A Casa de Saúde Bento Menni, na Guarda, acolheu no dia 19 de maio a conferência “Ciência, Espiritualidade e Religião”, promovida pelas Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, reunindo reflexão, testemunho e partilha sobre os desafios do mundo contemporâneo, a dimensão espiritual da pessoa humana e a temática do fim da vida.
Na abertura da conferência, o Bispo da Guarda, José Pereira, apresentou uma reflexão subordinada ao tema “A fé, a espiritualidade e os desafios colocados pelo mundo contemporâneo”, sublinhando que ciência, espiritualidade e religião não são realidades estanques, mas dimensões que se complementam na compreensão da pessoa humana.
Partindo da ideia de que “a ciência ajuda a ver”, D. José Pereira destacou que não basta apenas constatar os fenómenos ou compreender os processos e os “comos”. É também necessária contemplação, interioridade e capacidade de procurar sentido. “Não vim para ensinar, mas para partilhar”, afirmou, propondo antes de tudo uma reflexão sobre os sinais do tempo presente.
Entre os principais desafios do mundo contemporâneo apontou a insegurança, real ou percepcionada, marcada pela fragilidade das relações humanas, pela mobilidade constante, pela mediatização da violência e pela mercantilização das relações. Referiu ainda a ansiedade provocada pela pressão do desempenho, pelo escrutínio permanente e pela lógica da utilidade e da eficiência, numa sociedade frequentemente dominada pelo medo do futuro, das guerras, das crises económicas ou das alterações climáticas.
Outro dos desafios identificados foi a exposição pública constante. O Bispo da Guarda alertou para a necessidade de “parecer e aparecer”, para a confusão entre transparência e publicidade, bem como para a dificuldade crescente em comunicar o mundo interior, num contexto onde prevalece a imagem e o imediatismo emocional.
Na reflexão sobre a pós-verdade, destacou a crescente suspeita sobre os dados científicos e a dificuldade em lidar com a realidade objectiva, reduzindo tudo ao subjectivismo e à autodeterminação individual.
Referindo-se à inteligência artificial, reconheceu os desafios éticos e antropológicos colocados pelas novas tecnologias, alertando para a diminuição da capacidade crítica, para a fragilidade da argumentação e para o risco de uma confiança excessiva na máquina. “A máquina não nos conhece; é apenas matemática probabilística”, afirmou, advertindo também para o perigo da perda da consciência moral e do isolamento humano.
Como consequência deste cenário contemporâneo, apontou o crescimento das doenças mentais, da depressão, do isolamento e de uma sociedade marcada pelo medo, pela suspeição e pelo “azedume crónico”.
Perante estes desafios, D. José Pereira apresentou a espiritualidade como uma dimensão essencial da experiência humana. Sublinhou que a espiritualidade recorda que o ser humano não é apenas matéria ou um simples aglomerado de células, mas alguém aberto à relação, ao sentido e à transcendência. “A espiritualidade abre-nos à harmonia e ao equilíbrio entre o mundo interior e exterior”, referiu.
Quando a espiritualidade assume uma dimensão religiosa, acrescentou, descobre-se que existe “um Outro que me quis, me acompanha, me espera e me atrai”. A fé cristã, explicou, não se reduz a práticas religiosas, mas nasce do encontro com Deus e da pertença a uma relação que confere dignidade e valor à pessoa para além do que faz ou produz.
“A minha liberdade cresce onde cresce a liberdade do outro”, afirmou ainda, lembrando que a fé cristã arranca a pessoa do isolamento e abre-a à comunhão, à missão e ao reconhecimento da dignidade única e irrepetível de cada ser humano.
Seguiu-se a intervenção da irmã Paula Carneiro, superiora provincial da Congregação das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, subordinada ao tema “Espiritualidade: um caminho do coração”.
A religiosa destacou que a espiritualidade faz parte da própria experiência humana e ajuda cada pessoa a encontrar sentido, identidade e ligação aos outros. Citando Viktor Frankl e referências da Organização Mundial da Saúde, sublinhou a importância da espiritualidade para a resiliência, a qualidade de vida e o bem-estar integral.
Distinguindo espiritualidade de religiosidade, explicou que a espiritualidade se refere sobretudo à experiência interior e à procura de sentido, enquanto a religiosidade corresponde às expressões externas da fé através de crenças, ritos e tradições.
Inspirada no modelo do Bom Samaritano, apresentou a espiritualidade hospitaleira como um caminho de proximidade, compaixão e cuidado integral da pessoa humana. “Só o ‘com’ pode curar a dor”, recordou, citando Bento XVI, salientando a importância de estar presente, acompanhar e cuidar.
A irmã Paula Carneiro destacou ainda que o verdadeiro cuidado ultrapassa barreiras culturais, sociais e religiosas, reconhecendo sempre a dignidade da pessoa. Referiu igualmente que o modelo assistencial hospitaleiro integra as dimensões biológica, psicológica, espiritual, religiosa e social, promovendo um cuidado personalizado, humanizado e eticamente responsável.
Na terceira intervenção da manhã, a médica Ana Rita Fernandes abordou “A ciência e a temática do fim da vida”, centrando-se na realidade dos cuidados paliativos.
A especialista alertou para a necessidade de maior preparação na abordagem da fase terminal da vida, defendendo a importância do reconhecimento precoce da situação de agonia e da comunicação clara com o doente e a família.
Sublinhou que os cuidados paliativos não são um falhanço da medicina, mas parte integrante dos cuidados médicos modernos, centrados no conforto, na dignidade e no controlo dos sintomas. “Somos obrigados a fazer tudo o que devemos, mas não tudo o que podemos”, afirmou, alertando para os riscos da obstinação terapêutica e da distanásia, entendida como uma morte marcada por sofrimento e tratamentos desproporcionados.
A médica destacou ainda a necessidade de adequar o esforço terapêutico, evitar intervenções agressivas desnecessárias e reforçar o acompanhamento espiritual e humano das pessoas em fim de vida.
Entre as ideias mais marcantes da intervenção estiveram as cinco palavras consideradas essenciais no acompanhamento paliativo: “amo-te”, “perdoa-me”, “perdoo-te”, “obrigado” e “adeus”.
A conferência terminou com o testemunho emocionado da psicóloga Mariana Afonso Pereira, familiar de pessoas acompanhadas na Casa de Saúde Bento Menni. Num agradecimento às Irmãs Hospitaleiras e a todos os profissionais da instituição, destacou o ambiente humano, espiritual e familiar vivido naquela casa.
“A casa onde as irmãs estão é também a nossa casa”, afirmou, sublinhando o papel das auxiliares e de todos os colaboradores no cuidado prestado aos doentes e às famílias, numa missão onde “a espiritualidade é raiz” e onde cada pessoa se sente acolhida, reconhecida e amada.
