setembro, um grupo de pessoas do concelho de Pinhel esteve em Lisboa, na Academia das Ciências, na última semana, onde teve o privilégio de apreciar a obra deste génio da pintura decorativa portuguesa.

Guardado num cofre à prova de água, de fogo e até de terramotos, o famoso Missal Pontifical faz parte do valiosíssimo espólio da Biblioteca da Academia das Ciências de Lisboa, que integra a antiga biblioteca do Convento de Jesus, e reúne um espólio com cerca de três mil manuscritos portugueses, árabes, espanhóis e hebraicos, além da colecção de livros dos séculos XIV a XIX em que também se destaca o “Livro das Armadas” (séc. XV), o Atlas de Lázaro Luís (1563), o Livro de Horas da Condessa Bertiandos (séc. XVI), As Viagens Extensas e Dilatadas do Célebre Árabe Abu-Ab-Dallah (séc XIV), Arte Minima (1725), Opuscula de Isaac Newton (1744) e Chronica Geral de Hespanha de 1344.

 

Artur Anselmo, presidente da Academia das Ciências e da Classe de Letras, disse ao Jornal A GUARDA que “há uma lista de seis obras que não podem sair da Academia e o Missal Pontifical é uma delas”. E acrescentou: “Há coisas que não têm preço, e mesmo com todos os seguros, esta obra é uma das relíquias que não podem sair da Academia das Ciências”.

A última vez que o Missal Pontifical saiu da Academia das Ciências de Lisboa foi em 2016, para uma exposição que decorreu no Museu de Arte Antiga. “Desde essa exposição decidimos não voltar a emprestar o Missal”, concluiu Artur Anselmo.

 

Numa altura em que Pinhel prepara o colóquio “Estevão Gonçalves Neto, abade de Cerejo e iluminador do Missal", o presidente da Academia das Ciências espera que “apareçam pinhelenses que se interessem sobre o estudo do Missal”. Diz mesmo que é muito importante que haja “teses de doutoramento sobre esta obra” que tem pouco mais de 60 páginas mas que “é de um valor incalculável”.

 

“A escola, em Pinhel, pode contribuir para a divulgação e conhecimento do Missal Pontifical de Estevão Gonçalves Neto”, adiantou Artur Anselmo ao Jornal A GUARDA. E acrescentou: “Os professores são os melhores agentes para a divulgação da cultura”.

Estêvão Gonçalves Neto, antigo abade de Cerejo, deve a sua fama ao Missal Pontifical, realizado entre 1616 e 1622 para D. João Manuel, bispo de Viseu, que é considerado o mais importante testemunho da iluminura portuguesa do século XVII. Autor de outras obras de grande qualidade foi um continuador da tradição da iluminura nacional, sendo pintor activo entre 1605 e 1627.

Feito entre 1616 e 1622, o Missal ganhou visibilidade internacional em fins do século XIX, ao ser exibido na Exposição Universal de Paris de 1867, e está na origem do estatuto de génio que hoje se atribui ao autor.

 

Estêvão Gonçalves Neto morreu em Viseu em Julho de 1627. Ao que tudo indica terá começado a trabalhar como iluminador por volta de 1605 e, em 1610, terá ido para Viseu como capelão do bispo, tornando-se mais tarde reitor e abade da Igreja de Santa Maria Madalena de Cerejo, concelho de Pinhel, distrito da Guarda, onde esteve entre 3 de Maio de 1613 e 3 de Junho de 1618.

 

 

Segunda, 10 de Setembro de 2018