«Àquele que nos ama e pelo seu sangue nos libertou do pecado e fez de nós um reino de sacerdotes para Deus, seu Pai, a Ele a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amén» (Ap 1, 5a-6).
Esta celebração da missa crismal, durante a qual abençoamos os óleos que durante o ano servirão para as diferentes unções sacramentais – dos baptizandos, dos crismandos, dos doentes, dos ordinandos – testemunha também estas passagens da Escritura que acabámos de ouvir.
De facto, pela unção sacramental Cristo predispõe e comunica a todos os discípulos o mesmo e único Espírito do Senhor que O ungira e enviara, e faz de nós um reino de sacerdotes, libertos do pecado pelo seu sangue, alimentados à mesa do seu corpo e participantes da sua missão libertadora.
Assim nos ensina o 2º Concílio Vaticano, na Constituição dogmática Lumen Gentium: «os fiéis, por sua parte, concorrem para a oblação da Eucaristia em virtude do seu sacerdócio real, que eles exercem na recepção dos sacramentos, na oração e acção de graças, no testemunho da santidade de vida, na abnegação e na caridade operosa […].
O Povo santo de Deus participa também da função profética de Cristo, difundindo o seu testemunho vivo, sobretudo pela vida de fé e de caridade [e] por meio do sentir sobrenatural da fé do povo todo.
Além disso, [o] Espírito Santo […] distribui também graças especiais entre os fiéis de todas as classes, as quais os tornam aptos e dispostos a tomar diversas obras e encargos, proveitosos para a renovação e cada vez mais ampla edificação da Igreja» (LG 10.12). Vejamos, por partes, cada uma destas dimensões do povo ungido do Senhor: sacerdotal, profética e real.
A dimensão sacerdotal consiste na santificação de vida que não é um autoaperfeiçoamento mas uma transformação que se alimenta na oblação da Eucaristia, a qual actualiza a libertação do pecado pelo sangue de Cristo e a inserção no corpo da Igreja pelo alimento do corpo de Cristo.
Aprofundaremos esta meditação na homilia desta tarde, ao celebrarmos a refeição memorial da instituição da eucaristia e do sacerdócio ministerial. Neste momento apenas quero reforçar o que já vos disse na última das sete catequeses que fui pregando nesta Quaresma, e que vos convido a ler: não há vida nova em Cristo sem comunidade cristã, não há comunidade cristã sem Domingo e o coração do Domingo é a assembleia eucarística dominical.
Nós precisamos de estar presentes na celebração que traz até ao nosso hoje a ceia de Jesus que antecipou a Páscoa. Essa ceia que nos permite ouvir a sua voz, comer do seu Corpo e beber do seu Sangue, e ser alcançados pela potência da sua Páscoa. Sem ela, ficamos apenas por uma vaga participação na vida de Jesus.
Nós precisamos de estar presentes na assembleia dominical paroquial pela qual se edifica a Igreja e alimenta a dimensão sacerdotal dos fiéis. Não basta estar quinzenal ou mensalmente, ou trocar por um dia de semana. Sem o domingo perdemos a novidade cristã e facilmente podemos resvalar para uma espiritualidade religiosa entre outras.
Onde não houver eucaristia dominical, deverá haver assembleia dominical de louvor, acção de graças, súplicas e escuta orante da Palavra de Deus. A nossa dimensão sacerdotal de fiéis convoca-vos, queridos leigos, a assumir, com a devida preparação, a missão de conduzir estas assembleias sem missa. É preciso discernir, com os párocos, quem é chamado e deve preparar-se para tal.
Nesta hora da nossa Diocese, temos de olhar com determinação para esta realidade. Podemos correr o risco de querer manter eucaristias dominicais que já não são capazes de reunir uma assembleia, construir uma comunidade, formar um corpo com membros de diferentes gerações, constituir uma casa que acolhe, enviar discípulos em missão, renovar-nos como reino de sacerdotes para Deus.
Todas as pessoas e lugares precisam de não ser abandonados e continuar a ter assistência espiritual e presença do pároco e de outros ministros, que os visitem com regularidade durante a semana. Sobretudo os mais frágeis que já não se conseguem deslocar.
Mas aqueles que ainda o podem fazer, precisam de ser reencaminhados para assembleias eucarísticas dominicais que alimentem neles a pertença comunitária a uma paróquia, isto é, a uma comunidade inter-geracional de famílias e grupos, de vocações e serviços, de configuração da identidade cristã e crescimento espiritual, de participação na vida da Igreja e envio missionário.
Olhemos agora a dimensão profética. Não se trata do simples testemunho de quem dá bom exemplo de cidadania, de honestidade e competência no trabalho, de bondade no trato, de convicções religiosas respeitadoras de quem crê diferente ou não crê. Tudo isto é necessário e bom.
Mas o dinamismo profético, ouvíamos, é a difusão do testemunho vivo de Cristo, pela vida da fé e de caridade, que não se limita a um conjunto de doutrinas e valores, mas oferece um proposta de redenção, iluminação, libertação e graça para omundo. No respeito pela autonomia das realidades seculares e pela liberdade religiosa, somos enviados ahabitar o espaço público, partilhando-o com outrasvisões filosóficas, religiosas ou ateias, mas contribuindo activamente para a construção social e cultural.
Sem nos retirarmos para a exclusividade do espaço das igrejas ou das consciências individuais. Sem temer que a nossa presença ofenda quem crê diferenteou não crê; sem impor nem pedir favores; sem precisar de licença nem ser arredado de lugares públicos como se a neutralidade do Estado fosse “ou todos ou ninguém”.
Olhemos agora a dimensão real. Trata-se de participar, segundo o modo próprio da vocação de cada um, no cuidado da construção e condução da comunidade. Tanto na disponibilidade para assumir serviços e ministérios, em comunhão com os párocos,segundo as necessidades da comunidade; como nocuidado da comunidade diocesana, em áreas e sectores que estejam necessitados.
São necessários fiéis leigos que assumam responsabilidades de animação pastoral e formação da fé nas paróquias e anexas; de animação deassembleias cristãs de oração em lares, prisões, casas de saúde; de animação de grupos com quem não participa plenamente na assembleia eucarística; de orientação de exercícios espirituais, grupos bíblicos,formação doutrinal.
São necessários casais que se preparem para assumir responsabilidades de animação pastoral das famílias,em áreas como o namoro e a viuvez, a liturgia doméstica e a educação da fé dos filhos, e espiritualidade conjugal e o cuidado na doença crónica e incapacitante. E com atenção pastoral às situações de fragilidade e ruptura, e às diversas configurações de lares constituídos.
São necessárias mulheres que assumam mais serviços e possíveis ministérios em lugares de responsabilidade e condução na comunidade diocesana. Além da lógica do debate social do acesso da mulher a funções de liderança. No horizonte davalorização do que é singular e complementar entre o feminino e o masculino, a partir da simbólica bíblica, em ordem ao crescimento da fé e da comunidade.
Nesta mudança epocal, marcada pela crise da dimensão comunitária e do sentido sobrenatural da vida, e pelo advento da Inteligência Artificial e do chamado transumanismo ou pós humanismo, tanto a visibilização da dimensão materna da solicitude de Deus, como a esponsalidade feminina consagrada ao Senhor ao serviço de uma nova fraternidade podem inspirar novos serviços de relevo.
Associados à gestação e condução de novas reconfigurações comunitárias do corpo (eclesial) de Cristo, à definição de novos paradigmas de anúncio do querigma pascal, a novas linguagens de transmissão da fé, à iniciação cristã de adultos num mundo não cristão.
O 2º Concílio do Vaticano, no mesmo documento,ensina também que no seio deste sacerdócio real de todo o povo, existe e serve-o o sacerdócio ministerial. Diz-nos a Lumen Gentium que «o sacerdote ministerial, pelo seu poder sagrado, forma e conduz o povo sacerdotal, realiza o sacrifício eucarístico fazendo as vezes de Cristo e oferece-o a Deus em nome de todo o povo» (LG 10).
Também chamados “Sacerdotes do Senhor” e “Ministros de Deus”, nesta Missa crismal podemos acompanhá-los na renovação das suas promessas sacerdotais que irão fazer daqui a pouco, rezando com eles e por eles.
Dirijo-me agora a vós, queridos padres. Por este nome pelo qual o santo povo de Deus vos chama, ele mesmo sinaliza que espera de vós que, à maneira de Jesus, sejais para ele o rosto e a presença visível e próxima da paternidade de Deus.
De modo semelhante, a Igreja chama-vos de pastores. Sinaliza que renunciastes a outras ocupações e trabalhos para serdes, inteiros e em todo o tempo, guias e nutridores dos fiéis que estão confiados ao vosso pastoreio.
Diz também de vós, agirdes in persona Christi Capitis, isto é, na pessoa de Cristo Cabeça, sinalizando a vossa consagração a Cristo, no ser e no agir, e à Igreja seu Corpo.
Essa consagração, ensina a Igreja na encíclica Pastores dabo vobis, é vivida como configuração a Cristo Pastor à maneira do Esposo que se entrega à Igreja sua esposa, e Cabeça à maneira do Servo, qua dá a vida pela salvação da multidão.
Por isso renunciastes à conjugalidade para amardes a Igreja inteira, primeiramente na Diocese, como a vossa esposa; e renunciastes ao mando e a projectos pessoais para terdes como vossos os amores e os projectos de Cristo.
Com todo o povo santo da nossa Diocese quero agradecer-vos publicamente a vossa entrega generosa, tantas vezes abnegada, tantas outras na discrição e sem que alguém se aperceba, senão o próprio Deus. E rezamos por vós, para que sempre vos sustente o Espírito Santo, na renovação de tão generosa entrega.
Irmãs e irmãos, a minha última palavra vai para o nosso Seminário da Guarda. Precisamos de cuidar dele com renovado empenho e dedicação. Ele é o coração da Diocese, enquanto instância de promoção da pastoral vocacional de rapazes e raparigas, de oferta de formação espiritual e pastoral a todos, e garante do acompanhamento dos nossos seminaristas em chave missionária e sinodal.
Para conseguir maior alcance nesta intenção que já vinha sendo implementada, informo que, depois de ouvidos os diferentes Conselhos diocesanos, os nossos seminaristas irão ser recebidos no Seminário de Lisboa a partir do próximo ano. Para esta realidade de que vos dou notícia, peço a vossa oração.
