CATEQUESES QUARESMAIS
“RENOVAI-VOS E REVESTI-VOS DO HOMEM NOVO”
VI
A dimensão pessoal e comunitária da Reconciliação e a Eucaristia
Neste sexto passo do itinerário quaresmal que propus fazermos juntos, à luz da exortação bíblica “Renovai-vos e revesti-vos do homem novo”, quero meditar sobre “A dimensão pessoal e comunitária da Reconciliação e a Eucaristia”. Escutemos o que nos diz o evangelho segundo São Mateus:
«Portanto, se fores apresentar a tua oferta sobre o altar e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão e vem depois apresentar a tua oferta. Reconcilia-te com o teu adversário, enquanto vais com ele a caminho.»
(Mt 5, 23-25a)
Do texto que escutámos ressaltam duas afirmações. Em primeiro lugar, a reconciliação com Deus só é possível no horizonte da reconciliação com o irmão. Simultaneamente, a reconciliação com Deus e o irmão tem o seu ponto de partida e de chegada na oferta realizada sobre o altar.
Comecemos pela primeira. Como temos vindo a aprofundar neste itinerário quaresmal, a conversão e o caminho de reconciliação encetado pelo ser humanoquando faz a experiência de salvação em Jesus Cristo, tem sempre, no início, a iniciativa gratuita de Deus trino, que torna possível aquilo que ao ser humano já não o era.
De facto, é o Pai, pelo Filho, quem chama do medo e da autorreferencialidade ao amor, e reconcilia a humanidade. Do mesmo modo, é o Espírito divino, Espírito da Verdade, que ilumina o coração do ser humano, lhe revela o seu estado de pecador, e o encaminha para o acolhimento da redenção.
Pois é o próprio Espírito de Deus quem dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus (cf. Rom 8, 26), uma vez que Ele, perscrutando as profundezas de Deus que é amor e, simultaneamente, revelando à alma humana a sua condição de imagem do Verbo de Deus, a resgata da ilusão da auto-suficiência e a atrai à comunhãoe intimidade com Deus.
Assim se realiza um regresso a Deus, que não é pois uma mera adesão a certas verdades ou doutrinas (qual crença ideológica), mas uma experiência vital de seguimento da pessoa de Jesus, realizando o corte com o pecado, o egoísmo e o orgulho humanos, e reflectindo a imagem de Deus.
Aqui vale a pena determo-nos um pouco. Que imagem de Deus habita o nosso imaginário e experiência crente? Podemos pensar num ente superior, poderoso, capaz de ordenar todas as forças da natureza e harmonizá-las, uma potência cósmica: isso seria uma divindade animista (segundo concepções mais antigas), ou uma energia monista universal (segundo concepções recentes), mas não o Deus único revelado por Jesus.
Podemos pensar num ser perfeito, dotado de todas as propriedades positivas em grau pleno, princípio e artífice de toda a criação, que a pôs em marcha com todas as potencialidades para o seu evoluir na história, e assiste impávido e expectante, fechado em si mesmo, até que o tempo e a história cheguem ao seu cume: isso seria uma divindade racional, de matriz maçónica, mas não o Deus único revelado por Jesus.
Podemos pensar ainda num ser perfeito dotado destas mesmas características, mas intervindo arbitrariamente na história e nas leis da natureza, causa imediata de tudo o que acontece, próximo daqueles a quem assiste milagrosamente, mas distante de outros a quem deixa entregues ao sofrimento ou até persegue e destrói: isso seria uma divindade providencialista e exclusiva, mas não o Deus único revelado por Jesus.
Quem é, então, Deus que Jesus vem revelar? É Aquele que se apresenta como um só Deus, mas não um Deus só. É o único Deus, mas não solitário. É um Deus-comunidade, comunhão interpessoal (Pai, Filho e Espírito Santo), criador e sustento não só de todas as coisas mas de todas as relações. É um Deus-relação, dom absoluto de Si mesmo (dentro de Si e para fora de Si), recriador e consumador de todas as coisas e relações.
A esta luz, criada pelo Pai, redimida em Cristo e iluminada pelo Espírito Santo, a humanidade pode então encetar um caminho de reconciliação e conversão. As quais implicamuma verdadeira mudança de vida: já não um auto-aperfeiçoamento e uma busca de auto-realização: mas uma inabitação (Deus em nós e nós em Deus); uma cristificação (Cristo em nós e nós em Cristo); uma união mística (a unidade na distinção e a incorporação de membros diversos em Cristo, operada pelo Espírito Santo).
Reparemos: cada uma destas operações – inabitação, cristificação e união mística – tem sempre uma dupla relação: a de Deus com o fiel (em cada um de nós); inseparável da relação de Deus com a comunidade dos fiéis (entre nós).
Isso mesmo nos é narrado na história de Deus com a humanidade quando Deus, ao estabelecer relação com uma pessoa, sempre a constitui em relação com os outros: assim o vemos na fundação do povo de Deus, naunificação do Reino de David, na unção de reis e profetas para o serviço do povo, no chamamento de discípulos para andarem com Ele em comunidade, na instituição dos Doze para a missão apostólica, no anúncio aos gentios e formação de um só povo.
Igual dinamismo vemos quando Jesus perdoava os pecados, curava os doentes e libertava dos demónios: o bem feito a alguém era acompanhado da sua reintegração na comunidade e servia de apelo ou confirmação da fé não só do próprio, mas da sua família e amigos, dos presentes que testemunhavam o feito, e da multidão que acabaria por ouvir falar do mesmo.
Podemos, agora, melhor compreender a palavra que Deus nos dirige na primeira carta de São João: «Se alguém disser: “Amo a Deus” e odiar o seu irmão, é mentiroso. Quem não ama o seu irmão, que vê, não pode amar a Deus, que não vê. É este o mandamento que recebemos d’Ele: quem ama a Deus ame também o seu irmão» (I Jo 4, 20-21).
A mentira, aqui, não é uma simples atitude moral, como quem procura enganar. É uma efectiva negação da realidade, uma contradição dos termos, um esvaziamento insanável: amar a Deus é necessariamente amar os irmãos; quem não ama o irmão, “não pode”, não lhe é possível amar a Deus.
De igual modo, reconciliar-se com Deus é necessariamente reconciliar-se como os irmãos. Quem não faz o que está ao seu alcance, o que Deus lhe torna possível, para se reconciliar com o irmão, não pode, não é capaz de se reconciliar com Deus. Porque permanece fora da dinâmica do amor de Deus, que é um Deus comunidade e doação.
Chegados aqui vale a pena fazermos um exame de consciência, individual e comunitário. Os nossos arrependimentos individuais conduzem ao empenhamento fraterno na conversão das relações? Os nossos caminhos anuais de penitência geram espaços de reconciliação das relações? Os nossos empenhamentos pessoais de santificação levam-nos ao compromisso com a construção comunitária e com a justiça e a paz?
E quanto às nossas celebrações? As nossas confissões sacramentais auriculares geram compromisso fraterno e conversão nos modos de relação? As nossas celebrações penitenciais (tenham ou não tenham confissões sacramentais auriculares) enviam-nos para o empenhamento solidário nos caminhos da reconciliação social e do bem comum?
As nossas vigílias e orações tornam-nos próximos de quem tem uma relação intermitente com a Igreja, ou de quem dela se afastou magoado ou zangado por alguma razão, e disponíveis para encontrar maneiras de reconciliação? As nossas celebrações da Palavra geram conversão do olhar e comunhão evangélica? As nossa celebrações eucarísticas tornam-nos mais Corpo de Cristo e cuidadores do mundo nas suas rupturas?
Meditemos, agora, na segunda afirmação extraída do texto de São Mateus escutado no início da catequese: a reconciliação com Deus e os irmãos tem o seu ponto de partida e de chegada na oferta realizada sobre o altar.
Como já aprofundámos nas catequeses anteriores, Jesus transformou radicalmente a oferta cristã sobre o altar. Com o sacrifício de Si mesmo de uma vez para sempre, pôs término aos sacrifícios de expiação, oferecidos anualmente para tentar purificar-nos dos pecados.
Pela sua imolação de caridade, permanecendo unido a Deus até ao fim, mesmo na morte, e tornando-se assim caminho e ponte do nosso regresso à união com Deus, Jesus anulou a separação que o pecado havia cavado, curou as rupturas relacionais dele decorrentes, e reconciliou-nos com Deus e entre nós.
Isso mesmo foi revelado por Jesus quando instituiu a Eucaristia, antecipando sacramentalmente a sua entrega na Cruz:
«Pai santo, guarda-os em teu nome, o nome que Me deste, para que sejam um, como Nós. Consagra-os na verdade. […] Eu consagro-Me por eles, para que também eles sejam consagrados na verdade. […] Que eles sejam todos um, como Tu, Pai, o és em Mim e Eu em Ti, para que também eles sejam um em Nós e o mundo acredite que Tu Me enviaste. Eu dei-lhes a glória que Tu Me deste, para que sejam um, como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim, para que sejam consumados na unidade e o mundo reconheça que Tu Me enviaste e que os amaste como a Mim».
(Jo 17, 11b.19.21-23)
Eis a realidade central da eucaristia: actualizarsacramentalmente na vida dos discípulos a consagração de Cristo por todos e a fazer-nos participar na unidade do Pai e do Filho. Jesus prometera por cinco vezes, nessa primeira eucaristia, que enviaria o Espírito Santo para nos consagrar e guiar na verdade. É Ele que realiza hoje e sempre, na Igreja e em favor do mundo, a reconciliação operada por Cristo e comunicada na eucaristia.
A eucaristia permanece na Igreja o dom mais excelente que lhe é dado por Deus. A razão mais imediata e evidente é a presença real de Cristo, como comida e bebida nas espécies consagradas que, mantendo a aparência e as propriedades físicas de pão e vinho, foram verdadeira e substancialmente transformadas no seu Corpo entregue na Cruz e ressuscitado glorioso e no seu Sangue derramado,para nos redimir dos pecados.
Mas anteriormente a essa presença e como possibilidade para a mesma, a eucaristia é o dom permanente da entrega pascal de Cristo que, realizada uma única vez e para sempre, permanece como realidade viva e actuante da reconciliação redentora operada por Jesus.
Tomemos atenção: a eucaristia não existe, em primeiro lugar, para termos Jesus no sacrário e O visitarmos de vez em quando. Ela existe para termos Jesus em nós operando a nossa reconciliação e a incorporação n’Ele. Ela existepara que nos tornemos sacramento vivo da sua presença e entrega de amor. Ela existe como dom de Deus para a nossa santificação e comunhão com Deus e entre nós.
Porque alguns não podem vir à eucaristia, o Santíssimo Sacramento permanece depois da eucaristia no sacrário. E por isso, nós O guardamos nas nossas capelas, O visitamos, O adoramos. Reparemos bem: sim, as capelas são os lugares da presença de Deus entre nós, nas nossa terras, para que O visitemos, O adoremos e O louvemos. Por isso nelas se deve celebrar missa de vez em quando, para renovar o pão consagrado de modo que não deteriore, e para alimentar os que não se podem deslocar da sua terra.
Mas para a celebração continuada da eucaristia é preciso haver quem queira construir uma comunidade com outros, quem queira superar divisões e reconciliar relações, quem queira assumir a missão de anunciar e tornar presente a Páscoa de Jesus, quem queira tornar-se Corpo de Cristo, superando a lógica da prática individual e comprometendo-se na construção da comunidade cristã e da fraternidade universal.
Reparemos: podemos desvirtuar a eucaristia com as nossa celebrações. Quantas vezes estamos juntos fisicamente mas não comungamos uns com os outros? Cada um está na sua missa, à procura do que o faz sentir-se bem, às vezes até com gestos particulares diferentes dos da assembleia, mas não se une aos que estão a seu lado. Quantas vezes estamos na missa a avaliar a presença e desempenho dos outros, e não superamos as divisões?
Quantas vezes a missa se torna um produto de consumo religioso, a que recorro apenas quando me dá jeito, mas não se prolonga no compromisso com o serviço à Igrejanem com os mais pobres e necessitados? Quantas vezes a missa é um pretexto para a festa da terra mas não fideliza avida na comunidade cristã? Quantas vezes a missa me fecha no meu ambiente (só vou se for cá na terra) mas não me alarga à paróquia toda, nem desperta o amor e o cuidado pela igreja diocesana e universal?
Deixemos que seja a palavra de Deus a iluminar-nos, por meio da carta de São Paulo aos Coríntios:
«Irmãos: Ao dar-vos as minhas instruções, não posso louvar as vossas assembleias, que, em vez de serem proveitosas, se tornam prejudiciais. Em primeiro lugar, ouço dizer que há entre vós divisões, quando vos reunis em assembleia; e em parte, acredito nisso. […] Quando vos reunis em comum, já não é para comer a ceia do Senhor, pois cada um se adianta a comer a sua própria ceia e, enquanto um passa fome, outro fica embriagado. Será que não tendes as vossas casas para comer e beber? Ou desprezais a Igreja de Deus e envergonhais aqueles que são pobres? Que vos direi? Devo louvar-vos? Nisto não vos louvo. Porque eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o pão e, dando graças, partiu-o e disse: «Isto é o meu Corpo, entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim». Do mesmo modo, no fim da ceia, tomou o cálice e disse: «Este cálice é a nova aliança no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim». Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha».
(I Cor 11, 17-26)
É provocadora esta palavra. Não é minha, é do Senhor! Podemos correr o risco de vivermos a missa, não para nos alimentarmos da eucaristia do Senhor, mas para comer cada um a sua própria ceia, satisfazer os seus próprios interesses, sem se deixar unir a Deus e aos irmãos.
A eucaristia arranca-nos dessa inclinação mais espontânea e autocentrada, e faz-nos corpo de Cristo. Por isso os bispos de Portugal recordavam-nos, a propósito do último Congresso Eucarístico Nacional em 2024, essa afirmação de fé: «a Igreja faz a Eucaristia e a Eucaristia faz a Igreja».
Desde o princípio ao fim da missa, são muitos os sinais que nos recordam e realizam em nós o perdão dos pecados e a reconciliação com Deus enquanto realidade comunitária: somos convocados e reunidos em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo; confessamos a Deus e aos irmãos os nossos pecados e recebemos uma absolvição não sacramental (para os pecados leves) que nos dispõe para a celebração sacramental eucarística da comunhão.
Do mesmo modo, escutamos em assembleia a Palavra de Deus; somos exortados a sentimentos comuns de conversão por meio da homilia; professamos a uma só voz a fé comum; rezamos uns pelos outros e juntos pelo mundo inteiro.
Recolhemo-nos, ainda, como um só diante da actualização da entrega de Cristo; aclamamos em uníssono com a assembleia celeste (no início e no fim da liturgia eucarística); rezamos como irmãos a oração dos filhos de Deus; caminhamos como povo ao encontro de Deus para a comunhão; unimo-nos em silêncio adorante como ponto mais elevado da união do corpo místico de Cristo com a sua Cabeça.
Mas quero aqui ressaltar dois sinais que, infelizmente, passam despercebidos ou, um deles, até se foi perdendo: a fracção do pão, e a comunhão do pão consagrado sobre o altar na própria celebração: deste modo se manifesta «que os fiéis, apesar de muitos, se tornam um só Corpo, pela Comunhão do mesmo [e único] pão da vida que é Cristo»e que por ela assumem a «participação no sacrifício que está a ser celebrado» (cf. IGMR 83.85).
O gesto da fracção do pão, tantas vezes ofuscado pela agitação que ocorre no gesto da paz, assinala que só a redenção de Cristo na Cruz é fonte e realização da reconciliação que nos dá a paz com Deus e entre nós (por isso a oração do Agnus Dei nunca deve ser substituída por cantos da paz).
A comunhão do pão consagrado que vem do altar proclama que o sacrifício pascal da Cruz de Cristo que está a ser celebrado é uma realidade viva que se actualiza em nós que tomamos parte na celebração (só se necessário se deve recorrer à reserva no sacrário).
Pois esta dimensão redentora da Cruz de Cristo é o que meditaremos na próxima catequese.
D. José Pereira, Bispo da Guarda
