CATEQUESES QUARESMAIS
“RENOVAI-VOS E REVESTI-VOS DO HOMEM NOVO”
IV
A justiça, a misericórdia e a caridade
Neste quarto passo do itinerário quaresmal que propus fazermos juntos, à luz da exortação bíblica “Renovai-vos e revesti-vos do homem novo”, quero meditar sobre a relação entre “A justiça, a misericórdia e a caridade” como caminhos que Cristo nos abre enquanto salvação para o mistério do mal. Escutemos o que nos diz o evangelho segundo São João:
«Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele» (Jo 3, 16-17).
Diante do mistério do mal e do pecado, Deus desmultiplica-se em gestos de misericórdia, para nos salvar. O gesto extremo é o envio de seu Filho para nos resgatar do mal que nos aprisiona: «o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de todos» (ou na versão corrente, não litúrgica: em resgate de muitos, da multidão – Mc 10, 45). Eis até onde vai o amor de Deus para com o mundo.
O resgaste, não o vemos como em algumas correntes teológicas, ainda que inspiradas em comentários de autores cristãos dos primeiros séculos, enquanto pagamento de uma dívida de valor incalculável contraída a Deus, que não podia ser satisfeita a não ser por um preço igualmente incalculável: a imolação a Deus do seu próprio Filho.
Tal visão suporia um Deus ressentido, exigindo um pagamento impossível, só se satisfazendo com o sacrifício do Filho feito Homem para assumir o lugar do ser humano. Além de apresentar um Deus frio e implacável, tal visão voltaria à lógica dos sacrifícios humanos oferecidos aos deuses (mas proibidos a Israel pelo próprio Deus), e ainda sugeria que o Filho fosse como que uma vítima outra, que não o próprio Deus.
A entrega do Filho até ao extremo, isto é, até à imolação de Si mesmo na Cruz, é o próprio Deus pessoalmente (na segunda pessoa da Trindade) a vir buscar-nos onde os laços do mal nos haviam aprisionado e dos quais não éramos capazes de nos libertar: a separação e a morte.
O preço da redenção (ou resgate) não é um valor a pagar; é o muro de separação que era preciso destruir, a morte que era preciso superar. Jesus sujeita-se à rejeição e morre, não para satisfazer Deus, mas para nos libertar (resgatar) do pecado e da morte, para vencer o pecado e a morte: sujeitando-se a eles sem fugir de Deus por temor da morte; e saindo desta unido a Deus, transformando assim a morte em passagem para Deus.
Podemos enunciar então que a obra da redenção realizada por Jesus é a expressão máxima do amor misericordioso de Deus, capaz do impossível para nos salvar: «não há maior prova de amor do que dar a vida pelos amigos» (João, 15, 13). Deus eterno entra no tempo, Deus Amor sujeita-se ao desamor, Deus imortal submete-se à morte. Demoremo-nos, pois, a meditar: o que é a misericórdia de Deus?
Socorro-me de três passagens do evangelho bastante conhecidas. A primeira encontramo-la no capítulo vinte do evangelho segundo São Mateus: a parábola dos trabalhadores da vinha (cf. Mt 20, 1-16). Conhecemos a história: o dono da vinha, necessitado de mão de obra, sai no início da jorna à praça central da terra para, como ainda hoje fazem, julgo, os rapazes quando no pátio da escola escolhem as equipas para jogar à bola, escolher os mais capazes para a faina do dia. E acerta com eles o salário.
Durante o dia, em diferentes horas, até perto do final do horário de trabalho, volta a sair e a escolher outros trabalhadores, sendo que os últimos seriam os que nenhum outro empregador havia escolhido naquele dia. No final, quando do pagamento, dá aos últimos o mesmo salário que combinara com os primeiros, gerando-se o seguinte diálogo:
«Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo: ‘Estes últimos trabalharam só uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o peso do dia e o calor’. Mas o proprietário respondeu a um deles: ‘Amigo, em nada te prejudico. Não foi um denário que ajustaste comigo? Leva o que é teu e segue o teu caminho. Eu quero dar a este último tanto como a ti. Não me será permitido fazer o que quero do que é meu? Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?’».
A segunda passagem do evangelho, tem como autor São Lucas e conta a parábola do bom samaritano (cf. Lc 10, 30-37). Também conhecemos a história: um pobre viajante cai nas mãos dos salteadores que o roubam e espancam, e fica abandonado meio morto na beira da estrada. Retomo aqui apenas alguns versículos:
«Por coincidência, descia pelo mesmo caminho um sacerdote; viu-o e passou adiante. Do mesmo modo, um levita que vinha por aquele lugar, viu-o e passou também adiante. Mas um samaritano, que ia de viagem, passou junto dele e, ao vê-lo, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas deitando azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirou duas moedas, deu-as ao estalajadeiro e disse: ‘Trata bem dele; e o que gastares a mais eu to pagarei quando voltar’».
A terceira passagem é do mesmo São Lucas e narra a parábola do filho pródigo, também chamada por alguns do pai misericordioso (cf. Lc 15, 11-32). Também conhecida, conta as desventuras do filho mais novo que sai de casa após reclamar do pai a sua parte da herança, esbanja-a numa vida dissoluta, passa fome, arrepende-se, regressa a casa, pede perdão ao pai.
Ao vê-lo, o pai que sempre esperara o seu regresso, corre para ele, abraça-o e beija-o, reveste-o com a melhor túnica e ordena um banquete de festa. A ver tudo isto o filho mais velho fica escandalizado e recusa-se a participar na festa. Quando o pai insiste para que venha, gera-se o seguinte diálogo:
«Mas ele respondeu ao pai: ‘Há tantos anos que eu te sirvo, sem nunca transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito para fazer uma festa com os meus amigos. E agora, quando chegou esse teu filho, que consumiu os teus bens com mulheres de má vida, mataste-lhe o vitelo gordo’. Disse-lhe o pai: ‘Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado’».
Nestas três passagens, o que determina as diferentes atitudes propostas por Jesus (as do dono da vinha, do bom samaritano e do pai misericordioso), daquelas que mais facilmente irrompem do nosso coração e estão traduzidas nas restantes personagens? Eu diria que é o foco, o olhar com que nos colocamos diante dos outros.
Na primeira parábola, o olhar foca-se no esforço despendido no trabalho: o peso do dia e o calor do sol; esqueceu-se o reconhecimento das qualidades para a função, a escolha preferencial, a justeza do acordo inicial, o acesso à propriedade e bens do dono. O olhar centra-se no que se considera merecido pelos actos praticados e reclama-se por justiça.
Na segunda parábola, o olhar foca-se no que o próprio poderia perder: a pureza ritual para oficiar no templo ou contactar os escritos sagrados, o tempo necessário para chegar a horas ao destino; esqueceu-se o que o próximo poderia perder: a assistência necessária, ou a própria vida. O olhar centra-se em si mesmo e perde-se a caridade.
Na terceira parábola, o olhar foca-se no cumprimento material da regra: anos de serviço sem transgressão de qualquer ordem, respeito pela estabelecido sem os bens dados a quem transgrediu; esqueceu-se a partilha comum de vida e sentimentos com o pai, e a fraternidade com o irmão (já não olhado como tal, mas apenas como “esse teu filho”). O olhar centra-se nos actos e nas regras e perde-se a misericórdia.
Pelo contrário, Jesus foca-nos o olhar noutros horizontes: a justiça como bondade; a caridade como cuidado pronto e incondicional; a misericórdia como restauração de vida e reencontro. Surge então a pergunta: porque nos é tão difícil olhar assim? Porque nos parece tão contrário ao que seria de esperar? Porque parece aos olhos dos intervenientes (e talvez dos nossos também) injusto o proceder do dono da vinha, excepcional o do bom samaritano, e excessivo ou até chocante o do pai misericordioso?
Olhemos com detalhe. Comecemos pela justiça. Segundo São Tomás de Aquino a justiça é a “virtude moral constante e perpétua de dar a cada um o que lhe é devido”. Por “devido” entende São Tomás aquilo que o direito natural e a razão reconhecem como próprio de cada um: por meio deles, estabelece-se um dever da sociedade e de cada membro para com o sujeito receptor do que lhe é próprio; sendo o objecto de tal dever aquilo que lhe é justo.
Mas no sentido mais comum, “devido” foi sendo substituído por “merecido”: já não é o direito natural e a razão a determinarem o que é justo mas os actos praticados pelo sujeito: se dignos de merecimentos, o justo será uma recompensa; se dignos de reprovação, o justo será uma pena ou castigo.
Esta visão de justiça veio a contaminar a das outras duas realidades. Nesta leitura, a misericórdia passou a ser entendida como uma benevolência que leva a não dar ao sujeito, cujos actos sejam reprováveis, a pena que mereceria. E a caridade passou a ser entendida como o excesso de dar ao sujeito, que nada fez por merecer, dons a que nem outros, que os mereceriam e desejavam, tiveram acesso.
Dar apenas o que se merece, não dar o castigo que se merecia, e ainda dar o bem que não se merecia: justiça, misericórdia e caridade parecem assim inconciliáveis. Agora se aplicarmos este olhar, não apenas a bens transaccionáveis, mas à redenção que nos resgata dos pecados (que é o foco da nossa meditação), que sentimentos despertam em nós?
A este olhar desviado, um Deus justo apenas poderia perdoar os pecadores arrependidos que tivessem feito actos de conversão e penitência merecedores de perdão. Sob o mesmo olhar deturpado, não poderia exercer a misericórdia, e perdoar quem não tivesse feito o suficiente para a merecer. E menos ainda usar de caridade, sempre sob o mesmo olhar viciado, e redimir quem nunca mereceria outra oportunidade.
Mas não é assim a justiça de Deus. Como escutávamos na segunda leitura deste domingo: «Ora, a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. Quando ainda éramos fracos, Cristo morreu pelos ímpios no tempo determinado. Dificilmente alguém morre por um justo; por um homem bom, talvez alguém tivesse a coragem de morrer. Mas Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores» (Rom 5, 5-8).
Deus olha a pessoa e não os méritos dos seus actos. Olha a sua situação, as suas necessidades, as ameaças que a afligem, as prisões de que não consegue libertar-se. E toma a iniciativa: vem ao encontro de cada um e dá-lhe o que ele necessita para ser recuperado.
O justo a dar a cada um não é o que ele merece mas o que precisa para ser ajustado à sua dignidade de filho amado de Deus. Quanto mais alguém se encontra prisioneiro do pecado (a miséria que atenta contra a sua condição de filho), tanto mais Deus se dá com todo o seu coração (miser-cordis), para o curar. Quanto mais alguém vive marcado pelo mistério da iniquidade, com mais intensidade dispensa Deus o seu amor incondicional e gratuito, para o capacitar ao bem de si mesmo: «onde abundou o pecado, superabundou a graça» (Rom 5, 20).
Ajustar, curar, capacitar. A esta luz, justiça, misericórdia e caridade são as bases de um tripé harmonioso, que não se opõem, antes se convocam mutuamente: Deus dá a cada um o que ele necessita para ser ajustado e curado, desde a sua situação miserável à condição de filho amado e agraciado por Deus.
Assim, a justiça de Deus é a nossa justificação: ela é o seu amor operativo que realiza a obra da filiação e redenção, que nos faz ficar capazes de um caminho novo de comunhão e participação na plenitude divina, da qual todos recebemos graça sobre graça (cf. Jo 1, 16).
A misericórdia de Deus é a nossa santificação: «Ao manifestar-se a bondade de Deus nosso Salvador e o seu amor para com os homens, Ele salvou-nos, não pelas obras justas que praticámos, mas em virtude da sua misericórdia, pelo batismo da regeneração e renovação do Espírito Santo. Deus derramou abundantemente o Espírito sobre nós, por meio de Jesus Cristo nosso Salvador, para que, justificados pela sua graça, nos tornássemos, em esperança, herdeiros da vida eterna» (Tt 3, 4-7).
Por acção do Espírito Santo somos libertados da submissão às consequência do pecado, e capacitados para a vida eterna, isto é, a vida em Deus, por Cristo, já aqui e depois na glorificação.
A caridade de Deus é a nossa salvação: «Se Deus está por nós, quem estará contra nós? […] Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo ou a espada? […] Mas em tudo isto somos vencedores, graças Àquele que nos amou. Na verdade, eu estou certo de que nem a morte nem a vida, nem os Anjos nem os Principados, nem o presente nem o futuro, nem as Potestades nem a altura nem a profundidade nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que se manifestou em Cristo Jesus, nosso Senhor» (Rom 8, 31b-39).
Chegados aqui, pode surgir a pergunta: diante deste novo olhar que nos revela o amor de Deus, justo e misericordioso, como podemos nós fazê-lo nosso também? Podemos superar esta permanente inclinação para achar que a misericórdia de Deus pode opor-se à justiça? Como?
Sim, podemos. De novo, é Jesus quem nos mostra o caminho. Escutemo-Lo na passagem do evangelho segundo São Mateus em que Ele se identifica com o rei da parábola:
«Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: […] ‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes’. Dirá então aos que estiverem à sua esquerda: […] ‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o deixastes de fazer a um dos meus irmãos mais pequeninos, também a Mim o deixastes de fazer’» (Mt 25, 34a. 40-41a. 45)
Ganhar o olhar de Deus, ser por ele transformado e assumi-lo no quotidiano como salvação para o mistério do mal, não se vive por meio de um estudo académico ou exercícios de visão ou disciplina espiritual. Tudo isto pode ajudar, mas o decisivo é contemplar a presença de Jesus no mundo, preferencialmente nos irmãos mais pequeninos, isto é, nos frágeis e desprotegidos.
Jesus não é um super-herói do passado que realizou uma obra admirável para ser louvada. Nem um sábio do passado que nos deu o exemplo para cada um seguir na dimensão com que se identificar e na medida que conseguir.
Jesus é Deus feito Homem, desde então para sempre, que depois de ter vivido entre nós em seu corpo mortal, regressou ao seio do Pai e permanece misticamente presente entre nós, no seu corpo que é a Igreja e em cada um dos seres humanos, que abraçou como seus irmãos.
Precisamos de aprender a reconhecê-lo, não como uma projecção imaginativa da mente, mas como serviço dedicado que nos leva a sair de nós mesmos e a tocar a carne de Jesus no corpo sofrido do próximo. Próximo que não é apenas aquela que aparece, ocasionalmente, na beira do caminho, mas aquele a quem, voluntariamente, decido ir visitar:«estive doente e viestes visitar-Me; estava na prisão e fostes ver-Me» (Mt 25, 36).
Como nos ensina Jesus acerca da misericórdia e do perdão, no sermão da montanha – “felizes os misericordiosos porque alcançarão misericórdia”; “porque se perdoardes aos homens as suas faltas, também o vosso Pai celeste vos perdoará” – é o exercício existencial dessas realidades que Deus nos dá a participar que nos transforma e torna capazes de as assumir.
Amar assim é deixar-se alargar, não se contentar com o que já se é ou é capaz de fazer. Não amamos porque somos capazes, tornamo-nos capazes porque amamos. Não é verdadeiro encolhermo-nos no caminho do amor por acharmos que não poderemos; verdadeiro é sermos alargados pelo amor, porque a Deus nada é impossível (veja-se o diálogo da Anunciação entre o Arcanjo São Gabriel e Nossa Senhora).
É, pois, a prática da justiça, da misericórdia e da caridade, ao jeito de Deus e tocando Cristo no outro, que se tornará caminho para se operar, no mundo e em cada um, a salvação que liberta das dinâmicas do mal e do apego ao pecado. Os meios instrumentais para o fazer, é o que meditaremos na próxima catequese.
+ José Pereira, Bispo da Guarda
