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Opinião | Chamo-vos amigos

Há gestos que dizem mais do que parecem. Na passada sexta-feira, dia 26, ao abrir o segundo consistório extraordinário do seu pontificado, o Papa Leão proferiu uma palavra que permanece. Dessas que se guardam e meditam no coração, como Maria fazia. O ministério que o Senhor lhe confiou “não pode ser vivido na solidão”. E pediu aos cardeais, com simplicidade, apoio para não se sentir sozinho, mas sustentado por eles “como por irmãos”.Reparemos bem, porque há aqui algo especial. É Pedro a pedir. Não por fraqueza, mas porque sabe que a missão não é sua, mas foi-lhe confiada, e por isso é partilhada. O Sumo Pontífice não governa na solidão. Pede “liberdade, franqueza e lealdade”, porque “um conselho sincero”, observou o Papa, “é sempre um acto de comunhão”. Há, neste pedido, uma lição luminosa sobre aquilo a que a Igreja, corpo de Cristo, é chamada a ser: não uma hierarquia de quem manda e quem obedece, mas uma comunhão de diferentes membros que se completam entre si.

Mas isto não se aplica apenas ao sucessor de Pedro. Vale para toda a Igreja, e de modo particular para a relação do bispo com os presbíteros, e destes entre si. O Evangelho mostra-nos sempre o mesmo caminho. Jesus, na última Ceia, disse aos seus algo que mudou tudo. Disse-lhes: já não vos chamo servos, porque um servo não sabe o que faz o seu Senhor; a vós, chamei-vos amigos. E deu-lhes, no mesmo momento, a medida dessa amizade: amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Sereis meus amigos, disse, se fizerdes o que vos mando. E o que manda é só isto: que nos amemos. Porque ninguém tem maior amor do que quem dá a vida pelos amigos, e era essa a vida que Ele estava prestes a dar.

Um servo cumpre, um servo obedece, um servo é suficiente para que a missão se faça. Mas Jesus não quis a medida do servo. Quis a do amigo. Não pediu o mínimo devido, ofereceu o máximo do amor. E é desse amor, e não de um contrato, que nasce a Igreja. É bonito guardar isto. O presbítero é, antes de tudo, amigo e irmão, cooperador de uma alegria que o ultrapassa. E o bispo, à imagem de Pedro, é primeiro pai e irmão. A relação entre eles nasce do mesmo sacramento, e é por isso que nunca se reduz a uma distribuição de tarefas. Há sempre, no meio, mais do que funções. Há um vínculo que vem de Deus.

O Papa lembrou-o nestes dias: a comunhão constrói-se “com gestos e atitudes concretas no quotidiano”, e não com palavras e documentos. É uma boa lembrança, porque põe a comunhão ao alcance de todos. Não se decreta. Faz-se na hora certa, com um telefonema, uma visita, um nome lembrado, uma presença que diz “não estás só”. Faz-se conhecendo o irmão pelo nome, e não pelo lugar que ocupa.

Mesmo assim, é certo que um cansaço pode rodear quem serve. Todos o conhecemos, mais cedo ou mais tarde. Nem sempre vem de trabalhar muito. Vem, sobretudo, de deixar secar a fonte de onde se bebe. E esse cansaço não se cura com a folga, porque no íntimo é sede. Sede de Deus, sede de fraternidade, sede de sentido.

Por isso o descanso de quem ama não é fuga. Atrevo-me a chamar-lhe descanso compassivo: o que nos devolve ao mundo de coração mais largo. Descansa-se para se poder amar melhor. Foi o que Jesus pediu aos seus quando os mandou descansar um pouco.

Parece-me que não é por acaso que estas palavras chegam agora. Terminamos o mês dedicado ao Sagrado Coração, e há pouco mais de duas semanas a Igreja rezou pela
santificação dos seus sacerdotes. As duas coisas encontram-se num ponto só. O sacerdote guarda no peito o Coração do Bom Pastor, e é dali que tudo nele nasce. E compreende que a sua grandeza não está no muito que faz, mas no muito que ama.

Fica, então, o convite que o gesto do Papa nos deixa. Que ninguém na Igreja governe, sirva ou caminhe na solidão. Que entre um bispo e os seus padres, e entre os padres todos, a medida não seja nunca o estrito dever, mas sempre o maior amor. É essa a alegria a que somos chamados: ter ao lado não subordinados, mas amigos.
E que o descanso destas férias seja, para todos, um regresso à Fonte, de onde emana esse amor que nos faz irmãos.

P. João Marçalo

© The Icon of Friendship – Taizé, Christ and Abba Menas.