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Covilhã: O poder da desinformação

O Centro de Espiritualidade Francisco Álvares (CEFAS) promoveu, na noite de 13 de maio, mais uma edição das “Conversas de Café”, desta vez subordinada ao tema “O Poder da Desinformação”.

A iniciativa decorreu na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, na Covilhã, inserida na Semana da Comunicação Social na Igreja, e contou com a presença de mais de 60 jovens e vários adultos.

O convidado da noite foi José António Pereira, jornalista da RTP e professor da Universidade da Beira Interior, que conduziu uma reflexão próxima, concreta e profundamente humana sobre os desafios da comunicação nos dias de hoje.

Ao longo da conversa, o jornalista partilhou o percurso que o levou ao jornalismo, recordando as histórias que ouvia dos avós e as primeiras experiências em rádios e jornais locais. Sublinhou também a importância de os jornalistas apresentarem propostas próprias às redações e defenderem um jornalismo próximo das pessoas e das realidades esquecidas.

Autor da rubrica “O que vai no Interior”, José António Pereira destacou a necessidade de dar voz aos territórios do interior do país, alertando para as dificuldades financeiras que deixam muitas regiões sem órgãos de comunicação social e com recursos humanos reduzidos, mesmo nas delegações regionais da RTP. Nesse contexto, considerou que os jornais locais que continuam a resistir “são de louvar”.

A desinformação ocupou naturalmente o centro da reflexão. O jornalista afirmou que “ninguém está livre de ser alvo de desinformação” e alertou para o papel das redes sociais como “fábrica de desinformação”. Defendeu, por isso, a importância da literacia mediática e recordou que o jornalista se rege por um código deontológico, procurando transmitir “toda a verdade naquele momento”.

Houve também espaço para refletir sobre a relação entre a Igreja e a comunicação social. José António Pereira considerou existir “um caminho a fazer” entre ambas as realidades, desafiando a Igreja a promover o respeito pelo jornalismo sério e responsável e a ajudar a “separar o trigo do joio”.

Recordando o Papa Francisco, evocou o apelo a uma comunicação que construa pontes, lamentando que a sociedade atual esteja “refém da velocidade” e tenha perdido a capacidade de escutar e dialogar. “Vivemos num ambiente crispado, muitas vezes a discutir ao lado do essencial”, afirmou.

Questionado sobre o futuro do jornalismo perante a inteligência artificial, reconheceu que muitas mudanças estão já em curso, mas defendeu que nenhuma máquina conseguirá aproximar-se das pessoas da forma profundamente humana que um jornalista pode fazer. “As pessoas têm de continuar no centro”, sublinhou.

Dirigindo-se especialmente aos jovens universitários presentes, deixou ainda um conselho sobre a comunicação com verdade nos dias de hoje: “Às vezes não há manual. Importa perguntar sempre: ‘E se fosse comigo? Até onde queria que fossem?’”.

Num dos momentos mais marcantes da noite, falou da cobertura de situações de sofrimento e fragilidade humana, recordando episódios vividos durante os incêndios de Pedrógão. Sublinhou a importância de saber quando retirar o microfone, respeitando a dor e a dignidade das pessoas. “Há espaço para a dor, mas não para explorar a dor”, afirmou.

A sessão terminou com um diálogo aberto entre os participantes e o convidado, num ambiente de proximidade e reflexão, reafirmando a importância de uma comunicação fiel à verdade, humana e construtora de pontes.