Entrevista - Estela Cristina Ribeiro de Brito - Directora do Departamento Diocesano do Ensino da Igreja nas Escolas

Entrevista - Estela Cristina Ribeiro de Brito - Directora do Departamento Diocesano do Ensino da Igreja nas Escolas

Entrevista - Estela Cristina Ribeiro de Brito, Directora do Departamento Diocesano do Ensino da Igreja nas Escolas

“A Educação Moral e Religiosa Católica promove a formação integral do aluno a partir do diálogo da cultura e dos saberes adquiridos nas outras disciplinas”

 

Estela Cristina Ribeiro de Brito é a coordenadora do Departamento Diocesano do Ensino da Igreja nas Escolas, na Diocese da Guarda. Natural de Vide, concelho de Seia, estudou na Universidade Católica de Viseu, onde tirou a licenciatura em Ciências Religiosas. Nos tempos livres, gosta de ler, de caminhar, de ver um bom filme e de estar envolvida em acções de voluntariado.

 

A GUARDA: O que é e o que faz o Departamento do Ensino da Igreja nas Escolas?

 

Cristina Brito: O Departamento Diocesano do Ensino da Igreja nas escolas ou do Ensino Religioso Escolar é uma estrutura que faz parte do Secretariado Diocesano da Educação Cristã, que procura responder as seguintes responsabilidades: Promover a valorização da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica, nos diferentes contextos educativos da nossa diocese; Providenciar as cartas de idoneidade aos candidatos a professores de EMRC; Estabelecer com alguma regularidade, contactos com os Directores dos Agrupamentos de Escolas; Calendarizar as reuniões de professores, ao longo do ano para partilha e desenvolvimento das actividades que o Departamento defina; Promover uma formação permanente e actual dos docentes, nos domínios científico e espiritual, promotoras de um bom desempenho profissional; Motivar para a relação com as comunidades paroquiais e famílias de onde vêm os alunos de EMRC; Calendarizar actividades inter escolas e outras iniciativas complementares nas escolas, em colaboração com entidades variadas da sociedade civil; Garantir a relação com os departamentos congéneres de todas as dioceses, bem como a relação com o Secretariado Nacional da Educação Cristã.

 

A GUARDA: Quem é que integra este Departamento?

 

Cristina Brito: Este Departamento é constituído por quatro professores de EMRC, representando as diferentes zonas pastorais da nossa diocese, a saber: Estela Cristina Ribeiro de Brito – Diretora; António Manuel Cerdeira Filipe - Tesoureiro; Elsa Maria Santos Domingos e Dina Maria Santos Pinto. Procuramos ser uma equipa com um grande espírito de partilha, de comunhão, procurando corresponder, da melhor forma, aos desafios que o dia-a-dia nos impõe.

 

A GUARDA: No início de mais um ano lectivo quais as principais prioridades do Departamento a nível das escolas do território da Diocese?

 

Cristina Brito: Neste início de ano lectivo, a principal prioridade, centra-se essencialmente, em assegurar a leccionação da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica, em todas as escolas da diocese.

Espera-se, que até ao final da próxima semana, a situação seja resolvida em três escolas, que neste momento ainda não têm professor de EMRC. Estou a falar no Agrupamento de Escolas de Gouveia, onde existe mais um horário completo; no Agrupamento de Escolas de Trancoso, onde existem mais 8h, dedicadas ao 1º ciclo e no Agrupamento de Escolas de Figueira de Castelo Rodrigo, com um horário de nove horas.

A segunda prioridade, tem a ver com o aumento da implementação da disciplina de EMRC, nas escolas do 1º ciclo. Até agora, de vinte e duas unidades orgânicas, temos só 10 Agrupamentos de Escolas a contemplar, também, a disciplina na mancha horária dos alunos.

A terceira prioridade, prende-se com fomento de matrículas dos alunos do ensino secundário, em algumas escolas da nossa diocese, como por exemplo na cidade da Guarda e na cidade da Covilhã.

 Há ainda um longo caminho a fazer, embora, estejamos a ver, gradualmente, alguns frutos do mesmo.

A disciplina faz, obrigatoriamente parte da matriz curricular dos diferentes anos de escolaridade e agora, também, no ensino profissional, de acordo com o Decreto de Lei 55, de 6 de Julho de 2018. O Ensino Religioso Escolar constitui um factor decisivo para a educação integral das crianças, adolescentes e jovens. Seria empobrecedor entender a educação excluindo dela a interpretação e análise do fenómeno religioso, bem como a proposta de uma visão do mundo e da vida humanista e cristã.

 

A GUARDA: Há muitos alunos inscritos na disciplina de Educação Moral e Religiosa católica?

 

Cristina Brito: Antes de responder directamente a esta questão, considero ser pertinente aludir para o seguinte pressuposto: no contexto específico em que se situa a Educação Moral e Religiosa Católica, é importante distingui-la da Catequese, pois, situada no contexto escolar, insere-se nas suas finalidades, nos seus projectos, utiliza métodos e tem uma especificidade própria. O que confere ao ensino religioso escolar a sua característica peculiar é o facto de ser chamado a penetrar no âmbito da cultura e de se relacionar com os diferentes saberes. Em suma, a Educação Moral e Religiosa Católica promove a formação integral do aluno a partir do diálogo da cultura e dos saberes adquiridos nas outras disciplinas com a mensagem e os valores cristãos.

Perante um contexto cultural e sociológico diferenciado, a percentagem dos inscritos na disciplina é cerca de 30% na escola pública e 80% na escola privada não católica e 100% na escola Católica.

 

 

A GUARDA: Quais os níveis de ensino em que os alunos procuram mais esta disciplina?

 

Cristina Brito: Os níveis de ensino que tem maior percentagem de alunos inscritos são do 2º ciclo (5º e 6º anos), contemplada por 45% e o 3º ciclo (7º,8º,9ºanos), com percentagem de 40%.

Salientar, ainda que há Agrupamentos da diocese, que atingem uma percentagem de quase 100% dos alunos matriculados na disciplina, nomeadamente o Agrupamento de Escolas de Almeida e Vilar Formoso, de Seia, de Gouveia, do Sabugal, de Pinhel. Reconhecemos que a missão é difícil, mas não impossível!

 

A GUARDA: Quais as principais dificuldades com que se debatem os professores de Educação Moral e Religiosa Católica?

 

Cristina Brito: As principais dificuldades com as quais se debatem os professores são as seguintes: A existência de alguns contextos educativos adversos ao contributo que a disciplina tem na formação integral dos alunos; O horário da disciplina, em algumas escolas, ser colocado em horas não muito motivadoras para a frequência da mesma; O desconhecimento, por parte de algumas Direcções da legislação actual, no sentido de ser aplicada para a resolução de algumas situações mais complexas; A existência, em alguns casos, de turmas mistas, com elevado número de alunos.

 

A GUARDA: O que é que leva os jovens abandonarem a disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica, principalmente a partir do 10º ano de escolaridade?

 

Cristina Brito: Na minha opinião, uma das principais razões que poderá justificar o abandono dos alunos a partir do 10º ano, prende-se, essencialmente, com o horário, onde a disciplina é colocada. É mais uma hora, onde os alunos têm que estar e partir do momento, em que o paradigma do ensino secundário está pautado para o sucesso, para a obtenção de uma boa média, a opção pela disciplina dissipa-se, em alguns contextos. Porém, há que destacar, alguns exemplos muito positivos na nossa diocese, em que os alunos têm a disciplina desde o 1º ano até ao 12º. Optam por uma disciplina que ajuda na construção da sua identidade e do seu projecto de vida, edificado em valores do Evangelho, mobilizando-os para uma intervenção solidária e humanista na sociedade actual. A EMRC, tem nas escolas da nossa diocese, um papel preponderante na prossecução dos objectivos dos Projectos Educativos.

 

A GUARDA: Ser professor de Educação Moral e Religiosa Católica é mais do que leccionar ou nem por isso?

 

Cristina Brito: Claro que que é mais do que leccionar, apesar da disciplina ter um programa oficial, estruturado nos diferentes anos de escolaridade, que ajuda a reforçar as finalidades da mesma no currículo escolar, bem como facilita a apreensão de aprendizagens essenciais, vistas como fundamentais para que os alunos estruturem o seu agir ético e moral a parti da visão cristã da vida e da experiência religiosa.

 Ser professor de Educação Moral e Religiosa Católica é sentir-se mandatado pela Igreja a ser uma testemunha viva do Evangelho, no contexto educativo. É uma missão com nobres desafios, é um serviço de entrega, de dedicação, de alegria, de abertura aos outros, principalmente aos nossos alunos e outros professores, que connosco fazem um caminho para a construção de um mundo melhor.

Sobre isto, gostaria de partilhar este momento: um aluno disse-me para mim isto, no final de uma aula: “Os professores de EMRC tem, de facto um olhar de ternura, um olhar diferente e mais próximo para nós, que outros professores não têm.”

Ser professor de EMRC, é sentir que com a sua acção, está a contribuir para a construção de um projecto de vida feliz! Aproveito, esta oportunidade para felicitar o trabalho e o empenho dos professores de EMRC, da diocese da Guarda, pois na alegria e na partilha, encontramos, também, o sentido para a nossa missão.

 

A Guarda: Como são colocados/escolhidos os professores da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica?

 

Cristina Brito: Os professores de Educação Moral e Religiosa Católica são escolhidos, de acordo com um perfil que foi definido pela Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé, ou seja, de acordo, com a legislação actual determina-se a colocação de docentes de EMRC através de concurso (Decreto-Lei n.º 70/2013, de 23 de maio). Contudo, nenhum candidato poderá ser admitido sem declaração de concordância do bispo de cada uma das dioceses onde se situam as escolas em que pretende leccionar. 

Em suma, o reconhecimento da idoneidade para a leccionação da EMRC deve ter em conta o “equilíbrio e a maturidade humana” dos candidatos; deve ser marcado pelo “testemunho de uma vida cristã coerente e comprometida eclesialmente”; requer um amplo conhecimento da cultura do mundo contemporâneo e das questões sociais atuais e um sólido conhecimento da doutrina da fé católica e do ensino moral da Igreja.

Em consonância com a legislação aplicável às demais disciplinas, a posse da habilitação profissional em EMRC é o requisito necessário para a candidatura à leccionação em concurso nacional. 

 

 

 

 

Quarta, 17 de Outubro de 2018