O Senhor Bom! O Senhor está próximo!
Desde esta segunda feira dia 26 e até dia 2 de Fevereiro, dia do Consagrado, decorre a Semana da Vida Consagrada 2026, inspirada pela afirmação: “consagrados para amar e servir”. À luz desta temática, vale a pena meditarmos sobre a “objectiva primazia”[1] da Vida Consagrada na manifestação da santidade da Igreja, conforme a mesma Igreja nos ensina.
Todos os membros do povo de Deus são consagrados pelo baptismo, enquanto participam da própria vida de Cristo, o Filho. Mas alguns, vivem a consagração baptismal reflectindo «o próprio modo de viver de Cristo. Por isso mesmo, nela [na Vida Consagrada] se encontra uma manifestação particularmente rica dos valores evangélicos e uma actuação mais completa do objectivo da Igreja que é a santificação da humanidade» (Vita Consecrata, 32).
Esta forma de vida não é um simples desejo ou escolha de quem a abraça. Ela é uma verdadeira resposta a um chamamento de Deus. Ao contrário das vocações ministeriais, que nascem da necessidade de um serviço específico na comunidade, a Vida Consagrada pertence às vocações de sequela Christi, isto é, àquelas que nascem do aprofundamento do seguimento de Jesus. Todavia, tal não diminui que, como qualquer chamamento de Deus, esteja ordenada à edificação da comunidade e à missão, e seja dotada de um conjunto de carismas próprios, verdadeiros dons para toda a Igreja, a saber:
- O apelo de totalidade por Deus que anuncia o Céu. Os consagrados testemunham a alegria por experimentar que Deus basta, e que não chega ficar pelo meio: a Ele, só tudo. À medida que o tempo na terra vai passando, o apelo do Céu vai-se densificando: a vida mostra-se, umas vezes mais outras menos, como um Céu já inaugurado a caminho de uma superação para lá do que o olho viu, o ouvido ouviu ou a mente imaginou.
- A configuração radical a Cristo. Os consagrados testemunham a experiência de ir assumindo os mesmos sentimentos e traços de vida que havia em Cristo Jesus. Não se trata de fazer umas coisas para Jesus, mas de agarrar-Se a Ele e d’Ele ir recebendo a forma de ser. Não se confunde com uma impecabilidade sem falhas, mas uma forma de, mesmo nas falhas, não perder a pertença e a identidade de Cristo que nos levanta e recentra.
- A esponsalidade virginal. Os consagrados testemunham o modo de doação recíproca, cuidado amoroso e fecundidade geradora numa consagração a Cristo que recria continuamente a própria vida e a torna semeadora de eternidade nas vidas com que se cruzam. Esta esponsalidade renova continuamente a aliança amorosa com Jesus, revigorando a entrega da primeira hora, seja daquelas que se Lhe consagraram como sua esposas, seja daqueles que se Lhe dedicaram exclusivamente como amigas/os do Esposo. Não se trata de uma vida solitária: a renúncia a constituir uma nova família não é vivida como privação, antes como concretização do assumir como seus, os amores do seu Amor.
- A pobreza voluntária. Os consagrados testemunham ter encontrado a pérola diante da qual nada mais vale. Ela é o Senhor de Quem tudo se recebe e em Quem tudo se tem. Por isso, deixar, renunciar, abrir mão é renovar espaço para continuar a receber o que Deus tem para dar. A pobreza evangélica alimenta a confiança e faz crescer a esperança: Deus é o sustento em todas as situações, e aquele que assim vive envolvido tudo espera de Deus, desde agora e para sempre.
- A obediência hierárquica. Os consagrados testemunham a experiência de uma liberdade nova, libertada da ditadura do livre arbítrio (tantas vezes iludido), para se tornar capaz de viver segundo o que se escuta, e de reconhecer Deus nas mediações que Ele oferece. Esta obediência alimenta a comunhão eclesial, ao jeito de São Paulo que encontra a garantia de não estar a correr em vão, por conta própria. Quem obedece põe-se à escuta de Deus em consciência, partilha o que vê e acolhe depois, sem reserva, o que foi decidido em comunhão.
- A vida fraterna. Os consagrados testemunham a vida nova dos que em Deus se descobrem irmãos de todos. Vivendo em comum na sua maioria (alguns não), a vida fraterna dos consagrados é um verdadeiro fermento na Igreja para levedar a comunhão das diferentes comunidades cristãs (famílias, grupos, movimentos, paróquias, diocese).
- A contemplação e o apostolado: missionário, assistencial, educativo, ou outro. Os consagrados testemunham que o amor, quando é autêntico e libertador, torna-se generoso e coloca-se ao serviço das necessidades dos irmãos. Seja no cuidado directo das diferentes áreas da missão da Igreja. Seja, ainda que de modo aparentemente menos evidente, na ligação permanente à fonte divina pela via contemplativa.
Este é um tesouro imenso para a Igreja. Nesta semana, rezemos pela santificação e renovação dos nossos consagrados. Rezemos por aqueles que na nossa diocese o Senhor quer chamar à vida consagrada. E juntemo-nos no dia 2, na Sé, às 19h, para celebrarmos com todos eles, a quem convoco, em acção de graças e oração a Deus.
Suplicando para todos a bênção do Alto, em Deus,
(+José M. Pereira, Bispo da Guarda)
Guarda, 26/01/2026
[1] Ou “excelência” conforme a tradução de “praestantia”: João Paulo II, Vita Consecrata, 32.
MAIS INFO: Lectio divina/ Preces e Vigília de Oração – https://cirp.pt/site/
