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Homilia episcopal | Dedicação da Catedral

(22 / Outubro / 2026)

HOMILIA

«Não façais da casa de meu Pai casa de comércio».

Diante desta palavra de Jesus, que se seguiu ao gesto de derrubar, com um chicote, as mesas de câmbio e de expulsar os vendedores de animais e os cambistas do Templo, os discípulos lembraram-se da palavra da Sagrada Escritura: «Devora-me o zelo pela tua casa». E o Evangelista concluía, a propósito da palavra de Jesus quanto a destruir o Templo e o reerguer em três dias: «Falava do templo do seu corpo».

Vemos, assim, que Jesus não está a validar reações intempestivas nem a denunciar o mercado: está a assumir um gesto profético face à relação dos crentes com o Pai e à nova Páscoa que vai inaugurar. Jesus é agora o Templo onde a glória de Deus está e permanece. N’Ele, Deus habita para sempre no meio dos filhos do seu povo.

A relação nova com Deus não assenta em qualquer negociação comercial com Ele, na oferta de sacrifícios em troca de proteção e prosperidade: isso desvirtuou o Templo e a religião, e Jesus pôs fim a isso. A Páscoa de Jesus ergue um novo Templo, uma nova proximidade de Deus com a humanidade.

Os templos de hoje não se afirmam como uma realidade sensível para os ritos e o maravilhoso. Eles são o lugar onde o Corpo místico e vivo de Cristo se mostra presente, na comunhão dos fiéis, na oração e nos sacramentos.

À luz desta palavra, celebramos o aniversário da dedicação da Catedral. Não festejamos um monumento histórico nem um espaço para actividades rituais, entre outras. Celebramos o Corpo de Cristo que constituímos, unidos a Ele, e a vida nova nascida da Páscoa, simbolicamente manifestada nesta igreja mãe de toda a Diocese.

Este ano, a celebração surge enriquecida pela restauração de um órgão de tubos na nossa Catedral, cuja montagem se iniciará daqui por quatro dias e a inauguração se espera, não havendo mais nenhum contratempo, para final de novembro.

Aumentam as potencialidades para que a nossa Catedral se assuma cada vez mais como referência evangelizadora para toda a Diocese, nos campos da pastoral da cultura, do turismo, e da espiritualidade.

Não se trata de replicar, tal qual, o que se faça na Catedral. Mas de inspirar, estimular, orientar, melhorar o que se faça nas demais comunidades cristãs.

Olhemos a pastoral da cultura: a arte e a música são linguagens chamadas a elevar o espírito humano e a abri-lo ao Transcendente. Nas igrejas cristãs, acrescentam ainda a possibilidade de pôr em relação com o Deus vivo.

As igrejas não se podem reduzir a “salas de espectáculo” ou “cenários de eventos”, pela sua monumentalidade e sonoridade. A arte e a cultura que se apresentem nas igrejas sejam sempre enquadradas pastoralmente, não só garantindo a não contradição com o espaço que as recebe, mas propondouma interpelação evangélica que as envolva e acompanhe.

Semelhante atitude se promova na pastoral do turismo. As igrejas abertas ao culto são procuradas como locais de interesse turístico. A Catedral é o ex-libris desta nossa cidade. Mas aquilo que elas testemunham não é apenas o que a memória visual ou fotográfica é capaz de captar.

Elas transportam as esperanças e dores, os sonhos e realizações de um povo, traduzidos na sua fé, expressa localmente ao longo dos tempos. As visitas que nelas acontecem sejam igualmente enquadradas pastoralmente, oferecendo, explicitamente, o Evangelho que ali se escuta e anuncia.

Mesmo quando passaram a ser propriedade do Estado, a sua identidade e utilização permanecem cristãs, ao serviço da missão evangelizadora. O novo órgão permite maior qualidade da oferta artística, teológica e espiritual da nossa Catedral. O ambiente da Sé, a envolvente dos vários espaços e a oferta gráfica dos itinerários de visita favoreçam a abertura a Deus.

Também na pastoral da espiritualidade, a Catedral fica mais bem preparadapara se assumir como referência de aplicação da Reforma litúrgica, para todas as celebrações da Diocese.

As celebrações litúrgicas, sobretudo aos domingos e festas maiores da comunidade cristã, ficam mais capazes de receber «um esplendorextraordinário e elevar poderosamente o espírito para Deus e para as realidades celestes», como nos ensina a Sacrossanctum Concilium (SC 120).

Meditando esta constituição conciliar, o Papa Leão XIV ensinava-nos nas catequeses gerais deste ano: «o canto sagrado, intimamente unido com o texto, constitui parte necessária ou integrante da Liturgia solene» (SC 112). «A música sacra será […] tanto mais santa quanto mais intimamente unida estiver à ação litúrgica, quer como expressão delicada da oração, quer como fator de comunhão, quer como elemento de maior solenidade nas funções sagradas» (SC 112). Oração, comunhão, solenidade.

A solenidade requerida, no dizer da Dies Domini, para a missa de domingo(cf. DD 34), «o principal dia de festa a propor e inculcar no espírito dos fiéis» como nos ensina o Concílio Vaticano II (SC 106), tem na Catedral uma especial dimensão exemplar.

A «nobre simplicidade» e a «actuosa participação», que estruturam a liturgia pós conciliar, previnem contra a ostentação das formas e o simplismo que perde os sinais, assim como contra o protagonismo de poucos e o minimalismo funcional.

A formação permanente para os diferentes ministérios litúrgicos – leitores, acólitos, cantores, músicos, regentes da assembleia, outros – e o seu habitual e alargado exercício na missa festiva dominical devem ser continuamente promovidos na Diocese a partir da Catedral. A simplicidade seja nobre e nunca simplista. A participação seja actuosa e não só funcional.

Igual didática exemplar vimos beber à Sé quanto à orgânica da celebração eucarística. O altar é o centro da acção litúrgica da missa, pedra do sacrifício e mesa do banquete pascal, sinal de Cristo Morto e Ressuscitado e lugar da sua substancial presença real como verdadeiro Corpo e Sangue.

Por isso, do altar parte a comunhão aos fiéis (a reserva do sacrário, só para completar, quando necessário). Por isso, durante a celebração é o altar o primeiro destinatário dos gestos de reverência. Por isso, o altar é reservado para a liturgia eucarística e os ritos da comunhão. A não ser que o espaço das igrejas não permita, não se use o altar para outros momentos da missa; nem se o ocupe com utensílios alheios à liturgia eucarística.

Desde o início da celebração até à sua conclusão e envio dos fiéis, a presença mística real de Cristo acontece na assembleia reunida, visibilizada singularmente no presidente como cabeça de um corpo. Por isso, os ritos iniciais e finais decorrem na cadeira presidencial (que no caso do bispo na Sé é a cátedra), sinal da presença de Cristo, Cabeça do Corpo. Nela se preveja a existência de microfone e a apresentação do missal.

Com a reforma litúrgica, ela não é, apenas, uma cadeira lateral para que o presidente se sente e ouça as leituras. É o lugar da Cabeça, onde se distribui a absolvição não sacramental após o pedido de perdão (no acto penitencial), se recolhem as intenções de todos (na oração da colecta), se distribui o exercício dos ministérios (inclinação a fazer ou bênção a pedir ao presidente antes de cada leitura), e se concede a bênção e o envio final.

Semelhante veneração dada ao Corpo sacramentado do Senhor recebe a Palavra das Escrituras, na liturgia da missa acolhida como alimento de Deus e presença viva de Cristo no Evangelho. Por isso a liturgia da Palavra decorre no ambão, sinal do túmulo vazio que anuncia a Ressurreição e reservado à Palavra de Deus. Nele não se fazem avisos, saudações, agradecimentos ou outros gestos, para os quais deve existir uma estante e microfone próprios.

A liturgia aqui celebrada eleve o nosso espírito, nos abra à glória do Senhor que nela se toca, nos introduza na união com a assembleia festiva do Céu, nos edifique como templo e corpo do Senhor.

E seja modelo para a vida espiritual das paróquias, e para a vivência da liturgia dominical de acordo com a Reforma litúrgica: festiva, solene, ministerialmente mais participada; e congregadora das diferentes comunidades e aldeias, famílias e gerações.

+ José Pereira, Bispo da Guarda