“ Os primeiros nove meses do bispado de D. José Pereira na Guarda…
Foi-me pedido um “texto que relatasse as primeiras experiências na Diocese da Guarda. ‘Surpresas, apreensões, desafios.’ Cumpridos nove meses da minha presença e serviço entre vós, aqui tentarei corresponder ao pedido.
Primeiras experiências
Neste apartado, penso poder sublinhar duas grandes experiências que integram, em si, algumas dimensões nem sempre convergentes.
Em primeiro lugar destaco a experiência de acolhimento. Foi uma marca profundamente acentuada: a alegria de receber o novo bispo, depois de uma longa espera; as manifestações de carinho, com as palavras e presentes de boas-vindas; o sentido de fé na presença do bispo e a receção sempre cuidada, e em especial na primeira visita; a abertura e cooperação dos diferentes poderes e instituições para com a nova autoridade eclesiástica.
De igual modo destaco a simpatia no trato e a generosidade, com a iniciativa de tantos que, com simplicidade e sem publicidade, passam pela Casa Episcopal e partilham bens em géneros alimentares e afins.
Tenho de referir ainda o genuíno apreço demonstrado pela pequena comunidade residencial que me acolheu – o Cón. Pereira de Matos, a Ir. Adelina e a Ir. Lúcia – e as partilhas em torno das mesas da oração e da refeição que me foram introduzindo, cada uma a seu modo, no cuidado pela Diocese.
Todavia, todo este acolhimento parecia trazer também uma expectativa demasiado elevada quanto à presença do bispo em todos os momentos de inauguração ou de festa, que manifestamente não é possível garantir, numa Diocese com a extensão de território e o número de comunidades (paroquiais e anexas) e instituições eclesiais e civis que a solicitam. Ou quanto à presença junto de determinados grupos, para tomar decisões e resolver tensões para as quais os mesmos ainda não foram capazes de procurar novos caminhos e soluções.
Como disse ao chegar, pretendo ser um pastor de proximidade que visite e acolha as pessoas e as comunidades.
E muito há ainda a conhecer, comunidades que visitarei à medida que com os párocos e demais responsáveis das comunidades nos formos articulando. Também pretendo apontar horizontes e caminhos. Mas os passos terão de ser encontrados por todos e não trago comigo nem respostas prontas, nem a possibilidade de estar sempre presente junto de determinados grupos, mesmo reconhecendo as prioridades de algumas circunstâncias, pois há que atender a todos. Estarei presente, mas não sempre; conto muito com esses grupos, mas confio na sua capacidade de gerarem dentro de si passos e soluções, que reconhecerei e confirmarei conforme o caso.
Uma segunda dimensão que realço é a experiência de descobrir o Interior de Portugal, eu que vim do Litoral e da capital. Há aqui não só a beleza natural beirã, serrana e raiana, a gastronomia rica, a história secular traduzida em iniciativas culturais, em castelos e solares, em festas religiosas. Há a beleza humana forjada pelo frio, pelo trabalho e pela solidariedade em personalidades que lutam e que criam respostas às necessidades com que se deparam: Casas abrigo para crianças e jovens fora do seu contexto familiar, Estabelecimentos Residenciais para Idosos e Centros de Dia, Casas de Acolhimento para Pessoas com Vulnerabilidades Cognitivas, Casas de Acolhimento de emergência, Respostas sociais diversas, Associações Humanitárias de Bombeiros e outras.
Todavia muitas das iniciativas e formas locais de organização esbarram num centralismo administrativo nacional que pouco respeita o princípio da subsidiariedade aplicado às instâncias regionais e locais; este facto tende a bloqueio burocrático e financeiro, às vezes mesmo quanto aos sistemas de decisão operacional, as soluções mais adequadas tomadas por quem conhece o terreno, os constrangimentos e as possibilidades locais.
A este centralismo nacional parece poder associar-se, por vezes, algum provincianismo local que prefere soluções sem escala, à porta de casa e viradas para o passado, e que tende a cair no desânimo do isolamento, do envelhecimento, da desertificação e da inércia em arriscar novas soluções. Por vezes parece acentuar-se um certo discurso, algo depressivo, de que não vale a pena tentar porque somos todos idosos e isolados, com frio e sem capacidade de responder.
Somos mais que isso. Em nove meses já crismei quase mil adolescentes e jovens (e não fui ainda a todas as comunidades) e encontrei-me com algumas centenas de escuteiros; também tomei consciência de que temos várias escolas, do básico ao superior; e temos uma variedade de famílias para acompanhar e potenciar a sua participação e missão na Igreja e no mundo.
Surpresas
Neste capítulo, começo por referir o estado jurídico-administrativo de muitas das nossas realidades eclesiais.
Confesso que não intuía o muito que há por fazer no que toca à regularização de registos, arquivos, livros, práticas administrativas, procedimentos comunitários, que assentaram na boa-fé, no voluntarismo dos agentes e na simples satisfação da necessidade imediata, nem sempre acautelando que as pessoas não permanecem infinitamente no mesmo lugar e as memórias passam se não forem bem conservadas.
Neste ponto, o que acima referi talvez esteja associado a uma outra prática que me surpreendeu, não pela existência pontual, mas pela sua generalização: a perpetuação de pessoas nos mesmos lugares e cargos, alguns há mais de vinte, trinta, quarenta, cinquenta ou até sessenta anos.
Outra surpresa que me marcou foi o fácil julgamento das relações e comportamentos, quebrando as pontes para o diálogo, a compreensão mútua, o acordo. Por vezes até com a judicialização dos conflitos, sem capacidade de reconciliação interna, nas famílias, comunidades e outros grupos.
Uma terceira surpresa foi a ainda acentuada clericalização na forma de nos entendermos como Igreja e a dificuldade em se experimentar formas mais generalizadas de sinodalidade. Os órgãos de corresponsabilidade, diocesanos e paroquiais, salvos algumas exceções, são ainda muito incipientes na constituição e funcionamento. Surpreendeu-me esperar-se ver o bispo ou o padre a decidir ou fazer sozinho o que compete a um conjunto de agentes ou até aos leigos.
A consciência de que todos, a seu modo, devem participar e cuidar da Igreja e assumir, quando necessário, serviços e horizontes diocesanos pareceu ser um caminho ainda numa fase pouco desenvolvida.
Uma quarta surpresa, até porque tinha outra ideia a propósito de contactos estabelecidos nas reuniões nacionais de formadores e das vocações, foi a situação de isolamento e instabilidade em que se encontra o nosso Seminário Inter-diocesano. Sabendo, pela experiência de formador durante quase vinte e nove anos, que os Seminários são para muitos cristãos “quase ilustres desconhecidos”, não esperava que mal chegasse à Diocese fosse preciso tomar decisões quanto à localização e viabilidade do projeto iniciado há doze anos.
A quinta e última surpresa, para terminar com um tom mais positivo, foi o número imenso das já referidas respostas sociais de acolhimento a crianças e jovens fora do seu contexto familiar. Sob pena de esquecer alguma, enumero apenas as que se mantêm abertas (tendo havido outras que fecharam a valência residencial mantendo apenas a ação educativa): Abrigo de São José da Obra do Socorro Familiar (Fundão); Casa de Acolhimento da Casa de Trabalho Jesus Maria e José (Rochoso); Casa de Acolhimento da Escola Regional Dr. José Dinis da Fonseca (Outeiro de S. Miguel); Casa de Acolhimento da Fundação José Carlos Godinho Ferreira de Almeida (Guarda); Casa de Acolhimento do Instituto de Educação Infantil (Manteigas); Casa de Acolhimento do Instituto Social Cristão Pina Ferraz (Penamacor); Casa da Sagrada Família do Instituto de Santa Catarina de Sena (Guarda); Colégio interno da Escola Regional Dr. José Dinis da Fonseca (Cerdeira); Lar infantojuvenil D. Isabel Trigueiros (Fundão).
Apreensões
Confio no Senhor que é bom e está próximo, e que é Ele quem guia a sua Igreja. Assim, aquilo que neste capítulo refiro não são propriamente apreensões, pois o Senhor abrirá os caminhos que achar por bem. Serão, talvez, realidades que experimentam alguma resistência e pedirão um suplemento de confiança e esperança.
A primeira, que nem sequer é exclusiva da nossa Diocese, é a desacomodação necessária para acolher e seguir o que o Espírito nos diz e pede. A tentação é a de adiar mudanças ou esvaziar transformações, considerando que se trata de um nome novo para o que já se faz, ou de umas ideias que não são para a nossa realidade, ou de mudanças para gente mais nova que eu já não consigo. Teremos de nos estimular uns aos outros a não ter medo de prosseguir para a frente, sabendo que o Espírito não deixa estagnar nem muda para quebrar.
A segunda daquelas realidades é a conversão missionária da pastoral. Temos uma pastoral que ainda é sobretudo de manutenção e religiosidade natural, revestida de ritualidade cristã. A conversão missionária não é uma revolução sociologicamente programada nem uma espontaneidade individual ou grupal. Por isso, não pode desarticular-se de uma sólida teologia, de uma nobremente simples liturgia, de um lúcido direito e de uma renovada compaixão.
Teremos de nos estimular uns aos outros para promovermos uma teologia que não se confine a uma reflexão teórica, mas alimente integralmente a regula fidei; uma liturgia que não sofra dos gostos e desgostos de cada qual, mas seja tratada como lex orandi que imprime a lex credendi; um direito que não seja aplicado com legalismo nem arbitrariedade, mas com fidelidade em ordem à salus animarum; uma compaixão.
Desafios
Chegamos ao último capítulo. O primeiro e maior desafio que identifico, em linha com a missão de toda a Igreja, é o da evangelização. A fé cristã não se reduz a uma religião, a uma doutrina, a uma moral, a um programa social. Ela é uma vida nova: a vida natural recriada e tornada participante da vida sobrenatural. O Evangelho é a boa notícia da vida divina semeada em nós. Quer dizer dentro de nós e entre nós. É da nossa transferência para o seio dela. Para que tenhamos a vida plenamente.
Temos de encontrar caminhos de anúncio da fé que conduzam à experiência do encontro com Cristo vivo. Encontro pessoal que se torne inegável para quem o faz. Porque O encontrou no mais íntimo de si mesmo; porque O tocou no seu corpo que é a Igreja; porque Dele cuidou na carne do irmão, especialmente o mais frágil.
Só quem se encontra com Jesus descobre a urgência de O anunciar ao mundo. A evangelização não é proselitismo. Mas é a urgência de que ninguém fique impedido de poder encontrar-se com Jesus. E de que o mundo não fique à margem desse encontro. A evangelização é a conversão de todas as relações, a partir de Cristo. A começar pelos próprios evangelizadores. Só discípulos e comunidades cristãs que se deixam evangelizar continuamente podem ser evangelizadores.
Outro desafio que me parece inadiável é o do cultivo da vida interior e da espiritualidade cristã. Hoje parece confundir-se vida interior com dimensão psicoafetiva. Para muitos soa incompreensível falar-se nas faculdades da alma (visão, escuta, sensibilidade e inteligência interiores) como dimensões que alimentam a vida espiritual teologal (a vida de Deus em nós). As propostas de espiritualidade cristã têm pouca expressão. Teremos de oferecer mais:
a) Exercícios espirituais que cultivem a virtude da penitência e a conversão pessoal e comunitária;
b) Meditação bíblica (e lectio divina) que suscite a evangelização de comportamentos e relações;
c) Adoração que enraíze na confiança em Deus e na entrega de si mesmo ao Senhor;
d) Celebrações sacramentais que aprofundem o encontro com Cristo e o serviço à Igreja.
O penúltimo desafio que enumero é o da fraternidade. A dada altura, a civilização europeia tentou fundar a fraternidade na razão, como último eixo do tripé formado com a liberdade e a igualdade, todo ele assente na razão. Na segunda metade do século XX, com o advento do Estado social e das democracias liberais e representativas, parecia ter-se alcançado uma sociedade tolerante e solidária, concretização de uma fraternidade humana maioritariamente reconhecida.
Hoje vemos que não foi assim. A ausência de um fundamento absoluto onde assentar o tripé fê-lo desmoronar-se: a liberdade reduziu-se a um liberalismo individual excessivo que recusa limites; a igualdade sucumbiu ao relativismo do pensamento e económico, que reconfigura o valor em função dos interesses. A fraternidade dividiu-se em afinidades identitárias que se afirmam por oposição, muitas vezes violenta, face a outras afinidades identitárias.
Mesmo os cristãos, nas suas opções e relações familiares, eclesiais, sociais e políticas parecem ter perdido, muitas vezes, essa raiz da fraternidade universal que vem da fé. Parecem reger-se reactivamente, por comoção ou ressentimento, por afeição ou repulsa, por paixão ou ferida. A ponto de cortarem relações, abandonarem a Igreja, dizerem perder a fé.
A Igreja tem de voltar a mostrar a filiação que Deus oferece a todos como fundamento para a fraternidade, a igualdade e a liberdade. Foi a consciência dessa filiação que permitiu à Europa os avanços civilizacionais acima referidos, e foi a sua regressão que permitiu que os mesmos sejam hoje muito mais frágeis.
As famílias cristãs, as comunidades religiosas, as paróquias e os grupos, os sacerdotes entre si e com os diáconos, temos de ser, cada qual a seu modo, fermentos de fraternidade solidamente enraizada na filiação divina.
O último desafio que apresento é o cuidado pelas vocações e diferentes ministérios, batismais e ordenados. O seu desenvolvimento será o melhor antídoto contra a perpetuação de algum clericalismo dos padres e contra a clericalização dos leigos. A clareza quanto ao perfil e significado de cada vocação e ministério deve levar os responsáveis das comunidades a cuidar do discernimento junto dos que revelam perfil e idoneidade para determinadas missões. E não a confiar tais missões a quem as reclama para si ou deseja assumir algum lugar ou poder.
Como pedido, estas são experiências e reflexões pessoais. O Espírito Santo, atuando na fé de fiéis e pastores, dir-nos-á quais serão as da Igreja Egitanienses para os próximos tempos.
D. José Miguel Pereira
Bispo da Diocese da Guarda”
Artigo publicado na revista da Santa Casa da Misericórdia da Guarda. Dezembro de 2025
