Entrevista - Paulo José Sequeira Figueiró, Reitor do Seminário da Guarda

Entrevista - Paulo José Sequeira Figueiró, Reitor do Seminário da Guarda

Entrevista - Paulo José Sequeira Figueiró, Reitor do Seminário da Guarda

“Faltam adolescentes e jovens nas nossas aldeias, de onde tradicionalmente vinha a maior parte dos seminaristas”

 

Paulo José Sequeira Figueiró é natural de Avelãs de Ambom, Concelho e Diocese da Guarda, onde frequentou o ensino primário. Depois frequentou os Seminários da Diocese, Fundão e Guarda, tendo concluído o Curso de Teologia em Viseu, no Instituto Superior de Teologia. Já depois de ser padre, estudou em Roma, na Universidade Gregoriana, os cursos de Espiritualidade e Formação para Formadores de Seminários.

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A GUARDA: Está a decorrer, até Domingo, 18 de Novembro, a Semana dos Seminários. Para que serve esta semana dedicada especialmente aos Seminários?

 

Paulo Figueiró: Para recordar e ajudar a tomar mais consciência, individual e comunitariamente, que os seminários existem, são importantes para a formação de futuros padres e, consequentemente, para todos os cristãos é uma semana que convida a intensificar o amor aos seminários, a oração pelas vocações sacerdotais, a partilha e, sobretudo aos mais jovens, deve lembrar a necessidade de cada um se perguntar pela própria vocação, sem pôr de parte a possibilidade que o Senhor chame ao sacerdócio.

 

A GUARDA: “Formar Discípulos Missionários” é o tema proposto para esta semana. Como explica a escolha desta temática?

 

Paulo Figueiró: Certamente que a escolha do tema decorre do facto de a Conferência Episcopal Portuguesa ter decidido celebrar um Ano Missionário, que se iniciou em Outubro passado e terminará em Outubro de 2019 com o «Mês Missionário Extraordinário», declarado pelo Papa Francisco.

Para além desta razão prática (e, digamos, pouco original) a escolha da temática é pertinente porque nos últimos anos apercebemo-nos que muitos seminaristas, e antes mesmo já os candidatos aos seminários, têm uma forte inclinação e um gosto ‘suspeito’ pela ideia do padre essencialmente sacerdote (dedicado à celebração dos sacramentos), esquecendo que um padre é chamado também a ser homem e mestre de oração, pastor e guia de comunidades, servo e servidor das pessoas, sobretudo das mais pobres, das que vivem nas periferias matérias e espirituais, é chamado a ser profeta e testemunha do Evangelho e, portanto, missionário. Sendo o espírito de missão uma dimensão essencial de cada baptizado e, com maioria de razão, do presbítero, e constatando que ultimamente ele tende a ser negligenciado, nada melhor que recordar ao seminarista que se sente muito seguro e confortável na sacristia e no altar, que a insegurança e o desconforto fazem parte da missão e da vida do discípulo de Jesus. A simples vontade de ser padre, ou o gosto pelas ‘coisas da igreja’, não é necessariamente sinal de vocação. É sim o amor exclusivo por Cristo e por aqueles que Cristo ama, todos, sobretudo os últimos e aqueles que ainda O não conhecem. 

 

A GUARDA: Como é que o Seminário da Guarda está a viver a Semana dos Seminários?

 

Paulo Figueiró: Procuramos intensificar a oração, pois não fazia sentido pedir oração pelos seminários e quem lá vive não o fazer. Em mais que uma paróquia o seminário está presente em momentos de oração pelas vocações sacerdotais, quando possível com a presença dos seminaristas e pré-seminaristas da nossa Diocese. Celebramos a Eucaristia e rezamos por aqueles que frequentaram os nossos seminários, neles trabalharam ou deles foram benfeitores, e que o Senhor já chamou a Si.

 

A GUARDA: Como e onde é que a Diocese da Guarda está a formar os seus seminaristas?

 

Paulo Figueiró: No Seminário da Guarda, apesar de actualmente não haver aqui nenhum seminarista de modo permanente, e no Seminário Interdiocesano de São José, em Braga, onde estão os dois seminaristas da nossa Diocese.

 

A GUARDA: Quantos são e de onde são os seminaristas da Diocese da Guarda?

 

Como referi antes, são dois. O Fábio, de Casal da Serra, Tortozendo (a frequentar o 4º ano de Teologia), e o Tiago, da Covilhã (no 2º ano). Para além de um diácono que foi ordenado no mês passado, temos também dois candidatos que já terminaram o seminário mas ainda estão a concluir o curso ao mesmo tempo que ocupados em actividades pastorais.

 

A GUARDA: E no Pré-Seminário?

 

Paulo Figueiró: No Pré-Seminário temos 11 jovens, quatro estão no ensino superior e os restantes no secundário ou terceiro ciclo.

 

A GUARDA: O que é que está a faltar, na Diocese, para haver um número tão reduzido de jovens a procurar o seminário?

 

Paulo Figueiró: Essa é uma pergunta que se repete e à qual não é fácil dar uma resposta só, menos ainda uma resposta curta. Antes de mais, faltam adolescentes e jovens nas nossas aldeias, de onde tradicionalmente vinha a maior parte dos seminaristas. Depois, certamente que é um problema das famílias, da falta de fé e de oração. Os pais cristãos devem partir do princípio, óbvio, que os filhos não são deles, são de Deus e, por essa razão, o objectivo último da educação dos filhos é levar à descoberta do projecto de Deus para cada um. E depois estou a falhar eu e, talvez, os outros padres, que devíamos ser mediadores e instrumentos de Deus no discernimento e acompanhamento das vocações. A pergunta que, há muitos séculos, Santo Ambrósio fazia aos cristãos a propósito da diminuição de baptizados, temos de a fazer nós, os padres: “como é que estamos a viver, que a nossa vida não é capaz de atrair mais gente para Cristo?”

 

A GUARDA: Faz sentido ter uma casa vazia de seminaristas e continuar a chamar-lhe Seminário?

 

Paulo Figueiró: Faz sentido porque o Seminário da Guarda não tem seminaristas neste momento, mas temos esperança, e o senhor bispo e o presbitério muita vontade, de voltar a ter. Mesmo que tenha outras valências, como casa de acolhimento de sacerdotes, sede de departamentos e movimentos, casa de reuniões e retiros, o Seminário permanece com o nome de Seminário porque formar futuros sacerdotes e diáconos é, e há-de continuar a ser, o seu principal objectivo e razão de ser.

 

A GUARDA: A Diocese da Guarda juntou no mesmo Departamento a Pastoral Juvenil, Universitária e Vocacional. Como analisa esta união, três em um?

 

Paulo Figueiró: Como outras coisas na Igreja, esta união surge por razões práticas (recursos humanos…) e ao mesmo tempo, creio, é providencial. O recente Sínodo dedicado aos jovens tem como tema “Os Jovens, a Fé e o Discernimento”. Ou seja, trabalhar com os jovens (Pastoral Juvenil) é ajudá-los a crescer na fé e a discernir a vocação (Pastoral Vocacional). Sendo que a Universidade da Beira Interior e o Instituto Politécnico da Guarda, entre outros estabelecimentos de ensino superior, são polos aglutinadores de boa parte dos jovens residentes na Diocese da Guarda, faz todo o sentido que os departamentos de Pastoral Juvenil e Vocacional trabalhem em conjunto com o departamento de Pastoral Universitária.

Sexta, 16 de Novembro de 2018