Entrevista: Valter Tiago Salcedas Duarte

Entrevista: Valter Tiago Salcedas Duarte

Entrevista: Valter Tiago Salcedas Duarte: Director do Departamento Diocesano da Catequese da Infância e da Adolescência

“A catequese continua a fazer parte da caminhada formativa duma grande maioria das crianças, na nossa realidade diocesana”

 

Valter Tiago Salcedas Duarte é natural da Covilhã. Frequentou a escola primária e ensino básico em Seia, o ensino secundário na Escola Campos Melo na Covilhã e fez Teologia no Instituto Superior de Teologia. Actualmente está a estudar Teologia Pastoral com especialização em Catequética, no Instituto Superior de Pastoral de Madrid. Foi ordenado sacerdote em Dezembro de 2008. Nos tempos livres gosta de ler e viajar.

 

 

A GUARDA: Os Departamentos da Catequese das dioceses de Guarda, Aveiro, Coimbra, Lamego, e Viseu, vão promover uma iniciativa conjunta de formação de catequistas sobre “novas adolescências”. Quais os objectivos desta formação?

 

Valter Duarte: Os Departamentos Diocesanos das Dioceses referidas, após uma reflexão em conjunto de há já alguns anos, foram constatando que a dificuldade de abordar a Catequese da Adolescência é cada vez maior. A realidade quotidiana em permanente transformação, o dilatar da própria adolescência por um período temporal cada vez maior, sendo que alguns estudos nos indicam que a mesma se distende até à faixa etária dos 22-23 anos e os desafios próprios que isso comporta, os reptos de uma realidade catequética algo desajustada a estas realidades, levaram a que tornasse cada vez mais desafiante ser catequista, e da adolescência em particular. Todo este conjunto de razões tornam urgente auxiliar os catequistas a adquirir um conjunto de novas ferramentas que os capacitem a enfrentar estas novas situações. Identificar dificuldades, saber reagir às mesmas, sem nunca perder de vista que um dos objectivos da catequese é ser um processo de acompanhamento humano aos catequisandos num também processo de iniciação cristã.

 

A GUARDA: Esta actividade vai decorrer quando e onde?

 

Valter Duarte: A formação inter-diocesana vai realizar-se no próximo dia 19 de Janeiro, Sábado, no Seminário Maior de Viseu. Escolheu-se a Diocese de Viseu tendo em conta a sua centralidade, esperando que a mesma possa facilitar uma maior participação dos catequistas das diferentes Dioceses.

 

A GUARDA: Quem é que pode participar nesta formação?

 

Valter Duarte: Esta formação é especialmente direcionada aos catequistas da Adolescência sendo, contudo, aberta a todos os outros catequistas que queiram participar. É, igualmente, uma excelente oportunidade para os párocos, e professores de EMRC, bem como outros educadores e até mesmo pais. O objectivo principal é ser auxílio no acompanhamento dos adolescentes, pelo que todos aqueles que os acompanham podem participar nesta formação.

 

A GUARDA: Há alguma razão especial para esta formação envolver as dioceses da Guarda, Aveiro, Coimbra, Lamego, e Viseu?

 

Valter Duarte: Existem, fundamentalmente, duas razões para que estas Dioceses se tivessem agregado num trabalho conjunto, que não sendo de agora, encontra aqui a sua primeira manifestação visível. Por um lado, é o recuperar do trabalho em comunhão das chamadas “Dioceses das Beiras” que funcionou já há algumas décadas e que entretanto, por variadas razões, tinha terminado. Por outro lado, e apesar de salvaguardar as respectivas especificidades e diferenças, aproxima-nos uma realidade eclesial semelhante, no que à catequese concerne, com dificuldades também elas semelhantes e com desafios que, trabalhando em conjunto e em comunhão, poderão ser ultrapassados de forma mais profícua, aproveitando recursos materiais e humanos.

 

 

A GUARDA: Na Diocese da Guarda o Departamento da Catequese da Infância e da Adolescência tem promovido encontros com catequistas dos vários arciprestados sobre o projecto de formação proposto pela Conferência Episcopal Portuguesa. O que é este projecto de formação e como é que está a ser implementado na Diocese?

 

Valter Duarte: Os encontros que o Departamento Diocesano tem realizado, com o Sr. D. Manuel Felício, em todos os Arciprestados da Diocese, tem dois momentos. O primeiro com os sacerdotes desse mesmo Arciprestado procurando conhecer a realidade catequética por um lado, e dar a conhecer o Plano de formação, por outro. No segundo momento acontece, então, o encontro com os Catequistas procurando, também, dar-lhes a conhecer os novos âmbitos do Plano de Formação e os desafios que ele comporta, bem como escutar as suas preocupações.

Estes encontros nasceram, diria, de uma feliz coincidência: A publicação da Carta Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa - “Catequese: A Alegria do Encontro com Jesus Cristo”, em Maio de 2017, que deu origem ao referido Plano de Formação de Catequistas, aprovado já em Setembro de 2018 e apresentado a nível nacional nas Jornadas Nacionais de Catequistas, e a nossa Assembleia Diocesana, em 2017, que reconheceu a importância e urgência da formação dos catequistas. Essa preocupação foi vertida na Carta Pastoral sobre a recepção da Assembleia Diocesana – “Guiados Pelo Espírito Santo, Igreja em Renovação”.

Ao percorrer toda a diocese com estes encontros os objectivos são acima de tudo dois. O primeiro é, obviamente, fazer despertar a consciência nos principais agentes catequéticos, párocos e catequistas, para a importância do acompanhamento que comporta necessariamente a atenção ao chamamento, dedicação ao ministério e compromisso com a formação. O segundo objectivo é ajudar a desconstruir uma ideia, ainda muito implementada, de que a catequese é sobretudo conhecimento de conteúdos. A catequese só cumprirá o seu objectivo se for apresentada como excelente oportunidade para o Encontro! Com Jesus, com o próprio e com a comunidade.

 

 

A GUARDA: Qual o balanço dos encontros realizados até agora?

 

Valter Duarte: O balanço dos encontros é positivo porque nos permitiu traçar mais claramente uma imagem da realidade diocesana. Fomos surpreendidos pela positiva nalguns arciprestados e de forma menos positiva noutros. Mas é sempre bom quando podemos trabalhar com a realidade e não com suposições.

Acima de tudo, nos encontros com os catequistas, pudemos encontrar centenas de homens e mulheres empenhados no seu ministério, muitas vezes desejosos de formação e atenção pastoral que muitas vezes não lhe conseguimos, ou não nos empenhamos suficientemente por dar. A Diocese da Guarda, ainda que bastante desertificada, tem que dar graças a Deus por toda a boa vontade, dedicação e espírito de missão que existe nos seus catequistas nunca, porém, deixando de ter presente que podemos sempre melhorar. Temos que estar muito gratos aos nossos catequistas!

 

A GUARDA: Olhando para a Diocese da Guarda qual a análise que faz do número de catequistas e de centros de catequese existentes?

 

Valter Duarte: A análise que faço relativamente ao número de catequistas é díspar. Isto porque constatamos que, nalguns locais, faltam catequistas e existe uma grande dificuldade em chamar, acompanhar e formar novos catequistas e, noutros locais, existem catequistas mas não existem crianças.

Numa análise a que chamaria simplista, penso que o número global de catequistas na nossa diocese não é suficiente para respondermos a todas as necessidades, pois constatamos, que em muitas paróquias, vários grupos estão entregues ao mesmo catequista, o que pode ser extenuante para o próprio e até contraproducente. Contudo a realidade vence, quase sempre, aquilo que seria ideal e as comunidades, em muitas situações, não têm capacidade para resolver todas as necessidades catequéticas com que se deparam. Isto vai ao encontro da urgência de se fazer uma reflexão muito séria acerca da implementação dos centros de catequese. Os que existem são ainda poucos. Porém quando falo de centros de catequese falo daquilo que deve ser realmente um centro de catequese. Um espaço que congregue crianças e adolescentes provindos de várias comunidades que por si só não tem capacidade de proporcionar uma caminhada catequética autêntica, seja por ausência de crianças e adolescentes, seja por ausência de catequistas. Mas também que os catequistas sejam provenientes das diferentes comunidades, para que as mesmas comunidades possam sentir que a formação e o crescimento da fé depende, necessariamente de uma boa iniciação cristã que lhes continua entregue e, ao contrário do que muitas vezes se julga e diz, “não lhes foi roubada”. Contudo penso que esta caminhada necessita ainda de uma grande reflexão, quer eclesiológica, quer mesmo cristológica, para que as comunidades lentamente cresçam neste sentido e elas próprias percebam que este pode ser um caminho, nalguns casos, e o único noutros.

 

A GUARDA: Em termos de frequência da catequese, onde é que se regista maior adesão?

 

Valter Duarte: A frequência da catequese, no que há adesão concerne, tem duas leituras. A numérica e a percentual. Naturalmente que se olharmos para os números, os ditos centros urbanos são os que registam uma maior frequência dos diferentes anos da catequese, ultrapassados as largas centenas. Contudo se olharmos para a percentagem, damos conta que nas pequenas paróquias a participação é consideravelmente maior. O número daqueles que não frequentam a catequese, em comparação com os ditos centros urbanos, é muito inferior.

 

A GUARDA: Ainda é fácil atrair os mais novos para a catequese?

 

Valter Duarte: A catequese continua, ainda, a fazer parte da caminhada formativa duma grande maioria das crianças, na nossa realidade diocesana. Seja por tradição ou por convicção, a verdade é que temos ainda a oportunidade de contribuir para a formação da Fé de muitos milhares de crianças, todos os anos, e que não podemos deixar de fazer um esforço cada vez maior para responder a esse desafio. Apesar disso há que fazer uma reflexão acerca de um dado importante e não menos preocupante: a natalidade decresce, as crianças nas escolas diminuem, mas na frequência da catequese diminui a uma velocidade maior! Isto tem que nos interrogar a todos: Bispo diocesano, responsáveis dos departamentos que estão encarregues dos diferentes níveis da formação, catequistas, famílias e comunidade cristã como um todo. A par disto, mais uma vez, importa lembrar a urgência e a necessidade duma formação sólida, para que a catequese não se transforme um ATL, mas seja um momento de reconhecida importância para a comunidade, famílias e crianças e adolescentes.

Quarta, 16 de Janeiro de 2019