«No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. […] Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa…».
Nesta manhã, todos os caminhos vão dar ao sepulcro. Uns, porque percorridos pelos que procuram ainda na escuridão, alguma luz que faça sentido.
Quantas vezes, a dada altura do caminho, os desencontros, os desânimos, o peso da idade, as perdas fazem sentir fugir o chão debaixo dos pés. Aquilo em que se acreditou, e pelo qual se gastou as melhores forças e os maiores entusiasmos da juventude, parece já não ser suficiente.
Muitas vezes é apenas a habituação, a rotina, o desgaste e o cansaço. Mas há uma noite escura, apenas penumbra ou noite cerrada, que envolve o coração e rouba a motivação. Ainda assim, permanece uma réstia de esperança capaz de nos mover ao sepulcro, nem que seja para nos alimentar a partir das memórias boas antes vividas.
Outros, porque percorridos pelos que procuram a novidade que concretize o sobressalto gerado por uma notícia esperançosa, por uma liderança próxima e motivadora, ou por um acontecimento renovador. É uma centelha que se reaviva e intensifica e faz correr ao sepulcro.
Em ritmos diferenciados, segundo a condição e a provocação interior experimentada por cada um. Mas ainda assim juntos, isto é, em sintonia de procura.
Indistintamente dos personagens da narração bíblica, estas realidades podem ser vividas por qualquer um, em diferentes fases da sua vida, e até da sua relação de fé e de compromisso com a Igreja.
Acima de tudo, esta passagem da Palavra de Deus confirma a bondade de manter viva a capacidade de procura, sem desistir de o fazer por desânimo, nem estagnar por julgar ter alcançado todas as respostas necessárias.
A ressurreição de Jesus mostra-nos que a única certeza é a de que Deus sempre está lá, e nos pode surpreender. Diante da ressurreição de Jesus podemos estar seguros de que não há becos sem saída. Nem a morte foi ou é um ponto final. Há uma saída que abre para um nova vida, não um retorno ao que se guardou, mas um caminho que projecta mais além e se completa no definitivo de Deus.
Que nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais passou pela mente humana; mas que Deus preparou, tendo semeado, no coração de cada um, a semente que irromperá em apelo de procura que não quer ser reprimido.
Neste tempo, tão atravessado por contradições, por desilusões face a propostas que não cumpriram o que anunciavam e prometiam, por escândalos, pelo descrédito das instituições, inclusive as religiosas, é preciso proclamar bem alto a novidade desta manhã pascal: quem procura, encontra; quem não desiste, é surpreendido; quem mantém viva a memória, alcança com deslumbramento.
Neste mundo, chamado ocidental, que tem dificuldade em tocar o divino e confunde apropriações políticas da religião com a fé sobrenatural autêntica, acabando por rejeitar esta última, é preciso proclamar bem alto a novidade desta manhã pascal: Cristo torna possível a vitória da vida, sem violência, sem dominação; e o sobrenatural alarga e supera, não reduz nem divide.
Mas voltando ao texto evangélico de hoje, vale a pena olhar cada uma das três personagens.
A primeira é Santa Maria Madalena, a apóstola dos apóstolos. É a mulher junto aos Doze; depois da Virgem Santa Maria é a primeira que permanece, que não desiste, assume a iniciativa, abre caminho, está presente (com haviam estado, quase só as mulheres, junto à cruz de Jesus), conhece e anuncia; aquela que garante a transmissão imediata e viva da fé.
Mas não divide, não age por conta própria, não se apropria da graça recebida. Constrói a Igreja, alarga a Igreja, renova a Igreja, comunhão de discípulos amados por Deus e por Ele guiados pelos que foram constituídos em autoridade: «[Maria Madalena] correu então e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo que Jesus amava…».
Não como uma submissão, mas como um protagonismo articulado, um rasgar de caminho, que uma vez aberto se torna chão comum a desenvolver e construir em comunhão de diferentes carismas.
Encontramos também São Pedro, o impetuoso que aprendeu a ser tornado rocha que confirma na fé e na unidade. É o que representa os Doze; com eles, tem a solicitude de escutar e observar, sabendo partir quando e logo que necessário, mas sem apressar o que precisa de ser iluminado e integrado na unidade da fé:
«entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu… […] Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos».
Não o faz isoladamente, como poder autorreferencial e absoluto, mas seguindo atrás do sentir da fé dos discípulos (o outro que corre junto com ele mas mais depressa), acolhendo a expressão do seu acreditar, e voltando para discernir, com os Doze, como enquadrar os acontecimentos recentes com o testemunho anterior recebido do Senhor.
Vemos, finalmente, o outro discípulo (também dito discípulo amado), no testemunho da Igreja antiga considerado tratar-se de São João, o autor deste evangelho. É o jovem, de coração apaixonado e vibrante de amor ao ter-se encontrado com o coração de Jesus.
É aquele que corre de entusiasmo e vai mais depressa; o que se enche de força interior e coragem, capaz de enfrentar os perigos (o único do Doze junto à cruz); o que está bem integrado no seu tempo e abre caminhos para a presença da Igreja (como no pátio do sumo sacerdote); o que é autêntico e imediato a acreditar quando é tocado por Deus: «Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou».
Também os jovens são o hoje da Igreja, chamados com o seu entusiasmo e ousadia a correr adiante, a assumir o protagonismo de ver e acreditar, a propor expressões de traduzir a fé neste tempo. Não o fazem sozinhos nem o querem fazer.
São os primeiros a reclamar a proximidade de pastores e animadores, não para simplesmente os inserirem em grupos e formas dos mais velhos, mas para os escutarem, acompanharem, formarem e confirmarem: «chegou primeiro ao sepulcro. Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou». A par de espaço e iniciativa, eles pedem formação e confirmação.
Aliás, as gerações anteriores a eles precisamos de aprender a discernir os sinais dos tempos de que eles são portadores por excelência.
Há aí muitos de nós preocupados e até assustados: uns porque os jovens são muito “progressistas” e já não abraçam algumas tradições e hábitos; outros, porque os jovens são muito “conservadores” e querem recuperar formas que lhes dão segurança e abrem para uma densidade que não encontram, mas das quais nos esforçámos por deixar para trás.
No fundo, uns e outros queremos que eles se encaixem no equilíbrio a que chegámos e se tornou para nós seguro: seja a segurança de fórmulas equilibradas, seja a segurança de permanecer nas perguntas sem ter de assumir respostas.
O mundo mudou e a Igreja e precisa de saber ler os sinais dos tempos. Que não são a simples leitura dos dados psicossociais. Mas a escuta do que de Deus irrompe por entre tais dados, mas não se confunde com eles.
Não são apenas os jovens da década de sessenta e seguintes do século passado que eram portadores dos sinais dos tempos. Tanto os que contestavam os usos e costumes estatuídos como os que se entusiasmavam com os mestres das novas correntes de teologia (bíblica, dogmática e moral), de liturgia, de aggiornamento.
Também o são os das primeiras décadas do actual milénio, com acentuações, continuidades e alterações, face aos jovens que já fomos.
A sabedoria da manhã da Páscoa é a de que façamos o caminho juntos, valorizando as diferentes procuras e integrando-as na comunhão. Que se enriquece com o apostolado fecundo de Santa Maria Madalena, o ardor juvenil de São João, e o ministério apostólico de São Pedro.
Seja a força da manhã da Páscoa a sustentar-nos na transformação missionária e sinodal da Igreja universal e da nossa Igreja diocesana da Guarda.
+ José Pereira, Bispo da Guarda
Foto: Municipio da Guarda
