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Catequese quaresmal – VII – A Liberdade redentora da cruz de Cristo e o Domingo

CATEQUESES QUARESMAIS

“RENOVAI-VOS E REVESTI-VOS DO HOMEM NOVO

Neste sétimo passo do itinerário quaresmal que propus fazermos juntos, à luz da exortação bíblica “Renovai-vos e revesti-vos do homem novo”, quero meditar sobreA Liberdade redentora da cruz de Cristo e o Domingo”. Escutemos o que Deus nos diz por meio de São Paulo nassuas duas cartas aos Coríntios:

«A linguagem da cruz é loucura para aqueles que estão no caminho da perdição, mas é poder de Deus para aqueles que seguem o caminho da salvação, isto é, para nós. Na verdade, assim está escrito: Hei-de arruinar a sabedoria dos sábios e frustrar a inteligência dos inteligentes. Onde está o sábio? Onde está o homem culto? Onde está o que discute sobre as coisas deste mundo? Porventura Deus não tornou louca a sabedoria do mundo? Uma vez que o mundo, por meio da sua sabedoria, não reconheceu a Deus na sabedoria divina, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da mensagem que pregamos. Os judeus pedem milagres e os gregos procuram a sabedoria. Quanto a nós, pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios. Mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus. A loucura de Deus é mais sábia do que o homem e a fraqueza de Deus é mais forte do que o homem».

I Cor 1, 18-25

«Quando fui ter convosco, irmãos, não me apresentei com sublimidade de linguagem ou de sabedoria a anunciar-vos o mistério de Deus. Pensei que, entre vós, não devia saber nada senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado. Apresentei-me diante de vós cheio de fraqueza e de temor e a tremer deveras. A minha palavra e a minha pregação não se basearam na linguagem convincente da sabedoria humana, mas na poderosa manifestação do Espírito Santo, para que a vossa fé não se fundasse na sabedoria humana, mas no poder de Deus.»

I Cor 2, 1-5

Quando ouvimos entre os nosso contemporâneos, muitas vezes mesmo entre os nossos irmãos que partilham a mesma fé em Cristo e participam das nossas comunidades, referências à dificuldade em lidar com a pregação sobre a cruz, vemos que tal dificuldade vem desde a primeira geração cristã. Tanto para quem escuta, que tende a considerá-la «escândalo» ou «loucura», como até para quem prega que, ainda que acreditando ser sustentado «na poderosa manifestação do Espírito Santo», não deixa de se apresentar «cheio de fraqueza e de temor e a tremer deveras».

Julgo que quase todos possamos compreender esta dificuldade: o sofrimento e a morte surgem naturalmente associados à dor, geram aversão e repulsa, emergem como absurdo diante do apelo irresistível à felicidade e à vida. Absurdo ainda maior quando olhamos para a morte de Jesus e somos levado a perguntar-nos porquê a impotência de Deus, ou a inação de quem poderia fazer diferente mas deixa acontecer assim.

Mas é mesmo esse absurdo que a cruz de Cristo nos oferece? Ou será que teremos de aprender a ver com outros olhos? As primeiras gerações de cristãos sentiram necessidade de acrescentar às imagens da cruz de Cristo o resplendor que a envolve, para que sobressaísse que a cruz era a hora da vitória e da glorificação de Jesus e não da derrota e do absurdo. E nós, como olhamos nós para a cruz?

Muitas vezes, talvez olhemos a cruz como o sofrimento, a dor, o suplício que não se pode evitar, que nos atormenta e rouba a vida. Como uma espécie de desgraça a que fomos condenados sem culpa. Mas isso era a cruz romana, não é a cruz de Jesus.

Se Jesus não fugiu da cruz romana, também não se resignou a aguentá-la; antes a abraçou para a destruir e a transformar noutra realidade: «Por isso o Pai Me ama: porque dou a minha vida, para poder retomá-la. Ninguém Ma tira, sou Eu que a dou espontaneamente. Tenho o poder de a dar e de a retomar: foi este o mandamento que recebi de meu Pai» (Jo 10, 17-18).

Muitas vezes olhamos ainda para a cruz como os sacrifícios da vida, as dificuldades, as contrariedades, os desencontros relacionais, as perdas, as desilusões, a que nos submetemos resignados ou que carregamos amargurados. Mas isso era a cruz pré-cristã, não é a cruz que Jesus nos dá.

Jesus exorta-nos a oferecer-Lhe essa cruz pré-cristã no horizonte do abandono de nós próprios a um caminho de seguimento, para a transformar de uma realidade de perda numa realidade de salvação: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida, tem de perdê-la; mas quem perder a vida por minha causa salvá-la-á» (Lc 9, 23b-24).

Então o que é a cruz de Jesus? Como ouvimos, ela é Jesus a antecipar-se no dom da sua vida em favor de todos, inclusive daqueles que Lha querem tirar: «Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância. […] dou a minha vida […] Ninguém Ma tira, sou Eu que a dou espontaneamente» (cf. Jo 10, 10b.17-18).

A cruz de Jesus é a vitória do amor sobre a rejeição e a morte: «Vai chegar a hora – e já chegou – em que sereis dispersos, cada um para seu lado, e Me deixareis só; mas Eu não estou só, porque o Pai está comigo. Digo-vos isto, para que em Mim tenhais a paz. No mundo sofrereis tribulações. Mas tende confiança: Eu venci o mundo» (Jo 16, 32-33).

A cruz de Jesus é o sinal maior do amor incondicional de Deus e da comunicação da sua alegria: «Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor. […] Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa. […] Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos»
(Jo 15, 9.11.13).

Como podemos constatar, Jesus apresenta a sua cruz sempre pela positiva: o dom voluntário da vida em abundância; o lugar da companhia inseparável do Pai; a vitória realizada; a comunicação da alegria completa; o maior sinal do amor. Ela é a vitória que nada pode destruir, a união de amor que ninguém pode separar, como testemunha a palavra de Deus por meio de São Paulo:

«Irmãos: Se Deus está por nós, quem estará contra nós? Deus, que não poupou o seu próprio Filho, mas O entregou à morte por todos nós, como não havia de nos dar, com Ele, todas as coisas? Quem acusará os eleitos de Deus, se Deus os justifica? E quem os condenará, se Cristo Jesus morreu e, mais ainda, ressuscitou, está à direita de Deus e intercede por nós? Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo ou a espada? Assim está escrito: Por tua causa somos sujeitos à morte o dia inteiro; somos tomados como ovelhas para o matadouro. Mas em tudo isto somos vencedores, graças Àquele que nos amou. Na verdade, eu estou certo de que nem a morte nem a vida, nem os Anjos nem os Principados, nem o presente nem o futuro, nem as Potestades nem a altura nem a profundidade nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que se manifestou em Cristo Jesus, nosso Senhor» .

(Rom 8, 31b-39)

Deixai-me dizê-lo de novo: nem a tribulação, nem a angústia, nem a perseguição, nem a fome, nem a indigência, nem a guerra, nem a morte, nem o futuro, nem os poderes deste mundo, nem os do mundo sobrenatural, nada, nada, nada nos pode vencer e separar do amor de Deus que se manifestou na cruz de Jesus, nosso Senhor.

Reparemos bem como São Paulo precisa sem hesitações: a ressurreição e a presença de Jesus à direita de Deus sãoainda mais garantia da sua intercessão por nós; mas a evidência e a certeza seguras de que Deus está por nós e nos dará, com Cristo, todas as coisas é a entrega de Jesus na cruz. Por isso ela é o sinal identificativo dos cristãos, e do tesouro de que são portadores para o mundo.

Quando algumas recentes expressões artísticas preferem apresentar a cruz sem o Crucificado, ou o Ressuscitado sem qualquer sinal da cruz, procuram aliviar o que, no entender de muitos, é uma forma pesada e mórbida de propor a vida cristã. Mas correm o sério risco de a esvaziar: crucifixão e ressurreição são duas dimensões inseparáveis da mesma realidade da Páscoa. A cruz sem Cristo é suplício; Cristo sem cruz é fantasia.

As mais antigas e significativas representações do Ressuscitado não aliviavam a força da cruz: esta aparecia na mão (normalmente a esquerda) do Vivo que se erguia da morte (por vezes na de um dos Anjos, ou sob os pés de Jesus); as marcas dos cravos surgiam visíveis nas mãos, pés e lado; e o túmulo era também muito comum.

De igual modo, à cruz com o Crucificado foram-se juntando o esplendor de prata ou ouro (ou madeira dourada); e flores nas extremidades. E, de modo mais denso, surgiu a celebração da exaltação da Santa Cruz. Sempre sinalizando que a vida renasce da morte e a ressurreição brota da cruz, como Jesus ensinara na imagem do grão de trigo lançado à terra: se não morrer fica só, mas se morrer dá muito fruto (cf. Jo 12, 24).

Aliás, ouçamos como Jesus apresentou a cruz como a sua hora, a hora para a qual veio, a hora da sua glorificação:

«Chegou a hora em que o Filho do homem vai ser glorificado. Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á, e quem despreza a sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna. […] Agora a minha alma está perturbada. E que hei de dizer? Pai, salva-Me desta hora? Mas por causa disto é que Eu cheguei a esta hora. Pai, glorifica o teu nome. Veio então do Céu uma voz que dizia: Já O glorifiquei e tornarei a glorificá-Lo”. […] Disse Jesus: Não foi por minha causa que esta voz se fez ouvir; foi por vossa causa. Chegou a hora em que este mundo vai ser julgado. Chegou a hora em que vai ser expulso o príncipe deste mundo. E quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a Mim. Falava deste modo, para indicar de que morte ia morrer»

(Jo 12, 23-25.27-28.30-33).

Sim, a cruz é a manifestação da Glória de Jesus: na hora em que todos se retirariam ou fugiriam, Jesus permanece e vence. Na hora em que nós sucumbiríamos em angústia e solidão, Jesus reúne-nos em Si, grita a nossa angústia ecoando a sua confiança inabalável no Pai ao rezar o salmo na cruz: «meu Deus, meu Deus porque Me abandonaste? […] Sois a minha força, apressai-Vos a socorrer-me. […] Hei de falar do vosso nome aos meus irmãos, hei de louvar-Vos no meio da assembleia» (Sal 21(22), 2a.20b.23).

Voltemos ao texto que abriu esta nossa catequese. A cruz de Cristo é escândalo ou poder? É loucura ou sabedoria? Podemos responder deste modo: é a sabedoria do amor louco de Deus pela humanidade, porque ultrapassa todos os limites razoáveis e continua a amar; é o poder do amor escandaloso de Deus pela humanidade, porque vence a morte dando a vida, por amor a quem O rejeita e mata.

Há aqui uma liberdade do amor que não pode ser detida. É este amor assim que é mais forte do que a morte e nada o pode apagar: nem as águas caudalosas ou as torrentes impetuosas (cf. Cânt 8, 6-7); nem a dor e o sofrimento, a angústia e o medo, a doença e a morte. E deste amor, é-nos dado participar, não apenas como beneficiários mas como agentes: «é este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei» (Jo 15, 12).

A partir da cruz de Cristo, podemos então abraçar a nossa cruz em cada dia porque ela é o caminho que nos liberta de todos os obstáculos para amar, ela é a vitória sobre o medo de sofrer, ela é a superação do desamor e das suas consequências.

Ela é a pérola única diante da qual tudo o mais tem pouco valor (cf. Mt 13, 45-46). Ela é aquela que não pode faltar mesmo que tudo o mais falte. Por isso os cristãos desde as primeiras gerações, arriscando a própria vida, não faltavam à assembleia dominical. Não se tratava de cumprir um preceito. Respondendo ao mandato de Cristo – «fazei isto em memória de Mim» – alimentavam-se sacramentalmente da cruz do Senhor.

Escutemo-los por meio dos bispos portugueses numa Nota pastoral de 11/abri/2024:

«Sine dominico non possumus!» Sem o Domingo do Senhor, sem o Dia do Senhor não podemos viver: assim responderam no ano 304 alguns cristãos de Abitínia, atual Tunísia, quando surpreendidos na celebração eucarística dominical, que estava proibida. Eles foram conduzidos ante o juiz, que lhes perguntou por que, no Domingo, haviam celebrado a função religiosa cristã, sabendo que isso implicava castigo de morte».

Para os cristãos, a celebração semanal da cruz e ressurreição de Jesus, ao domingo, não é facultativa. Pelo contrário, ela é mesmo determinante para a construção da comunidade cristã. Como ouvíamos há pouco, é na assembleia dominical, “no meio da assembleia”, que o Senhor revela a vitória do amor confiante da cruz. Ouçamos de novo os bispos na mesma Nota pastoral:

«Não há Paróquia sem Domingo nem Domingo sem Paróquia. A liturgia é o lugar do encontro com Jesus Cristo. De facto: não nos basta ter uma vaga recordação da última Ceia: nós precisamos de estar presentes nessa Ceia, de poder ouvir a sua voz, de comer o seu Corpo e beber o seu Sangue: precisamos d’Ele. Na Eucaristia e em todos os sacramentos é-nos garantida a possibilidade de encontrar o Senhor Jesus e de ser alcançados pela potência da sua Páscoa (Desiderio desideravi 11).É verdade que a Igreja faz a Eucaristia e a Eucaristia faz a Igreja, segundo o dinamismo pascal».

Deixai-me ressaltar duas afirmações. Em primeiro lugar, nós precisamos de estar presentes na celebração que traz até ao nosso hoje a ceia de Jesus que antecipou a cruz. Essa ceia que nos permite ouvir a sua voz, comer do seu Corpo e beber do seu Sangue, e ser alcançados pela potência da sua Páscoa. Sem ela, ficamos apenas por uma ideia vaga da cruz e ressurreição de Jesus, uma vaga participação na vida de Jesus.

Em segundo lugar, sem celebração do domingo não há comunidade cristã paroquial, e sem assembleia dominical paroquial não há vivência do domingo.

Poderá algum imprevisto impedir-nos de participar na assembleia eucarística dominical: então procuraremosmeios para marcar, de algum modo, o domingo: a meditação mais cuidada da Palavra de Deus nesse dia, a visita ao sacrário nalguma hora desse dia, algum serviço à Igreja nesse dia, algum gesto mais atento de cuidado ao próximo nesse dia, alguma decisão para marcar a vivência da semana a partir desse dia.

Nos tempos actuais, poderá também existir algum impedimento previsível: turnos de trabalho ao domingo, visita de familiares que já não participam da assembleia dominical, ou outro. Poderá também existir alguma dificuldade antecipável: inexistência de celebração dominical na minha terra, dificuldade de transporte até à assembleia dominical mais próxima. Como nos organizamos para não ficar sem o domingo?

Ainda que vá à missa durante a semana, isso não alimenta a necessidade do domingo. Ainda que haja missa dominical na terra quinzenal ou mensalmente, isso não alimenta a necessidade semanal de celebrar o domingo na comunidade cristã. Por isso, onde não houver eucaristia dominical, deverá haver assembleia dominical de louvor, acção de graças, súplicas e escuta orante da Palavra de Deus.

Mas quando até isso já não se consegue garantir? Então há que reconfigurar a comunidade cristã para que não lhe falte a assembleia dominical, com a celebração semanal da cruz e ressurreição de Jesus. Esse há-de continuar a ser o critério a presidir, sendo a assembleia dominical sem missa a condição mínima para existir comunidade.

Nesta hora da nossa Diocese, temos de olhar com determinação para esta realidade. Podemos correr o risco de querer manter eucaristias dominicais que já não são capazes de reunir uma assembleia, construir uma comunidade, formar um corpo com membros de diferentes gerações, constituir uma casa que acolhe, enviar discípulosem missão.

Estas pessoas e lugares precisam de não ser abandonados e continuar a ter assistência espiritual e presença do pároco, que os visite com regularidade durante a semana. E de outros agentes pastorais que animem a celebração do domingo. Sobretudo os mais frágeis que já não se conseguem deslocar.

Mas aqueles que ainda o podem fazer, precisam de ser reencaminhados para assembleias eucarísticas dominicais que alimentem neles a pertença comunitária a uma paróquia, comunidade inter-geracional de famílias e grupos, de vocações e serviços, de configuração cristã e crescimento espiritual, de participação e envio missionário. Não não há paróquia sem domingo e o coração do domingo é a celebração eucarística da cruz e ressurreição de Jesus.

Ao terminar estas catequeses, entremos na Semana Maior do nosso ano e caminhemos para a Páscoa, com Jesus, deixando-nos renovar e revestir do homem novo.

+ José Pereira, Bispo da Guarda