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Catequese Quaresmal – I – A Penitência como virtude para este tempo

CATEQUESES QUARESMAIS

RENOVAI-VOS E REVESTI-VOS DO HOMEM NOVO”

I

A penitência como virtude para este tempo

Neste primeiro passo do itinerário quaresmal que propus fazermos juntos, à luz da exortação bíblica “Renovai-vos e revesti-vos do homem novo”, quero meditar sobre “A penitência como virtude para este tempo”. Escutemos o que nos diz o Senhor na liturgia da Igreja:

«Chegaram os dias de penitência: expiemos nossos pecados e salvaremos nossas almas.»

Chegaram os dias… Esta afirmação sugere, de algum modo, uma expectativa: esperava-se a sua chegada, e eis que eles chegaram. Simultaneamente, uma vez que esta afirmação se repete ciclicamente no tempo da Quaresma, ela sugere que aquilo que se espera não é ainda uma coisa última e definitiva, mas algo de regular, com algum carácter de habitual.

Mas é realmente assim? A penitência é na nossa vida de crentes, famílias, comunidades, algo que esperamos, desejamos e nos alegramos com a sua chegada? A penitência é algo de regular, habitual, que marca o ritmo da nossa vida?

Julgo não errar muito se antecipar que não será bem assim. Talvez não olhemos para a penitência como ela realmente é, e tenhamos ficado por outras visões mais pesadas, desconfortáveis, menos apetecíveis.

Aprofundemos, pois, em que medida a penitência é um dom benéfico, isto é, que nos traz bem, que nos faz bem. Olhemos para a continuidade da frase: expiemos nossos pecados e salvaremos nossas almas. Teremos oportunidade, em próximas catequeses, de aprofundar o sentido do pecado e a novidade da salvação. Agora quero apenas acentuar que a expiação do pecado e a salvação são a realidade libertadora em que a penitência nos mergulha, desde já.

Tantas vezes, muitos homens e mulheres sentiram desconforto, às vezes mesmo aversão, em relação à fé cristã, por a julgarem uma religião que acentua a culpa, que alimenta um sentimento de inferioridade e se torna um modo triste de viver, às vezes até alienado, à espera de uma felicidade apenas após a morte. Temos de reconhecer que algumas formas de propor e viver a fé cristã, algo resignada, ou escrupulosa, ou centrada no medo do castigo, ou adormecida em formas de compensar as falhas cometidas, ou assente em práticas formais para “conseguir” a salvação à hora da morte podem levar a essa conclusão.

Mas se repararmos com atenção, essas propostas não nascem da fé cristã, mas estão presentes transversalmente em muitas culturas, religiões naturais e filosofias de vida, muito anteriores a Jesus Cristo. Elas procuram ajudar a lidar com a culpa, o medo e a vergonha, três “fantasmas” que condicionam fortemente a nossa atitude na hora de assumir interior e publicamente as consequências da nossa condição e conduta frágil, vulnerável, impotente, e tantas vezes errónea, interesseira, perversa.

O ambiente religioso e cultural podem acentuar esses “fantasmas”. E podem procurar escapes, formas de os atenuar para criar um nível tolerável para lidar com eles. É o que acontece com a expiação sacral de grande parte das religiões. Os sacrifícios de animais, às vezes até de pessoas, eram uma tentativa de transferir a culpa colectiva para uma vítima que, oferecida às divindades, esvaziasse a culpa e restabelecesse a confiança.

Não alterava a situação, apenas a expectativa de que a divindade nos desculpasse. Por isso, o foco ficava no esforço, no sacrifício, no sofrimento autoinfligido face a uma divindade irascível, disponível para a vingança e o castigo, que era preciso aplacar. A relação mantém-se centrada no medo, na submissão impotente, na dúvida face à disposição divina.

O judaísmo da Antiga Aliança atenua esse estado de coisas mas não o resolve. A proximidade e a aliança entre Deus e o povo conduzem à consciência da proibição dos sacrifícios humanos. Mas o bode expiatório, os sacrifícios e libações, o baptismo de penitência, permanecem centrados no esforço humano, nos ritos e renúncias, como tentativa de aproximação ao que se conclui dever agradar a Deus.

A mudança é meramente de gestos e superficial, e assente no desconforto esforçado enquanto se aguentar; por isso é tendencialmente pesada, inconsequente, temporária.

Tantas vezes é ainda neste horizonte que os cristãos vivem a penitência. E por isso reduzida a um conjunto de renúncias, esmolas, fórmulas, práticas de mortificação, vividas ciclicamente, enquanto actos avulsos e por um período limitado no tempo. Sempre nos renovam no desejo anual de mudança, mas mostram-se pouco eficazes, e menos ainda alegres; aparecem mais como práticas resignadas do que desejadas.

Em alguns casos, a penitência é associada a culpas não resolvidas, a dores passadas angustiantes, como um castigo a carregar ou uma compensação a pagar ciclicamente, até que na morte se complete a expiação. E noutros casos, ela é inclusive entendida como a aceitação resignada de uma arbitrariedade de Deus que poderia orientar as coisas de outro modo mas quis assim, e nós só temos de aceitar.

Esta é tantas vezes a forma de os cristãos viverem a penitência, mas não é a penitência cristã, inaugurada por Jesus.

Ao iniciar a sua vida e ministério públicos, Jesus apresenta uma nova penitência: «Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho». Este arrependei-vos é no original grego “μετανοείτε” (mudai mais além a mente), traduzido em latim por “paenitemini” (fazei penitência).

Para entendermos o seu significado, olhemos na frase completa: A razão da penitência não é uma realidade futura a alcançar depois de um esforço pessoal a praticar. Ao contrário, trata-se de acolher, permanecer e aprofundar uma realidade inaugurada que nos envolveu: “completou-se o tempo e está próximo o reino de Deus”. Ou seja: o tempo chegou à sua plenitude, e o reino de Deus escancarou-se de tão próximo de nós que se tornou.

Deus está pessoalmente entre nós, pois fez-Se um de nós. Pode ser apreendido por nós porque fala, toca, vive como nós e à nossa beira. E nós começámos já a viver em Deus, porque em Jesus a humanidade, cada um de nós, uniu-se a Deus. O reino de Deus envolveu-nos e tornou-se o lugar do nosso viver. Toda a vida pública de Jesus é revelação disto. E a sua Páscoa é o último e definitivo acto realizador desta obra inaugurada na Encarnação do Verbo. O reino de Deus ainda não está consumado, isto é, a criação ainda precisa de se deixar reconfigurar totalmente pelo novo que já é. Mas ele é já uma realidade inaugurada.

Assim, arrepender-se já não é a simples pena ou tristeza pelo mal praticado, o medo de sofrer uma pena ou castigo em paga, o cumprimento de uma pena ou sacrifício para aplacar algum ressentimento ou alcançar a benevolência de Deus.

Arrepender-se é mudar a mente mais além, converter o olhar e o coração para reconhecer a nova condição para a qual Deus nos transferiu em Jesus. Em consequência, fazer penitência é viver o que de novo se inaugurou, pôr em prática, nos gestos e relações, a nova realidade em que cada um se tornou.

Reparemos no resto da frase: viver a penitência está indissociavelmente unido a acreditar no Evangelho. E o acreditar bíblico não é uma simples adesão do intelecto a uma verdade reconhecida como tal. Nem uma prática intermitente de gestos de autoaperfeiçoamento. É o seguimento da pessoa de Jesus como Boa Nova para todos; é o apoiar-se vitalmente nessa nova relação com Ele; é unificar interior e exteriormente, individual e relacionalmente o homem novo em que Jesus nos constituiu.

A penitência torna-se, então, um alimento de uma nova condição de vida. Como alimento, há-de ser regular, repetida, contínua mesmo. Há-de sustentar, fortalecer, restabelecer quando necessário. Há-de fazer crescer, favorecer um desenvolvimento harmonioso, concorrer para uma vida salutar.

Assim sendo, a penitência já não pode ser vivida como gestos ou actos avulsos. Ela é uma verdadeira virtude, um treino continuado da pessoa, um “hábito operativo bom”, que marca positivamente as suas atitudes e os actos consequentes. Ela alimenta o homem virtuoso, isto é, renovado e reordenado, que vive a partir de Cristo e do seu Evangelho.

A penitência não é um treino de ginásio, um esforço imposto a partir de um esquema analítico para alcançar determinados objectivos desejáveis; é antes um processo de desenvolvimento articulado, que aprende a aprofundar uma realidade inaugurada a caminho de uma completude, com correcções e confirmações.

A esta luz, a penitência também não se cultiva isoladamente. Ela integra-se num composto de virtudes unidas como que organicamente, que se convocam reciprocamente em ordem a promover a pessoa que se ordena para o seu fim, para o Bem. Cada virtude cresce com o crescimento das demais virtudes, e todas juntas edificam o homem novo.

A mãe ou base de toda esta edificação é a humildade: virtude que faz conhecer com realismo, isto é, sem presunção nem desconsideração, a si mesmo e o mundo em redor. Consciente dos seus limites e potencialidades, dos seus defeitos e qualidades, dos seus erros e sucessos, dos seus pecados e bondades, a prática das virtudes guiam o crescimento da pessoa. Sendo que a rainha ou cume de todas elas é a caridade, amor oblativo gratuito que nos faz participar do modo divino de amar.

Neste contexto, então como actua a penitência em nós? O evangelho segundo S. Mateus que escutamos na celebração da Cinzas e a disciplina da Igreja sobre a penitência apontam-nos três áreas e modos de actuação.

Em primeiro lugar, a virtude da penitência faz crescer em nós o desapego e a descentração de si próprio. Cultivando atitudes e práticas de libertação ao que prende o coração, de renúncia ao mais cómodo, de desapego do que mais apetece, de submissão ao que é mais fácil, aquela virtude alimenta a abertura ao que nos edifica, a disponibilidade para o que nos eleva. É aí que surge o jejum, a abstinência, a mortificação sadia (sem excessos depreciativos do corpo) como expressão de ascese: não como fins em si mesmos mas como criação de espaço e condições para o que eleva.

Depois, criado o espaço livre, a virtude da penitência aprofunda em nós a inabitação em Deus. Cultivando atitudes e práticas de encontro de qualidade com Deus, escuta autêntica da sua palavra, meditação da sua vontade, contemplação da sua bondade, reforço da vida sacramental, aquela virtude aprofunda a união a Deus, a confiança n’Ele, o abandono à sua vontade, a configuração com Cristo. A oração surge como expressão de conversão do olhar e da mente: não como “rezas” mas como mergulho em Deus e conformação com o seu olhar e o seu viver.

Finalmente, aprofundada a união a Deus, a virtude da penitência desenvolve em nós a doação da vida pelo bem dos irmãos. Cultivando atitudes e práticas de cuidado do outro, atenção ao mais pobre e esquecido, reconciliação dos desavindos, partilha fraterna de bens, aquela virtude desenvolve a adesão operativa ao querer e agir de Deus. A esmola, o contributo penitencial, as obras de misericórdia (corporais e espirituais), a renúncia quaresmal surgem como expressão de um modo de amar à maneira de Deus: não como preceito anual a cumprir ou cumprimento de um dever de consciência, mas como forma de ser.

Se a virtude da penitência se oferece assim o cultivo de áreas ou modos de ser, ela também realiza três funções sociais de grande importância. Não numa visão simplesmente retributiva, de pendor meritocrático, como imposição de prémios ou castigos em razão de comportamentos praticados. Mas num horizonte salvífico, com oferta pedagógicas para um itinerário potenciador da transformação de todos e das relações, realizada por Cristo.

A primeira função social da virtude da penitência é a da reparação. Por reparação não se entende a satisfação de um qualquer ressentimento originado na pessoa ofendida, humana ou até divina, devido aos nossos comportamentos. A reparação é antes a correcção do dano provocado, a devolução ao ofendido, tanto quanto possível, daquilo que era seu e lhe pertence; sejam bens materiais, espirituais, ou relacionais; ou até o reflexo da sua dignidade. Tem uma função médica terapêutica da saúde espiritual e relacional. A expiação dos pecados já não é aplacação da ira divina, ou satisfação de um qualquer pretenso direito de vingança, mas restabelecimento da relação de harmonia e confiança.

Uma segunda função social da virtude da penitência é a da regeneração. Esta significa a renovação até à raiz da condição do agente que praticou algum mal ou ofensa. Se a dignidade humana é indestrutível, e como tal não diminui pelos actos praticados ou sofridos por alguém, todavia ela pode ser ofuscada ou agredida. Se a reparação se orienta para o sujeito ofendido, a regeneração ordena-se ao sujeito ofensor: renova-o e ressalta a sua condição de sujeito amável, a quem se dá o necessário para um recomeço. Tem uma função médica regenerativa e de reabilitação.

A terceira função social da virtude da penitência é a da prevenção. A pena cristã não é a fria aplicação de um qualquer código penal. Tem sempre uma função medicinal: além de terapêutica e regenerativa ou de reabilitação, é também profilática: fortalece o sujeito para se prevenir e evitar cair em situação de reincidência no pecado. Mesmo que recaia, o cultivo habitual da penitência permite que a queda possa não ser tão profunda e favorece o recomeço mais decidido e pronto.

Que este tempo da Quaresma que agora começamos não seja apenas o período da renúncia cíclica a isto ou àquilo. Seja antes um tempo favorável de renovação da mente, do coração e do olhar para uma verdadeira conversão de vida, pessoal e social. E um tempo de redescoberta da penitência como virtude, ferramenta para uma vida nova continuada, a cultivar mais atentamente nestes dias e a prolongar ao longo de todo o ano.

D. José Pereira