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Homilia Episcopal: Vigília Pascal – 04 de abril de 2026

«Disse Deus: «Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. (…) Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus. Ele o criou homem e mulher».

«Fomos sepultados com Ele pelo Batismo na sua morte, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova. […] Bem sabemos que o nosso homem velho foi crucificado com Cristo, para que fosse destruído o corpo do pecado e não mais fôssemos escravos dele. […] Se morremos com Cristo, acreditamos que também com Ele viveremos, […]. Assim vós também, considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus, em Cristo Jesus».

Como acabámos de escutar neste abundante banquete da Palavra do Senhor, recordamos hoje a primeira criação no início dos tempos e celebramos a nova criação, realizada na Páscoa de Cristo. Vale a pena meditarmos na relação existente entre ambas.

Reparemos bem. Jesus tem uma intenção: criar o ser humano à sua imagem e semelhança. E tem uma acção original: criar o ser humano à sua imagem, enquanto homem e mulher. Pela diferença entre a intenção e a acção originais de Deus, podemos entrever que a criação não saiu completa e estática das mãos de Deus, antes dinâmica e em processo, até à finalidade intencional.

Ou seja: homem e mulher, na sua igual e complementar condição original de imagem de Deus, são criados para que, na relação entre si e com a demais criação, prossigam até alcançar a finalidade com que foram criados: serem imagem e semelhança de Deus.

Isso diz-nos claramente a palavra divina, depois da ressurreição de Jesus, por meio da 1º carta de São João: «Caríssimos, agora somos filhos de Deus e ainda não se vê o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando Jesus Se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque O veremos tal como Ele é» (I Jo 3, 2).

A semelhança foi-nos proposta como a imagem na sua expressão completa, no final do processo que a primeira criação inaugurou.

Mas, durante o mesmo, o ser humano introduziu o pecado que desfigurou a imagem, quebrou a relação de proximidade com Deus necessária para prosseguir o processo inaugurado, e impediu a evolução da imagem até à semelhança pensada desde a origem.

Diante te tal situação, Deus não desiste da intenção original. Deus olha para o ser humano e continua a reconhecer nele a sua imagem. Desfigurada, sim, mas intacta. A imagem é obra de Deus, foi por ele indestrutivelmente impressa no ser humano. Não desaparece com as nossas obras, ainda que elas a possam ofuscar.

Por isso, Deus empenha-se, de modo até então inimaginável, em reavivá-la. Ele próprio, na pessoa de seu Filho, assumiu a nossa condição, submeteu-se às consequências do pecado, sujeitou-se à morte, destruiu a nossa escravidão do pecado e ressuscitou dos mortos para que tenhamos uma vida nova.

O que é então esta imagem de Deus que trazemos em nós, que permanece intacta ainda que obscurecida, e que pela qual Jesus morre e ressuscita?

É o fruto da intervenção directa de Deus, pelo sopro divino com que Ele infunde em cada ser humano aquilo a que chamamos de alma humana ou principio vital, que nos distingue de todas as outras criaturas. É a dimensão sobrenatural coexistente em nós com a nossa dimensão biopsicossocial.

A dimensão sobrenatural que nos constitui como imagem de Deus manifesta-se nestas dimensões espirituais únicas face a todos os demais seres terrenos:

A dimensão intelectiva associada à consciência reflexiva; a autoconsciência e comunicação da mesma; a vontade livre por meio de processos reflexivos de decisão; o amor que se eleva acima do impulso: decidido, gratuito e capaz de amar os inimigos, fazer bem aos perseguidores, perdoar sempre; a esponsalidade oblativa, fiel e indissolúvel, mais forte do que a traição e a morte; a vida interior; e a transcendência espiritual.

Tal dimensão sobrenatural mostra-se anterior e condição de possibilidade de realização das agora referidas expressões espirituais.

Ora, esta condição natural e sobrenatural, inexistente em nenhuma outra criatura terrena, é comum a todos os seres humanos. Mas é igualmente individualizada e intransmissível. É universal e não depende da fé que se tenha ou não, ainda que nós conheçamos a sua origem divina, e por isso a reconheçamos como imagem de Deus.

Assim, ela reflecte e sustenta a condição única e inviolável de cada um e constitui a raiz da dignidade humana. Esta dignidade assenta em algo constitutivo, indestrutível e gravado por Deus em cada um, logo, não diminui pelo modo como cada um vive, nem com os actos praticados, nem com a debilidade da condição congénita, crónica ou terminal da matéria destrutível que também nos constitui.

Esta noite santa proclama ao mundo esta notícia: Deus não deixa destruir definitivamente a humanidade nem nenhum ser humano, mesmo que a violência e a morte atentem contra eles. Deus encontra e abre caminhos novos onde nem sempre parece existirem saídas. Para esta vida terrena e para além da morte.

Como há-de a Páscoa de Jesus inspirar-nos caminhos novos na defesa da dignidade de cada vida humana? Se Deus não desiste de ninguém, como podemos nós desistir de alguém? Como podemos nós habituar-nos à degradação das condições de vida de alguém?

Como podemos ficar indiferentes às mais de 14.000 pessoas em condição de sem abrigo no nosso país? Como é que a celebração da Páscoa nos há-de comprometer a encontrar respostas concretas no cuidado das pessoas nesta situação?

Apesar da taxa considerada baixa (5,8%), como podemos contentar-nos com 347.700 pessoas sem emprego para se sustentar, no nosso país? Como é que a celebração da Páscoa nos há-de comprometer a encontrar respostas concretas no cuidado das pessoas nesta situação?

Como podemos conviver com 27 vítimas de homicídio voluntário e quase 30.000 (29.776) ocorrências participadas às forças de segurança em contexto de violência doméstica, no ano passado no nosso país? Como é que a celebração da Páscoa nos há-de comprometer a encontrar respostas concretas no cuidado das pessoas nesta situação?

Como podemos não fazer nada diante de 17.807 abortos voluntários em 2023 no nosso país? Como é que a celebração da Páscoa nos há-de comprometer a encontrar respostas concretas no cuidado das pessoas nesta situação?

Como podemos habituar-nos a números como 61 guerras em 36 países, com mortos entre os 160.000 e 233.000 (conforme as fontes) em 2024 no mundo? Como é que a celebração da Páscoa nos há-de comprometer a encontrar respostas concretas no cuidado das pessoas nesta situação?

Poderíamos continuar a lista. Mas o que é preciso realçar é que pode ser diferente. A Páscoa de Jesus torna possível e convoca-nos a outros caminhos.

Nas famílias, na escola, na academia, na sociedade, onde estamos inseridos, como é que a certeza do triunfo da vida sobre a morte, já presente e vivo entre nós, nos entusiasma e compromete na procura de outras soluções, diferentes daquelas que o mundo oferece e parecem ser as únicas que ele sabe oferecer?

Jesus venceu a violência e a morte, está vivo, e guia-nos em caminhos de vida. Conta connosco e espera por nós. Como disse o anjo às mulheres, junto ao sepulcro vazio: «ide depressa dizer aos discípulos: ‘Ele ressuscitou dos mortos e vai adiante de vós para a Galileia. Lá O vereis’. Era o que tinha para vos dizer».

+ José Pereira, Bispo da Guarda

Foto: Jornal A GUARDA – Páscoa de 2025