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Catequese quaresmal – II – Natureza criada, caída e redimida pela Graça

Domingo I da Quaresma

CATEQUESES QUARESMAIS

“RENOVAI-VOS E REVESTI-VOS DO HOMEM NOVO”

II

Natureza criada, caída e redimida pela Graça

Neste segundo passo do itinerário quaresmal que propus fazermos juntos, à luz da exortação bíblica “Renovai-vos e revesti-vos do homem novo”, quero meditar sobre a Natureza criada, caída e redimida pela Graça”. Escutemos o que nos diz a palavra de Deus, no livro do Genesis:

«Disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, sobre os animais selvagens e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus. Ele o criou homem e mulher» (Gn 1, 26a.27).

«Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra, insuflou nele um sopro de vida e o homem tornou-se um ser vivo. […] O Senhor Deus fez nascer da terra toda a espécie de árvores, de frutos agradáveis à vista e bons para comer, entre as quais a árvore da vida, no meio do jardim, e a árvore da ciência do bem e do mal. […] O Senhor Deus tomou o homem e colocou-o no jardim do Éden, para o cultivar e guardar. O Senhor Deus deu ao homem este mandamento: Podes comer fruto de todas as árvores do jardim, mas não comerás da árvore da ciência do bem e do mal, porque, no dia em que dela comeres, terás de morrer» (Gn 2, 7.9.15-17).

E também, na primeira carta de São João:

«Caríssimos, agora somos filhos de Deus e ainda não se vê o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando Jesus Se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque O veremos tal como Ele é» (I Jo 3, 2).

Reparemos nestas revelações de Deus que nos dão importantes indicações acerca do que é o ser humano. O esquecimento delas é, tantas vezes, causa de ilusões e consequentes frustrações, ansiedades, medos, negações, entre outras.

Do que escutámos, podemos ver que o ser humano não é fruto do acaso mas uma decisão operativa de Deus. O contexto da narrativa aqui apresentada, não tendo um objectivo estritamente histórico, indica-nos que o ser humano surge integrado no processo de criação e formação do Universo, na conjugação de um enorme conjunto de realizações anteriores que conduziram ao seu surgimento. Mas indica também que há uma acção directa de Deus e não apenas um desenvolvimento mecânico das leis do universo.

Na indicação da palavra de Deus, o ser humano, este ser natural formado a partir do “pó da terra”, isto é da matéria e de tudo o que lhe é conexo (energia, dimensão, contingência, reacção/transformação), é também um ser que recebe animação vital através de um “sopro” divino. Nele, a vida não é apenas a complexificação dos processos inerentes à formação e evolução do “pó da terra”, mas também a intervenção directa do Espírito (sopro) divino que inaugura uma criatura única: a imagem de Deus na criação.

Esta afirmação é de fundamental importância, sobretudo num tempo onde a antropomorfização dos animais, especialmente os de estimação com os quais estabelecemos relações de afecto, e a transhumanização cibernética defendida por correntes de pensamento a partir da aplicação da Inteligência Artificial à biotecnologia e à robótica, pode enfraquecer a compreensão da condição única do ser humano na realidade da criação: ele é a imagem de Deus entre as criaturas, pois é uma unidade vital de matéria natural e espírito sobrenatural.

A dimensão sobrenatural do ser humano manifesta-se nas suas dimensões espirituais únicas face a todos os demais seres terrenos: desde logo na dimensão intelectiva. Se também outros seres vivos podem como que “aprender” e adaptar comportamentos a partir da experiência vivida, só o ser humano é sapiens sapiens, isto é, só ele tem uma consciência reflexiva sobre o conhecimento adquirido, e só ele é capaz de autoconsciência e de comunicação da mesma.

Manifesta-se também na dimensão volitiva. Se também outros seres vivos podem mover-se a partir de carências experimentadas e impulsos (a que chamamos instintos), só o ser humano é capaz de determinar livremente a sua acção a partir de processos reflexivos de decisão. Se outros seres podem, por vezes, contrariar um instinto, fazem-no sempre por sujeição a outro que se lhe sobrepõe: o instinto maternal sobre o instinto de sobrevivência; ou o instinto de defesa da fonte de segurança ou prazer sobre o instinto de sobrevivência. Só o ser humano é capaz de mover-se por reflexão decidida e livre face a impulsos.

Manifesta-se ainda na dimensão amorosa. Se também outros seres vivos podem estabelecer interacções que promovem uma conexão crescente em resposta a experiências que os afectem positivamente, só o ser humano é capaz de construir relações conscientemente decididas, gratuitas, e até superando a indiferença ou a ameaça. O mandato divino de amar os inimigos, fazer bem aos perseguidores, perdoar sempre é exclusivamente dirigido ao ser humano porque precisamente aprofunda a sua humanização.

Nesta dimensão amorosa ressalta ainda a relação esponsal, nas dimensões unitiva e geradora, que perpetuam de forma excelente a fecundidade criadora original, como relação de amor oblativo, perenemente comprometido, e frutífero ad intra e ad extra. E não apenas como relação destinada àmanutenção da espécie, à fruição mútua aprazível ou àautorrealização do casal.

Manifesta-se finalmente na dimensão transcendente. Partilhando com todos os demais seres vivos a sujeição ao limite espácio-temporal, o ser humano vive experiências interiores e profundas que o parecem transcender, que lhe permitem reflectir sobre elas e projectar-se espiritualmente, seja no pensamento, seja na criação estético/artística, seja na realização social, seja na dimensão crente, para além da sua circunstância.

Conhecendo-lhe a origem sobrenatural (como os crentes) ou apenas as suas manifestações, é possível à razão humana reconhecer que esta dimensão espiritual é anterior às suas realizações e condição de possibilidade das mesmas. De igual modo, é capaz de reconhecer que esta dimensão espiritual é própria a todos os seres humanos, não como uma realidade colectiva indiferenciada, mas como realidade individualizada e intransmissível, embora comum a todos. Por isso cada ser humano é incomparávelentre todos os seres vivos naturais, e único e inviolável entre todos os seus semelhantes.

Nesta unicidade e inviolabilidade radicam a dignidade humana e a responsabilidade sobre a criação, casa comum de todos os seres naturais. A condição espiritual únicapresente em todos, e que os crentes reconhecem como imagem de Deus, é a raiz da dignidade humana, a qual não diminui pelo modo como cada um vive, nem com os actos praticados, nem com a debilidade da condição congénita, crónica ou terminal da matéria que também nos constitui. Ela é também a condição que permite ao ser humano a responsabilidade por dominar a criação à imagem de Deus, isto é, como zelador e cuidador, e não como manipulador arbitrário.

Aqui chegados vale a pena interrogarmo-nos: como andamos a cuidar da nossa dimensão espiritual? É ela essencial no nosso modo de viver? Cuidamos dela para não deixar apagar-se aquilo que renova a nossa especificidade humana? Promovemo-la em unidade com a dimensão material e com tanto ou mais cuidado como o fazemos em relação à saúde e bem estar do corpo?

Voltemos aos textos bíblicos: além de “à sua imagem”, a intenção manifestada por Deus é a de criar o ser humano também “à sua semelhança”. Mas se essa é a intenção anunciada – «façamos o homem à nossa imagem e semelhança» –, parece não ter sido a acção imediatamente realizada: «Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus».

Como ouvíamos antes, precisamos de escutar São João: «agora somos filhos de Deus e ainda não se vê o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando Jesus Se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque O veremos tal como Ele é». Agora é claro: a semelhança pertence ao plano original de Deus, mas não como ponto de partida, antes com realidade final. Fomos criados à imagem de Deus, para crescermos até à sua semelhança.

Essa semelhança acontecerá quando virmos a Deus, na manifestação gloriosa de seu Filho Jesus. Entretanto, a Encarnação do Filho em Jesus de Nazaré tornou-se a etapa decisiva desse caminho de assemelhação: como filhos de Deus, em relação de aliança com o Filho único de Deus, vamos crescendo até à semelhança com Deus. Caminhar para ela, construirmo-nos assim é o sentido da nossa existência criada.

Como cuidamos desse caminho? Qual é, na prática, o sentido da vida que consome o melhor das nossa atenções e forças? Tornarmo-nos semelhantes a Cristo ou alcançar outros objectivos? Não num gesto avulso, mas nos mesmos sentimentos, nas mesmas atitudes, na mesma humanidade de Cristo Jesus (cf. Fil 2, 5)

Esse caminho está ao nosso alcance. Mas não o está percorrê-lo sozinho. Logo no início da criação foi-nos revelado que discernir o bem do mal nesse itinerário não é processo em que sejamos autossuficientes. No dia em que o tentássemos feriríamos de morte o caminho do nosso viver: «Podes comer fruto de todas as árvores do jardim, mas não comerás da árvore da ciência do bem e do mal, porque, no dia em que dela comeres, terás de morrer».

Como o olho se aproxima da luz para ver, sem com isso achar que a sujeição à luz o diminui, assim também a nossa autonomia cresce com a adesão à vontade divina, fonte do Bem e do discernimento. Há uma aliança entre a nossa natureza e a luz divina para que a obra criadora de Deus cresça com a nossa participação, até alcançar a plenitude para a qual foi sonhada.

Já superámos a ilusão adolescente de nos julgarmos fonte e garante do conhecimento do bem para nós e para o mundo? Já nos deixámos convencer de que Deus é sempre bom, fonte de todo o Bem, e só com Ele o podemos abraçar?

Criados à imagem de Deus, numa unidade matéria/espírito, a caminho da sua semelhança, em aliança com Ele, sob o primado da luz e da vontade divinas: se este é o sonho criador que Deus pôs em marcha, por que razão não é isso que vemos acontecer? Voltemos a escutar a palavra de Deus:

«A serpente replicou à mulher: «De maneira nenhuma! Não morrereis. Mas Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como deuses, ficando a conhecer o bem e o mal. A mulher viu então que o fruto da árvore era bom para comer e agradável à vista, e precioso para esclarecer a inteligência. Colheu fruto da árvore e comeu; depois deu-o ao marido, que comeu juntamente com ela. Abriram-se então os seus olhos e compreenderam que estavam despidos.[…] O Senhor Deus chamou Adão e disse-lhe: Onde estás?» Ele respondeu: «Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me» (Gn 3, 4-7a. 9).

Assim que toma consciência de si, a inteligência ordenada para o bem deixa-se seduzir pela astúcia e pretende ser como Deus, prescindindo d’Ele e tomando o seu lugar como fonte e garante do bem. Este acto introduz uma ruptura da qual o ser humano não mais é capaz de se libertar: pela primeira vez sem Deus, o ser humano descobre-se vulnerável, impotente, à mercê de todas as ameaças, incapaz de se bastar a si mesmo: «compreenderam que estavam despidos».

Simultaneamente, descobrem surgir no coração sentimentos que desconheciam e dos quais não são capazes de se libertar: culpa, vergonha, distanciamento, suspeição: «como estava nu, tive medo».

Esta ruptura é tal e rompe de tal modo a harmonia criada por Deus, que o texto bíblico (cuja continuidade não escutámos) descreve a desordem por ela provocada: negações, acusações, inimizades, dores, dominações, esforços, dificuldades, vazio, ciúme, violência, morte.

Diante desta realidade disruptiva, incapaz de voltar com confiança à presença de Deus – «tive medo e escondi-me»– o único caminho que resta ao ser humano é a fuga para a frente, fechando-se na ilusão da sedução astuciosa e procurando ser o deus de si próprio.

O conhecimento que a razão ainda alcança torna-se a o motor do seu viver; o medo e a desconfiança de Deus diante da experiência do limite e do desconhecido tornam-se a situação habitual; o primado do material sobre o espiritual e a dificuldade em se guiar pelo sobrenatural passam a ser o normal; a inclinação para a autorrealizaçãoe o esfriamento face à busca da semelhança com Deus torna-se a atitude comum.

Esta marca permanente que descobrimos apegada à natureza humana, de tal modo que se transmite por gerações e gerações e da qual ninguém é capaz de se libertar por si mesmo, é o que chamamos de pecado original. Não pertence a sonho criador original de Deus, mas foi introduzido pelo ser humano assim que teve capacidade de consciência de si e de decisão.

Originou uma condição decaída da nossa natureza humana existencial, e é responsável por fugirmos tantas vezes do sonho criador que Deus pôs em marcha. Temos consciência desta realidade no nosso dia a dia? Assumimos que só pelas nossas opções e forças permaneceremos encerrados neste horizonte vicioso?

Mas vale a pena perguntar: mas se tem sido assim desde que o ser humano existe, ainda há saída para esta situação? Voltemos a escutar a palavra de Deus:

«Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. As coisas antigas passaram; tudo foi renovado. Tudo isto vem de Deus, que por Cristo nos reconciliou consigo […] A Cristo, que não conhecera o pecado, Deus identificou-O com o pecado por causa de nós, para que em Cristo nos tornemos justiça de Deus»

(II Cor 5, 17-18a. 21).

Paremos. Escutemos. E louvemos. Reparemos: o que nenhum ser humano era capaz de realizar, fê-lo Jesus Cristo, o único Homem que o poderia fazer. Unindo em si, de modo pleno, sem confusão nem separação, o ser humano e Deus (porque é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem), superou tudo o que era marca do pecado na humanidade (como acima identificámos) e que nos prendia nesta separação de Deus.

Sem nunca ter praticado o pecado, atraiu sobre si todas as consequências do pecado: primeiro, ao assumir a nossa natureza limitada, no mistério da Encarnação; e depois, ao sujeitar-se aos nossos actos de rejeição e à inerenteconsequência da paixão e morte, no mistério da Redenção. Fazendo-o, não fugiu da vontade divina (que por ser divina também era sua) em salvar-nos. Permanecendo, levou de novo o ser humano à presença de Deus, destruindo o medo, a desconfiança, a soberba, a fuga, a separação. Dando a vida ao Pai, retomou-a renovada do Pai.

Mas alguém poderia dizer: está bem. Jesus fê-lo em nosso nome e como um de nós. Mas era Ele. Algum de nós pode voltar à presença de Deus sem medo?

Sim, pode. Porque Jesus fê-lo não para ser o único mas para ser o caminho por quem vamos ao Pai. Fê-lo como um novo acto criador de Deus: «as coisas antigas passaram, tudo foi renovado». Fê-lo como libertador e salvador: «para que em Cristo nos tornemos justiça de Deus». Unir-se a Ele, permanecer n’Ele, viver por Ele é agora a nossa nova possibilidade: «Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. […] Tudo isto vem de Deus, que por Cristo nos reconciliou consigo».

Mas então, se tudo foi renovado, porque continuamos a experimentar em nós as marcas e inclinações do pecado, a praticar pecados, a não aderir ao sonho criador que Deus pôs em marcha?

Porque Deus reparou as consequências nefastas do pecado, mas não anulou a nossa condição humana. Capacitou-nos de forma incomensuravelmente superior à nossa condição original, já não apenas como criaturas, mas como filhos de Deus e amigos de Cristo a quem foi dado a conhecer tudo o que Ele ouviu de seu Pai.

Mas não anulou a nossa condição humana: continuamos a ter de decidir se nos deixamos seduzir pela astúcia ou se pela vontade divina; se queremos ser a fonte do discernimento e do Bem, ou se nos guiamos pela sua luz;se damos o primado ao terreno ou ao sobrenatural; se seguimos a inclinação para o pecado que mantêm em nós as marcas ou o apelo da Graça que nos foi dada em Jesus Cristo.

O que se alterou é que agora, podemos em Cristo não cair; e se cairmos, podemos n’Ele levantarmo-nos. Podemos conhecer o rosto de Deus em Cristo e aprender a  
contemplá-l’O. Podemos voltar a crescer como imagem de Deus até à sua semelhança. Podemos à luz da Graça que é Cristo na sua Redenção, melhor reconhecer os pecados e os caminhos para os evitar e superar. É o que meditaremos nas próximas catequeses.

+ José Pereira, Bispo da Guarda