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Bispo da Guarda presidiu às exéquias de Carlos Dâmaso, em Vila Franca do Deão

Foi com profundo pesar que a Diocese da Guarda recebeu a notícia do falecimento de Carlos Dâmaso, antigo autarca da freguesia de Vila Franca do Deão, que partiu de forma heróica, na defesa da sua terra, no combate a um incêndio que ameaçava a população e a região que sempre serviu com dedicação.

Na tarde de hoje, 19 de agosto de 2025, o Bispo da Guarda, D. José Pereira, presidiu às exéquias fúnebres, celebradas na igreja paroquial de Vila Franca do Deão, rodeado pela família, amigos, população local e diversas autoridades civis e eclesiásticas.

Na homilia, o Prelado destacou a fé em Cristo Ressuscitado como fonte de esperança diante da morte:

«O Senhor oferece-se como herança. A todos. Aos que padecem o acidente e a morte na primeira pessoa. Aos que sofrem pelo sofrimento e morte de terceiros muitos queridos. Para todos, Deus quer ser a possibilidade de uma Vida maior, quer ser a própria Vida maior».

Referindo-se ao exemplo de vida de Carlos Dâmaso, o Bispo sublinhou a entrega generosa à comunidade, o espírito de missão e a coragem de quem deu a vida pela sua terra.

A celebração foi também ocasião para rezar pela sua família, pela população de Vila Franca do Deão, por todos os que combatem os incêndios e pelos responsáveis que têm nas mãos decisões em favor do bem comum.

A Diocese da Guarda exprime a toda a família de Carlos Dâmaso, aos amigos e à comunidade local as mais sentidas condolências, confiando a sua alma à misericórdia de Deus.

Que a sua memória permaneça viva como testemunho de coragem, altruísmo e amor à comunidade, inspirando todos a servir o próximo com igual dedicação.

 

Partilhamos a homilia episcopal:

EXÉQUIAS DE CARLOS DÂMASO

(19 / Agosto / 2025)

HOMILIA

«A recordação da minha miséria e da minha vida errante é absinto e veneno. A pensar nisto constantemente, a minha alma desfalece dentro de mim. Eis o que vou recordar em meu coração para reavivar a esperança: a misericórdia do Senhor não tem fim, não tem limites a sua compaixão, mas renova-se todas as manhãs; é grande a sua fidelidade.»

Numa leitura mais apressada, esta frase que acabámos de ouvir pode sugerir um mecanismo psicológico de alienação face ao sofrimento que a vida tantas vezes nos traz. Sofrimento que chega, não poucas vezes, a parecer um absurdo. Mas seria uma alienação, se ela fosse uma projeção mental para um mero amanhã que virá.

Reparemos que não é isso que o texto diz. Ele convida-nos à recordação. A mesma palavra é usada para ter presente a realidade que faz sofrer e a realidade que lhe dá saída, que lhe abre uma superação. A Boa Nova anunciada diz-nos para não nos deixarmos esmagar pelo peso da miséria, deixando de reconhecer a força libertadora da misericórdia de Deus.

A miséria é esta condição humana frágil, sujeita à disrupção, à degradação, à ruptura e, no limite, à morte. A misericórdia é o modo como Deus se aproxima dessa realidade sem a iludir, sem a destruir para criar uma realidade paralela ou alternativa, mas antes para a salvar. Isto é, para a assumir e a levar a um horizonte maior, elevado, completo, pleno. 

O Senhor oferece-se como herança. A todos. Aos que padecem o acidente e a morte na primeira pessoa. Aos que sofrem pelo sofrimento e morte de terceiros muitos queridos. Para todos Deus quer ser a possibilidade de uma Vida maior, quer ser a própria Vida maior.

Em Jesus Cristo, Deus apresenta-se e oferece-se assim: «eu sou o caminho, a verdade e a vida.» Por isso aponta-nos: «não se perturbe o vosso coração.» Essa Vida maior não é uma possibilidade futura que cada um terá de alcançar com méritos próprios. Essa Vida maior é a vida de Jesus oferecida na sua Páscoa e comunicada a cada uma pela Palavra de Deus e pelos Sacramentos, pela vida comunitária e pela caridade. A cada um cabe acolher e percorrer o caminho que lhe é dado fazer em aliança.

A novidade está em aprender a estar onde Jesus está. Deste modo, em cada circunstância da vida: na saúde e na doença, na ação e na contemplação, na seriedade e no divertimento, no bem-estar e na dor. Jesus é, Ele próprio, o primeiro dos lugares que Ele preparou para nós: assumindo a nossa humanidade, fez da sua divindade unida a nós o lugar do nosso encontro com Deus. 

Cada um relaciona-se com Jesus a partir de diferentes modos de acesso: a simplicidade, a misericórdia, a pobreza, a clareza da palavra, a segurança, a renovação, a santidade e muitos outros. Já a este horizonte terreno, cada um encontra uma morada mais adequada para ser guiado até Deus. Esta morada não tem nada de um espaço físico, mas trata-se de um modo de estar em relação.

Mas a afirmação de Jesus é clara: esse lugar, esse modo não é apenas para agora; é sobretudo para quando ele vier de novo e nos levar consigo. Ninguém sabe ao certo quando isso será. O natural, se não houver acidentes externos ou internos (doenças), será quando o organismo parar naturalmente a sua capacidade de funcionar. Mas, por vezes, tal ocorre extemporaneamente, como na situação do nosso irmão Carlos Dâmaso. Em qualquer caso, o Senhor sempre se aproxima para nos resgatar da morte e nos levar para essa relação de vida plena que preparou para nós e a que chamamos de vida eterna.

Essa é, então, a verdade que Jesus anuncia. De novo, não se trata de uma mera realidade idealizada num futuro melhor. Mas a verdade também não é em primeiro lugar uma ideia ou teoria a captar intelectualmente. A relação viva e próxima com Jesus torna-se o “lugar” onde cada um se revê partir dos olhos de Jesus e se descobre no que já é, e na plenitude que lhe é tornado possível vir a ser, se caminhar em Jesus. Ele é a verdade.  

Como esses ditos “lugares” de encontro são preparados por Jesus para cada um, Ele que nos conhece no mais íntimo do nosso próprio íntimo, sempre oferece a cada um o que melhor convém a cada um. 

De novo «não se perturbe o vosso coração»: com uma fé explícita ou com uma procura difusa, com alguma clareza ou com muitas dúvidas, com uma pertença eclesial ou com uma espiritualidade sem Igreja, com a morte esperada ou apanhado de surpresa, Deus sempre apresenta a cada um o modo preparado e mais ajustado para o conduzir ao Pai, enquanto caminho, verdade e vida.

Mas estas realidades que nos apontam o sentido mais profundo do nosso existir, também nos ensinam os caminhos mais quotidianos dos nosso viver colectivo. Também na nossa convivência em sociedade, como nação e também enquanto sociedade de nações, habitamos a casa comum, anúncio da casa do Pai. Mas não a habitamos todos da mesma maneira: também nesta casa comum há muitas moradas, e Jesus ensina-nos a preparar lugares para todos e para cada um.

Se levarmos a sério esta provocação, emergem três realidades que mais imediatamente nos desafiam ao nível da nossa vida nacional.

Em primeiro lugar, o desafio da coesão social entre comunidades de diferentes origens etno-geográficas e culturais. Com mais ou menos medidas de regulação, com estas ou aquelas políticas de integração, somos chamados a reconhecermo-nos habitantes da mesma casa, que se enriquecem na partilha de diferentes “lugares” humanos e culturais. 

Em segundo lugar, o desafio da coesão territorial e do desenvolvimento regional. Mesmo sendo um país pequeno com fronteiras definidas no final do séc. XIII e sem conflitos regionais, somos uma casa única mas não somos um lugar uniforme. É preciso ultrapassar um discurso redutor e generalista sobre o Interior desertificado e envelhecido e preparar lugares com estruturas que se tornem atrativos para a fixação de novas empresas e famílias.

Em terceiro lugar, o desafio da gestão florestal e energética. Também neste campo, a nossa casa comum tem lugares distintos com necessidades distintas. Ordenar o mato e a floresta é diferente na Serra da Amoreira ou de Monsanto e na Serra do Pisco, da Estrela ou da Malcata. Aquecer e arrefecer habitações, é diferente em Lisboa ou Oeiras e na Guarda ou Castelo Branco. É preciso oferecer atenções diferentes a lugares diferentes.

Desafiados a traduzir na vida social os horizontes que Palavra de Deus abre, terminemos esta meditação voltando a escutá-la: «O Senhor é bom para quem n’Ele confia, para a alma que O procura. É bom esperar em silêncio a salvação do Senhor».

Nesta hora e nesta celebração, façamos agora silêncio e rezemos com confiança pelo Carlos Dâmaso: se ele ainda necessitar, que a nossa oração lhe aproveite à purificação dos sentidos sobrenaturais para poder ver face a face Aquele que a alma procura. 

Rezemos também pela sua família, por todos os que se vêem ameaçados pelos incêndios, pelos que combatem os fogos, e por todos os que têm responsabilidades de decisão em favor do bem comum.

+ José Pereira, Bispo da Guarda