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Homilia: Missa vespertina da Ceia do Senhor – 02 de abril de 2026

«Quando chegou a Simão Pedro, este disse-Lhe: “Senhor, Tu vais lavar-me os pés?”. Jesus respondeu: “O que estou a fazer, não o podes entender agora, mas compreendê-lo-ás mais tarde”. Pedro insistiu: “Nunca consentirei que me laves os pés”. Jesus respondeu-lhe: “Se não tos lavar, não terás parte comigo”» (Jo 13, 6-8).

Ao celebrarmos o mistério da instituição da Eucaristia, somos convidados a mergulhar nela por este gesto do lava-pés. Ao contrário dos outros três evangelistas e de São Paulo que se focam nas palavras da consagração, São João convida-nos a olhar mais largo: a refeição sacramental memorial da cruz pascal é muito mais abrangente do que apenas comer o pão consagrado.

Reparemos no que habitualmente valorizamos quando vamos à missa: se a mensagem (da Palavra de Deus e da homilia) nos encheram as medidas; se o ambiente (físico e comunitário) era agradável; se os outros têm comportamentos coerentes ou não com o que estão a rezar; se podemos ou não podemos comungar a hóstia consagrada.

Às vezes este nosso olhar é de tal ordem que, se algum destes elementos nos incomodam ou deles ficamos privados, deixa de fazer sentido irmos à missa e deixamos de ir regularmente; às vezes alguns até deixam de ir de todo.

Jesus não aponta para nenhuma destas dimensões. Ele acentua a Eucaristia como um serviço, que Ele nos faz, e pelo qual nos permite tomar parte com Ele, entrar na abundância do mistério da sua vida e da sua pessoa.

Isto é o essencial e decisivo. Mesmo quando por alguma razão não sou capaz de entender o que se está a passar ou não posso participar plenamente em alguma das outras dimensões. Deixar que Jesus me lave os pés é sempre possível. E isso é que me faz tomar parte com Ele.

O que é então este lava-pés? É o serviço pelo qual Jesus nos devolve a possibilidade de caminhar, por Ele, até ao Pai. Os pés eram lavados aos viajantes sempre que chegavam a um lugar. Onde habitualmente tomavam uma refeição ou repousavam. Jesus lava os pés aos discípulos antes da refeição que antecipa a hora pela qual a Sua cruz se tornará o caminho para prosseguirmos até ao Pai.

Este serviço era feito pelos servos. Jesus é Deus que se faz servo. E não apenas mais um servo, mas o Servo de Yahweh, escarnecido e rejeitado, pisado e condenado à morte, para nos dar a Vida. Este é o serviço pascal na eucaristia: o dom da sua vida. Nela, Jesus envolve quem está e O acolhe, nesta comunicação de vida. Não apenas uma vida “melhor”, mas a sua vida, aquela que redime do pecado e supera a morte, e nos mergulha no eterno de Deus.

Ele não espera que estejamos em estado de perfeição: até a quem não estava limpo, Jesus lavou os pés e deu possibilidade de tomar parte, assim ele quisesse aderir. Jesus oferece a eucaristia, não aos sãos e puros, mas aos doentes e pecadores que queiram aceitar a sua iniciativa para que tomem parte com Ele.

Por isso a eucaristia não se reduz ao rito da comunhão. Ela é toda a acção litúrgica pela qual Jesus realiza os preparativos para o banquete pascal e senta-nos à mesa, nos ritos iniciais; abre-nos o coração e fala-nos, na liturgia da palavra (como também fez na oração sacerdotal na última ceia); actualiza o lava-pés e a entrega da vida na cruz, na liturgia eucarística; sustenta-nos com o seu corpo e protege-nos com o seu sangue, nos ritos da comunhão; envia-nos a fazer o mesmo em sua memória, nos ritos finais.

Esta é a santificação que a eucaristia realiza em nós. Envolve-nos e actualiza em nós a acção redentora de Cristo que nos liberta do pecado, eleva do meramente terreno, mergulha-nos no divino, projecta-nos no definitivo.

Pelo sacramento do seu corpo e sangue, Jesus é formado em nós. Comer a sua carne e beber o seu sangue são a forma mais excelente de nos unirmos a Ele. Mas não são a única: unirmo-nos a Ele na liturgia eucarística e deixarmo-nos formar pela sua entrega, geram Cristo em nós.

Por isso a missa não é um acto privado. Por isso na missa, não está cada uma na sua oração individual. Deixar que Jesus nos lave os pés, é também pôr-se a lavar os pés:

«Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também».

Não só depois, mas já ali na missa. Deixando-nos arrancar do nosso pietismo individualista e formando corpo uns com os outros, rezando com e pelos outros, tornando-nos membros uns dos outros, porque todos do corpo de Cristo.

Não só depois, mas já ali na missa. Deixando-nos arrancar da nossa autorreferencialidade e do medo do flagelo exterminador que o nosso pecado mereceria, sendo lavado e selando a aliança no sangue de Cristo, e tornando-nos anunciadores da morte do Senhor até que Ele venha.

Isto acontece a quem se deixa lavar por Jesus na liturgia eucarística, mesmo quando por alguma razão, ainda não pode comer e beber o corpo e o sangue do Senhor.

Esta liturgia terrena realiza-se unida à liturgia celeste. O memorial em que a eucaristia consiste não é uma memória de um acontecimento passado. É o acolhimento, aqui e agora, de um acontecimento vivo, perenemente dinâmico, que ultrapassa o tempo e o espaço para comunicar-se no nosso hoje, e aprofundar-nos no hoje de Deus.

É o próprio Jesus quem preside à acção litúrgica, unido ao seu corpo que é a Igreja e, concretamente, a assembleia celebrante dos fiéis reunidos na terra, e unidos aos anjos e aos santos no Céu. Reunião que nos vincula a Cristo e entre nós, solidificando uma verdadeira incorporação n’Ele, que se prolonga depois de desfeita a assembleia celebrante.

Tal presidência de Cristo é visibilizada no ministério do sacerdote que preside à acção litúrgica in pernona Christi Capitis (na pessoa de Cristo Cabeça). De facto, Jesus associou a Si, na oferta sacramental do seu corpo e sangue, os apóstolos quando lhes deu o mandato de fazer o mesmo em memória de Si.

«Isto é o meu Corpo, entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim. […] Este cálice é a nova aliança no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim».

Daqui nasce o ministério sacerdotal, em todas as demais acções e serviços, e sobretudo enquanto presença memorial do próprio Jesus a guiar, como Cabeça, o seu corpo-Igreja, comunidade dos discípulos.

Por isso celebramos também nesta missa a instituição do sacerdócio ministerial. Consagrado em Cristo e agindo em seu nome, o sacerdote realiza para a Igreja e para o mundo, de forma incruenta e sacramental, o sacrifício cruento do Calvário. Nessa hora, surge maximamente como visibilidade de Cristo Sacerdote.

Tal realidade é expressivamente anunciada e apresentada no facto do sacerdote dizer as palavras sacramentais: «isto é o meu Corpo que será entregue por vós».

A unidade profunda e sacramental entre Cristo e o sacerdote faz que estas palavras não sejam a fingir: diante da comunidade, ele é Cristo que entrega o seu corpo e o deixa em alimento no pão eucarístico. Diante da comunidade, ele é Cristo que como Cabeça se entrega em sacrifício pelo seu Corpo.

Este momento fundante da identidade do sacerdote torna-se por isso fundamental no seu viver e agir. Ele não realiza simplesmente ofícios sacerdotais, ele está configurado com Cristo Cabeça e Pastor, e assim participa da caridade pastoral do Senhor, pela qual realiza, n’Ele, a entrega total no dom de si mesmo.

Mas esta missa celebra também o mandamento novo do amor: «Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também».

Momentos depois, naquela mesma mesa, Jesus dirá: «Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como Eu vos amei, amai-vos também uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 34-35)

Deixai-me repetir: por isso a missa não é um acto privado. Por isso na missa, não está cada uma na sua oração individual. Deixar que Jesus nos lave os pés, é também pôr-se a lavar os pés.

Mas agora acrescento: não só ali na missa, mas também depois. Pondo-se a servir os mais frágeis e os deslocados de guerra, os pequeninos e os descartados, os esquecidos e os excluídos, os migrantes e os que habitam as periferias sociais.

Não só ali na missa, mas também depois. Pondo-se a servir os errantes e os buscadores, os desiludidos e os magoados, os indiferentes e os descrentes, os que se afastaram e os que habitam as periferias eclesiais.

Não só ali na missa, mas também depois. Pondo-se a servir as famílias e as comunidades, a sociedade e a Igreja, os grupos de fé e a Diocese, a comunhão e a evangelização.

Porque a missa prolonga-se na missão: «Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha».

+ José Pereira, Bispo da Guarda

Foto: Municipio da Guarda – Celebração de 2025