Skip to content Skip to footer

Homilia Episcopal: Paixão do Senhor – 03 de abril de 2026

«O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que Eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui. […] É como dizes: sou Rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz».

Jesus apresenta-nos a sua paixão como o momento maior de toda a sua missão, a qual define como um “testemunho da verdade”.

Diante desta afirmação, muitos podem perguntar como o próprio Pilatos questionou de imediato: «Que é a verdade?».

A procura da verdade sempre guiou as pessoas e sociedades e está na base de todos os processos de aprendizagem e de investigação. Foi a convicção da existência, na realidade, de nexos estáveis e captáveis pela razão (lógica) que favoreceu o desenvolvimento do pensamento filosófico e científico como procura de compreender e dizer a realidade.

Essa convicção implicava, inerentemente, igual convicção quanto à capacidade da razão humana em captar, compreender e dizer a complexidade da realidade que tocava e estudava.

Como ensinava São Tomás de Aquino, o conhecimento humano verdadeiro é a adequação do intelecto à realidade, (adaequatio rei et intellectus), isto é, quando o conhecimento corresponde fielmente ao que as coisas são.

A verdade era entendida como a realidade objectiva externa ao sujeito que a procura e apreende, e depois sintetiza a informação em conhecimento e o comunica e aplica. A dimensão subjectiva era controlada, por meio do consenso alargado e tendencialmente universal (a razão universal, a comunidade científica) para não enviesar a objectividade da verdade.

A pergunta pela verdade partia da evidência da sua existência – a realidade objectiva externa, complexa mas acessível – e da certeza de a mesma poder ser investigada, descoberta, conhecida e utilizada para bem da humanidade.

Por isso, a relação com a verdade implicava sempre a abertura a algo fora de si, anterior e posterior, maior, não dominável. A realidade em si mesma, a explorar e descobrir, permanecendo ela mesma. Passível de ser conhecida, e desse modo apropriável de alguma maneira (no modo como o sujeito a conhece a aplica), mas sempre a realidade objectiva, em si mesma, transcendente ao sujeito.

Desse modo, sem dificuldade essa transcendência se abria ao natural e ao sobrenatural, sempre que ambos se apresentavam ao sujeito como realidades que ele tinha diante de si, pelas quais era surpreendido e procurava conhecer.

Assim, aquele que conhecia algo era porque, de algum modo, fora posto em contacto com determinada dimensão da realidade, a apreendera, e tornava-se comunicador da mesma. À maneira de uma testemunha que facilitava que outros também fossem postos em contacto com a mesma dimensão da realidade.

Um mestre humano não era o detentor da verdade, mas o aprendiz mais experimentado que iniciava outros em igual processo de aprendizagem.

Jesus, mesmo sendo Deus, apresenta-Se como o Filho que «nada pode fazer por Si próprio, mas só aquilo que viu fazer ao Pai» (Jo 5, 19). Diz de Si: «Eu não posso fazer nada por Mim próprio: julgo segundo o que oiço»(Jo 5, 29). E aos apóstolos: «chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai» (Jo 15, 15).

Jesus ensina-nos que a verdade é uma realidade dinâmica, um dom acolhido para ser doado. O próprio Deus, autor da realidade criada e seu fundamento, é em Si mesmo um conjunto de relações de acolhimento e partilha. Onde cada uma das Pessoas divinas é acolhimento e dom.

Agora percebemos porque, no diálogo com Pilatos, depois de se apresentar como testemunha da verdade, Jesus diz claramente: «Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz». Quem quer buscar a verdade, precisa de se abrir à escuta como aprendiz, não de se fechar em si mesmo como construtor da verdade.

A cruz de Jesus é o testemunho maior desta realidade dinâmica de acolhimento e entrega: a vida recebida do Pai para ser dada a todos em abundância é entregue ao Pai: «Pai, nas tuas mãos entrego o meu Espírito.»

E porque a recebe e a entrega, pode depois retomá-la: «Assim como o Pai tem a vida em Si mesmo, assim também concedeu ao Filho que tivesse a vida em Si mesmo» (Jo 5, ??); «por isso o Pai Me ama: porque dou a minha vida, para poder retomá-la» (Jo 10, 17).

Toda a vida, Jesus testemunhara, dizendo: quem quiser guardar a sua vida, há-de perdê-la. Só a vida que aceita morrer dá muito fruto. Quem usa da espada, morre pela espada. Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Quem crê em Mim, ainda que morra, viverá.

Na cruz e ressurreição, este testemunho de palavras e de gestos, torna-se testemunho perenemente vivo da realidade, mais eloquente do que quaisquer sentenças de sabedoria: a vida não termina aqui; a realidade não se esgota neste mundo. Quem em Deus vive e em Deus morre, em Deus ressuscita para a vida em Deus.

Se esta é a verdade testemunhada e revelada por Jesus, porque nos é tão difícil nela acreditar e dela viver?

Entre muitos outros factores, saliento dois. O aprofundamento do pensamento sistemático acerca da verdade apreendida, levou progressivamente à delimitação da realidade em conceitos e doutrinas, e à consequente apropriação da verdade como se ela fosse posse deste ou daquele grupo, desta ou daquela corrente ou comunidade religiosa.

A noção de que todos somos peregrinos da verdade, e de que há formas de aceder ao seu conhecimento que são depois universalmente reconhecidas foi dando lugar à noção de que alguns são os guardiões da verdade, condensada na sua forma de a conhecer e defender.

A verdade como que se transferiu da realidade objectiva externa, anterior e posterior, maior, não dominável para a doutrina formulada de determinado modo. Mais do que um universo real acessível à escuta, a verdade foi-se centrando nas dimensões já estudadas e formuladas conceptualmente que é preciso defender.

Simultaneamente, o desenvolvimento do pensamento filosófico centrado no modo como o sujeito, ao aprender a realidade, de algum modo a constrói, e das ciências psicossociais centradas nos processos de funcionamento do sujeito na sua relação com a realidade, pôs em causa a possibilidade de se considerar a verdade como realidade objectiva, externa e universal.

A verdade passou a ser progressivamente considerada enquanto o modo como cada um subjectivamente apreende e representa a realidade, e não tanto ela mesma. A realidade objectiva e universal fica de algum modo inacessível. Apenas é possível dizer o que cada sujeito apreende e sintetiza como verdade.

A verdade como que passou para o domínio do subjectivo, relativa à circunstância de cada sujeito. A verdade reduz-se ao que cada um formula. Desconfia-se da verdade objectiva e disponível para ser descoberta, fica-se com a verdade subjetiva de cada um.

Ambas estas transformações – a verdade como doutrina de determinado grupo ou como construção subjectiva de cada pessoa – levam a desinvestir na procura das coisas como elas realmente são e se oferecem aos sujeitos, para bastar a cada grupo ou pessoa reger-se pela sua verdade, encerrar-se na sua narrativa, escutar apenas os que vêem a realidade da mesma maneira.

Com a universalização do acesso à informação, potenciada primeiro pela internet e mais recentemente pela inteligência artificial, a possibilidade de propor narrativas da verdade parcelares e intencionalmente capazes de influenciar, ou mesmo manipular, o acesso à realidade, tornou o discernimento acerca do que seja a realidade objectiva ou a mentira construída acerca dela mais dificultado.

Neste contexto, a pergunta de Pilatos ressoa como uma desconfiança: ainda se pode falar da verdade (objectiva)? Não será melhor falar antes de verdades plurais e relativas?

Para responder, urge oferecer o testemunho de Jesus, na vida e na morte: a verdade é o amor até ao fim. A verdade é a paz que recusa qualquer violência. A verdade é este mundo ordenado ao Reino que não é daqui. A verdade é Deus que Se nos diz pela vida e voz de Jesus. A verdade é a pessoa de Jesus.

Como nos sugere, em latim, a pergunta de Pilatos e a resposta anagrama da mesma: quid est veritas? Est vir qui adest. O que é a verdade? É o homem que aqui está.

Sem a abertura ao transcendente, a verdade não passa de uma narrativa circunstancial e sujeita a interesses individuais ou de grupos. Sem o transcendente sobrenatural, a verdade não passa de uma parcela da realidade.

Deus uno e único, audível de muitos modos e por meio de muitos profetas, mas acessível por seu Filho, palavra encarnada do Pai e silêncio eloquente da cruz, continua a querer oferecer-Se ao mundo como a fonte e o acesso à verdade última e definitiva que salva todo o ser humano.

Porque só Ele pode transferir este mundo para o Reino de seu Filho. Só Ele pode dar completude à procura de plenitude que o coração humano prossegue quando, diante da realidade, se pergunta pela verdade.

Uma última palavra quero elevar a Deus pelos nossos irmãos do Médio Oriente e da Terra Santa. Que a humanidade reconheça quem é Aquele que lhe pode dar a paz. E abrace o mesmo empenhamento até ao dom pacífico de si mesmo que Jesus assumiu e com o qual calou a violência e superou a morte.

Rezemos pelos povos e pelas comunidades cristãs do Médio Oriente e da Terra Santa. Suportemos a sua existência com a nossa oração em favor dos esforços de paz. Suportemos a sua presença nesses lugares com a nossa partilha generosa de bens e ofertas financeiras em favor da sua subsistência.

Fotos: Municipio da Guarda – Celebração de 2025 / Olga Oliveira – Celebração de 2026