«Renovai-vos pela transformação espiritual da vossa inteligência e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus na justiça e na santidade verdadeiras» (Ef 4, 23-24).
Com esta afirmação de São Paulo à comunidade cristã eclesial de Éfeso, desejo propor a todos nós, comunidade cristã eclesial Egitaniense, o caminho quaresmal de transformação e conversão das relações a que o recente magistério papal nos convoca:
«Para ser uma Igreja sinodal é necessária, portanto, uma verdadeira conversão relacional. Temos de reaprender do Evangelho que o cuidado das relações não é uma estratégia ou o instrumento para uma maior eficácia organizacional, mas é o modo como Deus Pai se revelou em Jesus e no Espírito. Quando as nossas relações, mesmo na sua fragilidade, deixam transparecer a graça de Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito, confessamos com a vida a fé em Deus Trindade» (Para Francisco, in Documento final da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, 50).
O impulso natural e a lógica do mundo impelem-nos a atitudes reactivas traduzidas em expressões como “olho por olho, dente por dente”, ou “quem mas faz, paga-mas”, ou “não vou deixar que me comam as papas na cabeça”. Por vezes, de forma um pouco mais elaborada, o mesmo sentimento é expresso em afirmações como “não pode calhar sempre aos mesmos” ou “enquanto fulano não mudar, eu também não mudo”, ou “enquanto não houver um pedido de desculpa, não quero nada com ele”.
Estas manifestações, presentes no coração do ser humano em todas as épocas, aparecem ainda mais acentuadas neste tempo de polarização e reação extremada, tantas vezes traduzidas no populismo excludente e no reactivo cancelamento, no protesto recorrente, na reivindicação desequilibrada de direitos, na suspeição permanente, na contínua imputação auto-desresponsabilizante de culpa a terceiros.
Neste contexto, a Quaresma oferece-se-nos como tempo favorável para uma proposta renovadora e libertadora.
Ela começa por nos propor uma transformação espiritual da inteligência. Trata-se de uma mudança de olhar que nos abre para uma leitura nova da realidade. De facto, a inteligência convertida pelo Espírito Santo, permite “intus legere”, ler por dentro das coisas e não apenas pelas reações que elas despertam.
Esta leitura interior não é uma abstração subjectiva. Pelo contrário, ela torna-nos capazes de ser conduzidos pelo Espírito Santo mais a fundo para reconhecer a raiz das coisas; para descobrir a origem onde permanece o coração a cuidar, antes de todas as deformações, fragilidades, erros ou maldades que entretanto se apegaram. O seu e o dos outros.
De igual modo, o Espírito Santo eleva o nosso olhar para compreendermos que nada, nem o erro, nem o pecado, pode impedir-nos de prosseguir para a meta que nos espera em Cristo Jesus. Assim, se nada é suficientemente capaz de impedir esse caminho, então ninguém está impedido de poder percorrê-lo, não importa quantas vezes caia, desista, divirja ou até o impeça. O próprio e os outros.
À luz do Espírito Santo, a inteligência descobre o outro como um irmão a cuidar, tanto mais atentamente quanto mais as suas atitudes ou acções o tornem necessitado de auxílio. Seja enquanto vítima de ofensas, seja enquanto autor das mesmas.
A Quaresma apela-nos consequentemente a revestirmo-nos do homem novo, à imagem de Deus. Trata-se de uma transformação a partir de dentro, de uma configuração capaz de transparecer a imagem de Deus impressa no nosso íntimo, e não apenas de um conjunto de práticas anuais de renúncia ou benevolência, que apenas permitem uma mudança superficial e delimitada no tempo.
À maneira de Cristo, o Homem pleno e definitivo (em latim, novissimus não se refere em primeiro lugar às coisas diferentes mas às coisas últimas e definitivas), a conversão quaresmal propõe a mudança do modo de ser e amar, e não apenas de ver. Porque ser imagem de Deus é amar como Deus revelou amar em Jesus Cristo, é tornar-se à maneira de Jesus, permanecendo nos seus sentimentos e gestos.
Esta mudança não vai lá apenas com boas intenções ou com proclamações. Inaugurada pela acção da graça divina comunicada a cada uma pelo Espírito Santo, ela aprofunda-se numa aliança entre a mesma graça e a resposta humana. Aí, tem papel importante o cultivo da penitência como virtude e não apenas como acto.
Importa, pois, tomarmos consciência desta acção concertada entre a natureza humana e a graça divina, suas dinâmicas e ferramentas, oposições e frutos. Assim, proponho à nossa Diocese um caminho alimentado por um conjunto de sete catequeses quaresmais, que eu próprio apresentarei nos sete arciprestados ao longo da Quaresma, conforme calendário divulgado e publicado nos nossos diferentes canais de comunicação.
Voltando ainda a São Paulo, esta conversão quaresmal não é uma mera mudança de aperfeiçoamento individual, mas implica ser transparência de Deus na justiça e santidade verdadeiras. Ora a justiça implica a transformação e libertação das estruturas desumanizantes de mal e de pecado, que embora muitas vezes coincidam, não são exactamente a mesma coisa. Há que conhecê-las e distingui-las para as poder transformar ou combater com as ferramentas adequadas.
Por sua vez, a santidade implica a participação na vida e relação que Deus oferece, o que necessariamente nos mergulha na caridade gratuita e universal, recriadora e reconciliadora de todas as coisas, cuidadora de todos, numa atenção preferencial aos mais frágeis e vulneráveis.
Alimentando esta conversão das relações a partir da caridade divina, todos os anos somos convidados a redescobrir o sentido missionário da partilha de bens. A renúncia quaresmal procura mesmo reavivar anualmente a consciência de se tomar parte na acção caritativa de Deus em favor do mundo. Pelas obras da evangelização, do apostolado, da catequese, da caridade e da liturgia, a Igreja anuncia e imprime na humanidade a salvação de Deus.
Além do discipulado missionário, cada um de nós é chamado à partilha de bens e dinheiro, como modo de cultivar esta renovação da vida e das relações ordenando-as para o cuidado dos mais desfavorecidos e da acção pastoral da Igreja. Muitas vezes vamos arrefecendo o sentido desta partilha, limitando-a às pequenas moedas no peditório da missa e ao pequeno donativo que se faz quando se pede uma intenção de missa.
Ora, os bens que possuímos têm, a par de outras finalidades, a do exercício da penitência enquanto desapego de si e união à entrega de Jesus; a da partilha fraterna com os mais necessitados; a da capacitação da Igreja, que se toca mais imediatamente na comunidade diocesana, para a sua acção pastoral missionária.
Quanto à primeira finalidade acima enunciada, a Igreja ensina que ela deve ser cultivada ao longo de todos os dias, e especialmente na Quaresma e nas sextas-feiras de todo o ano. Nas suas diferentes modalidades – o jejum (e a abstinência de carne ou outros bens mais apetecíveis), a oração e a esmola (partilha de bens) – estes gestos penitenciais devem ser vividos como alimento do desapego, da humildade e da contrição.
Na nossa Diocese, é costume concentrar a partilha penitencial no tempo da Quaresma, no chamado contributo penitencial, que poderá ser entregue nos envelopes disponibilizados para o efeito, nas nossas igrejas paroquiais.
Quanto às outras duas finalidades acima enunciadas, é costume dar-lhes uma especial atenção ao longo do tempo quaresmal, durante o qual vamos juntando o que pomos de parte como resultado das nossas renúncias, esforços de desapego, exercícios de ascese e elevação. É a nossa renúncia quaresmal, que somos convidados a entregar no final da Quaresma em envelopes próprios, nas nossas igrejas paroquiais, e que tem um destino comum em toda a Diocese.
Após realizada a consulta prevista, destinaremos o resultado da nossa renúncia quaresmal de 2026 para a Caritas Diocesana de Leiria (no montante de 50% do valor final apurado), para auxílio às populações afectadas pela recente tempestade Kristina; os restantes 50% serão para apoio aos nossos serviços diocesanos de pastoral (e nomeadamente às obras de recuperação da futura Casa da Juventude Franciscus).
Partilho convosco que o resultado apurado da colecta realizada em 2025 foi de 23.866,35 €, já entregue aos respectivos destinatários: Fazenda da Esperança e Caritas Moçambicana.
Fazendo votos de uma fecunda conversão pessoal e das relações que nos conduzirá até à Páscoa, suplico para todos a bênção do Alto, em Deus,
(+ José M. Pereira, Bispo da Guarda)
Guarda, 18/02/2026
