“D. José Miguel Barata Pereira, atual bispo da Guarda, foi durante largos anos o reitor do Seminário Maior de Cristo Rei dos Olivais, em Lisboa. Confirma que “a ansiedade e a dificuldade em lidar com a pressão do desempenho são comuns” entre os jovens candidatos ao sacerdócio, que “trazem as inquietações, desafios, capacidades, medos e inseguranças próprias deste tempo”. Mas garante que há cada vez maior preocupação com a saúde mental ao nível da formação, e que se assegura “acompanhamento humano e psicoafetivo e encaminhamento para psicoterapia”, quando é necessário.
Entre os “fatores de risco” de burnout nos padres aponta o “escrutínio permanente”, porque mesmo que o sacerdote já não tenha o “estatuto social” de outros tempos, há hoje mais avaliação e cobrança. “Vejam-se as exigências a respeito da homilia dos padres: o tempo que demoram, se tocam em determinados assuntos, se têm eloquência e capacidade”.
Alerta, ainda, para a “funcionalização do sacerdócio”, visto como uma função de liderança. “É bom que não seja visto como uma sacralização excessiva, que o põe num pedestal”, mas também não pode ser considerado um simples “funcionário”. “O sacerdote é um homem. Chamado a uma missão, mas é um homem, e uma das coisas em que temos algum cuidado na formação é a valorização da vulnerabilidade: saber aceitar as fragilidades, que não tem de acertar sempre, que pode ter dúvidas”.
Como bispo na Guarda, também se tem esforçado por isso. “Este foi um ano para aprender a ser bispo, com o povo. Houve pessoas para quem isso foi marcante, não estavam à espera que eu dissesse isso. Mas é importante sermos capazes de dizer, como padres, que não temos de saber tudo, nem ter solução para tudo. A Igreja, mesmo tendo a força de Deus e a luz do Espírito Santo, muitas vezes tem de ir à procura, ouvir, saber escutar, discernir. Isso é muito importante na formação dos padres e dos leigos, para que os leigos também aceitem isso em relação aos padres”.
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” Bispo da Guarda desde março de 2025, D. José Miguel Barata Pereira percebeu “desde a primeira hora” que tinha de dar mais atenção aos padres da diocese. “É um presbitério generoso e que tem muito trabalho. Não é só haver muitas paróquias, são dispersas, isoladas. O esforço de os padres não faltarem a ninguém é um desafio permanente”, diz à Renascença.
Fala, por isso, no desafio de repensar a reconfiguração da organização pastoral e das paróquias, “como é que devemos capacitar outra forma de presença que não seja sair do território. Porque, quando todas as outras instituições já saíram, a Igreja é muitas vezes a única que permanece nas aldeias”. É preciso encontrar “formas de cooperação, para que outros agentes, com os padres, possam ter condições de estar presentes, sem ser uma corrida que só desgasta”.
Numa Igreja que se quer sinodal, qualquer mudança implica envolvimento dos leigos. Mas é preciso superar a “lógica do consumidor para a lógica do cuidador”. Muitos permanecem na primeira, “querem a presença do sacerdote na sua terra, senão não vão até ao lado participar na atividade”.
Citação integra – RR – Rádio Renascença
