CATEQUESES QUARESMAIS
“RENOVAI-VOS E REVESTI-VOS DO HOMEM NOVO”
III
O mistério do pecado, suas concretizações e consequências
Neste terceiro passo do itinerário quaresmal que propus fazermos juntos, à luz da exortação bíblica “Renovai-vos e revesti-vos do homem novo”, quero meditar sobre “O mistério do pecado, suas concretizações e consequências”. Escutemos o que nos diz Deus, por meio da carta de São Paulo aos Romanos:
«Sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou carnal, vendido como escravo ao pecado. Realmente não consigo entender o que faço; pois não pratico o que quero, mas faço o que detesto. (…) Eu sei que o bem não mora em mim, isto é, na minha came. Pois o querer o bem está ao meu alcance, não porém o praticá-lo. Com efeito, não faço o bem que eu quero, mas pratico o mal que não quero. Ora, se eu faço o que não quero, já não sou eu que estou agindo, e sim o pecado que habita em mim (…). Infeliz de mim! Quem me libertará deste corpo de morte? Graças sejam dadas a Deus, por Jesus Cristo Senhor nosso.»
(Cf. Rom 7, 14-15.18-20.24-25)

A Palavra de Deus fala-nos de uma tensão que experimentamos no íntimo de nós mesmos, uma tensão entre o querer e o agir, entre o apelo mais profundo (a “lei espiritual”) e o impulso mais imediato que tantas vezes acaba por nos mover. A ponto de falar de uma condição de aprisionado ou “vendido como escravo ao pecado”.
Mas o que podemos entender por pecado? Esta é uma realidade que não tem na nossa cultura contemporânea e secularizada um compreensão unânime.
Alguns, marcados por uma leitura mais literalista dos textos bíblicos, consideram o pecado como um poder externo, quase personificado, que nos domina e impõe a sua dinâmica, contra a qual nada podemos fazer. Somos um joguete nas suas mãos e pecar parece ser uma fatalidade. Assim, o melhor é não pensar muito nisso, e ir andando como se pode, procurando fazer algum bem e aceitando as consequências nefastas do que não poder ser evitado.
Outros identificam o pecado com os erros ou imperfeições, mais ou menos intencionais, mais ou menos livres, mas sempre inerentes à condição limitada do nosso conhecimento e capacidade de decisão. Chega-se a considerá-lo decorrente da justificada procura de transgressão de fronteiras e limites em ordem ao desenvolvimento do conhecimento e ao progresso civilizacional. Neste sentido o pecado não só é tolerável mas, esvaziado de qualquer carga negativa, pode em alguns casos ser tido por alguns como procura louvável de superação por tentativa/erro.
Outros vêem o pecado como um obstáculo, teoricamente passível de ser completamente erradicado mas, na prática, sempre presente, que impede que se alcance a santidade de vida e a perfeição social, vistas na óptica da impecabilidade.
Para personalidades com inclinação ao escrúpulo ou ao perfeccionismo, esta visão de pecado pode gerar angústia ou esfriamento espiritual, por não se conseguir lidar com a tensão. Para personalidades com inclinação à rigidez e ao juízo condenatório, esta mesma perspectiva pode gerar acusações e divisões, às vezes mesmo interiores, por não se conseguir superar a indignação face ao pecado, alheio e próprio.
Entre muitas outras noções de pecado, refiro ainda duas: um conjunto de pequenas maldades de criança, que se aprendeu a confessar para a primeira comunhão, mas que não acompanhou o amadurecimento psicoafectivo da personalidade, nem se iluminou com o crescimento espiritual. Tornou-se um fato que deixou de servir e que, aos poucos, deixou de ter um significado existencial, mesmo quando se o confesse pontualmente.
E uma realidade difusa universal de imperfeições que todos têm, que não agradam a Deus, mas que não se conseguem identificar muito bem os seus contornos e causas. Na hora de os confessar é difícil reconhecê-los com nome, tendem a ser sintetizados em uma ou duas falhas que todos têm: “faltas de paciência”, “faltas ou distrações na oração”; e a ser autojustificadas pela falta de tempo, pelos nervos, pela mágoa, pela responsabilidade dos outros.
Então, o que nos ensina a fé e a doutrina cristãs acerca do pecado? Acima de tudo, que são agressões, directas e/ou indirectas, à relação com Deus, vividas com algum grau de intencionalidade e liberdade; e que atentam contra a bondade de Deus e ferem, mais ou menos gravemente, a vida que Ele semeou, seja na pessoa que peca, seja nas vítimas directas ou indirectas, seja na humanidade inteira.
Mas voltemos ao texto paulino. Ele exprime a experiência dramática que todo o ser humano faz, na sua existência, de uma tensão entre o bem e o mal, entre o querer fazer o bem, e muitas vezes escolher ou ver-se envolvido no mal. É aqui que podemos falar do mistério do pecado como uma situação existencial no ser humano.
Estando semeado no seu coração o desejo de infinito, a experiência que ele todavia faz é a da finitude. Estando nele inscrito o movimento de saída de si, de comunicação e entrega ao outro, tende a colocar-se no centro de um redemoinho, onde tudo circule em torno de si e para si convirja. Aspirando a transcender-se em direcção ao absoluto, acaba por reduzir o Absoluto, identificando-O consigo próprio. Desejando viver a liberdade na qual foi criado e para a qual foi chamado, acaba por se escravizar a si e aos outros, nas suas paixões, nos seus sonhos, nos seus esquemas.
Em suma, chamado a ser Homem com Deus, procura ser Deus sem Homem, e acaba por não ser Deus nem Homem. E o mais grave é que com a tal perda do sentido de Deus (por redução do Absoluto ao humano), perde-se também o sentido do pecado.
A este mistério do pecado, São Paulo chama «mistério de iniquidade» (cf. II Tes. 2, 7): o pecado é algo em que o ser humano vive inserido, incapaz de, por si só, se libertar; mas, como testemunha a Sagrada Escritura em muitas passagens, o pecado é fruto da liberdade do ser humano (não algo que se lhe impõe de fora), e radica na responsabilidade individual de cada um, como ensina o profeta Ezequiel: «a justiça do justo ser-lhe-á imputada, exactamente como a impiedade do ímpio ser-lhe-á imputada» (Ez 18, 21c).
Numa das catequeses bíblicas sobre o pecado, o ser humano pessoalmente considerado (personificado em Adão) toma a opção deliberada, no exercício da sua liberdade, de prescindir da relação de dependência criatural para com o Criador (própria da sua condição de criatura), e procurar ser como Deus. Numa outra, o ser humano socialmente considerado (representado na sociedade de Babel), pretende deliberadamente penetrar no Céu apenas pela sua obra, e procurar ser forte e poderoso sem Deus.
Ao não reconhecer a sua dependência e orientação para Deus, o ser humano nega a verdade mais profunda de si mesmo. Toda a criatura, chamada ao ser pelo Criador, só encontra a realização última de si, se vive essa mesma relação que a mantém na verdade daquilo que ela própria é: uma criatura, cujo princípio de ser não está em si, mas recebe-o continuamente de fora, de um Outro, do Ser absoluto.
Com maioria de razão, esta verdade a respeito da criatura é-o também para o ser humano, criatura com a capacidade de uma relação conscientemente assumida com o Infinito, com o Transcendente. De facto, na sua existência quotidiana, o ser humano descobre-se inserido numa rede de inter-relações e toma consciência de que o seu fim último passa por um processo de saída de si, concretizada no agir no mundo e na entrega ao outro.
Apercebe-se, então, da sua dimensão transcendente: quanto mais se supera a si mesmo, quanto mais se transcende a si mesmo, tanto mais actualiza a sua própria essência. Simultaneamente, o Homem experimenta a finitude, a limitação, a fragilidade e a morte. Isto acentua nele ainda com mais força, esse movimento para a transcendência, e uma ânsia de infinito e eternidade.
Enquanto sujeito de relações interactivas numa dimensão eu-tu, esse movimento para o eterno ordena-o em direcção ao tu divino. Como nos ensina o autor Coreth: «Só no cumprimento dessa relação pessoal – em direcção ao ser pessoal finito do outro Homem e em definitivo em direcção ao ser absoluto e infinito de Deus – alcança o Homem a sua realização e desenvolvimento plenos».
Ao recusar a relação pessoal com Deus, o ser humano recusa aceitar a verdade do projecto divino sobre o Homem: pelo pecado, ele nega viver como filho do Pai, irmão de Cristo, templo do Espírito, cooperador do projecto de construção do Reino de Amor, iniciado na primeira criação (é o Amor quem chama e mantém cada um na existência), e definitivamente inaugurado na vida e missão de Jesus.
Apliquemos esta meditação à nossa vida. É ou não verdade que uma grande maioria das pessoas, (e muitos de nós), aspira a um modo de liberdade que lhe permitisse a si própria criar os critérios do bem e do mal, ou até decidir o que é bem e pode ou deve fazer, e o que é mal e não deve fazer?
Mas a liberdade não é mero acto externo de se decidir a fazer isto ou aquilo, consoante considera que é bem ou é mal. Ela tem sempre como horizonte o próprio Deus Criador, infinito e bom, sempre bom e próximo, que ilumina e move a vontade humana ao Bem e diante de Quem o ser humano tem de se definir: ou a Ele adere e O aceita como origem do Bem e fonte de todos os critérios de discernimento do que é bem ou mal; ou O nega porque pensa assim libertar-se de qualquer elemento exterior que o limite, acabando todavia por cair escravo do horizonte de finitude em que se encerra.
Isto é tão profundo que reporta à própria dimensão ontológica do ser humano. O pecado apanha e contradiz tal estrutura ontológica, negando o seu dever-ser fundamental que exige a relação interpessoal com Deus e, n’Ele, com os outros. Assim o pecado só pode conduzir o ser humano a uma realização de si equívoca e desordenada.
Do que já escutámos podemos concluir que o pecado tem um agente e, neste mundo, ele é sempre o ser humano individual inserido numa comunidade, ou seja, a pessoa humana. O pecado é sempre uma realidade pessoal, fruto de uma opção da pessoa, no uso da sua liberdade e responsabilidade, maior ou menor.
Tal realidade do pecado não é superficial. Como ensina a Igreja, pode concretizar-se por pensamentos, palavras, actos e omissões. Mas não se trata apenas de dar mais ou menos atenção ao gestos religiosos e morais da vida, entre tantos outros. Trata-se de assumir uma opção fundamental de vida: tem ou não Deus lugar para ser a relação estruturante de sentido para a vida?
E essa opção fundamental tem força para moldar as atitudes fundamentais na vida? Tem força para configurar todas as relações: com os outros, consigo próprio, como o mundo, com a Igreja? Tem força para definir os critérios de juízo e a forma mentis, isto é, o modo de pensar e decidir? Tem força para integrar as vulnerabilidades e erros, perdoar as ofensas sofridas e cometidas, e retomar a aliança com Deus após as quedas?
Quando a opção fundamental é por Deus, os pecados são fragilidades após as quais até a maior ofensa tem perdão e caminho a continuar. Mas se é sem Deus, o pecado é degradação lenta que, à maneira do monóxido de carbono nas nossas lareiras, vai-nos envenenando, roubando a paz, a esperança, a alegria, o sentido até à autodestruição.
Também já vimos que o pecado é igualmente uma realidade com consequências na comunidade: amor a Deus e amor ao próximo andam indissociavelmente ligados como mostram as palavras do próprio Cristo: «o que fizestes a um desses irmãos mais pequeninos a Mim o fizestes» (Mt 25, 40). O pecado, enquanto negação a Deus e à aliança por Ele proposta, é pois uma ruptura com os outros: constitui a recusa, por parte daquele que a dá, em querer crescer e realizar a sua missão a partir do projecto de Deus para o mundo.
Assim, se o pecado é sempre pessoal, da existência de consequências para a mundo podemos falar de um pecado social. Cabe aqui tudo o que gera atentados à vida humana; abusos e atentados à dignidade humana; violações de direitos fundamentais, incluindo os sociais e religiosos; perseguições; e atentados à fraternidade universal e à ecologia integral. Mas este conceito de pecado social exprime ainda outros alcances.
Por exemplo – toda a agressão (a Deus, ou aos outros, ou a si próprio) cometida por existir para com ela uma certa diluição da reprovação social: condenações mediáticas sem salvaguarda da justiça e do bom nome; mentalidade de favor e cunhas; economia não declarada; violência audiovisual e digital; pornografia digital; prostituição; perseguição religiosa (e cristã); ridicularização pública de Deus.
Outro exemplo – toda a agressão praticada por um grupo organizado, sob a liderança dos seus chefes: violência de Estado, guerras, terrorismo, tráfico de pessoas, narcotráfico, gangues e grupos identitários violentos; grupos activistas violentos.
Um terceiro exemplo, a que podemos chamar de pecado estrutural – toda a agressão que decorre das próprias estruturas injustas de um grupo ou até da própria sociedade: legislação contra a vida; sistemas geopolíticos e socioeconómicos que acentuam a desigualdade e a injustiça social; sistemas de justiça com acesso e tratamento desigual; sistemas culturais redutores do pensamento crítico; redes comunicacionais de manipulação e cancelamento.
Entre os pecados com forte dimensão social, a doutrina moral católica alertava, pelas suas graves consequências, para quatro a que chamava de pecados que bradam aos Céus. Embora hoje não se use tanto esta terminologia, vale a pena reconhecê-los:
1) homicídio voluntário (que há-de incluir a pena de morte, o aborto, a eutanásia e a assistência ao suicídio); 2) pecado sensual contra a natureza (que há-de incluir a promoção da antropologia de género, distinta do justo combate contra a perseguição a pessoas que a põem em prática); 3) opressão dos pobres (que há-de incluir a especulação sobre bens de primeira necessidade e a exploração das dívidas soberanas dos povos mais desfavorecidos); 4) não pagar o salário a quem trabalha (que há-de incluir a ausência de inscrição de trabalhadores na segurança social e de pagamento de complementos devidos).
Nesta meditação sobre o mistério do pecado, suas concretizações e consequências, falta-nos olhar para uma abordagem clássica que os define em razão das consequências da sua gravidade na vida espiritual e sobrenatural dos que os praticam. Nela, a gravidade depende não só da matéria praticada, mas também da consciência e do consentimento.
Tal abordagem define-os como pecados leves ou veniais, e pecados graves ou mortais.
O pecado venial é toda a falta leve no que respeita à ofensa a Deus, enquanto desvio cometido livremente (não esquecer que o pecado é sempre um acto da liberdade da pessoa), que conduza quem peca a um afastamento de Deus, mas não negue a sua orientação para Deus.
Corresponde àqueles pecados, que não devem ser descurados, mas que comportam matéria leve, isto é, não são actos cuja matéria envolvida é sempre gravemente ilícita, independentemente das circunstâncias (por exemplo, o caso de atentado contra a vida humana). Os pecados veniais são aqueles que desfiguram a caridade mas não a destroem completamente . O pecado venial não rompe a opção fundamental por Deus.
Todavia, e porque não deixa de ser pecado, provoca sempre uma desordem na pessoa, já que esquece de colocar o primado da relação em Deus, acabando por valorizar a criatura. Se não se lhe opuser uma procura constante em acentuar a comunhão com Deus e os irmãos, o hábito acaba por dispor para o mal, a desordem e a ruptura, podendo levar a pessoa a cometer pecados mortais e a alterar a sua opção fundamental de vida. Há apegos que vão ficando: é a pena temporal que ele deixa. Será o hábito do amor que irá apagando os sinais do pecado na pessoa.
Por pecado mortal entende-se aquela falta, de tal modo grave no que respeita à ofensa a Deus, envolvendo matéria gravemente ilícita e querida com plena consciência e pleno consentimento, que coloca a pessoa numa situação de ruptura e recusa de Deus, que a conduz à morte. Isto é, a um estado de distanciamento de Deus vivido nesta vida, e que se não fôr revertido, incapacita a pessoa para a visão de Deus, na vida eterna, auto-excluindo-a da mesma.
Tal acontece, pois aquelas três condições conjugadas alimentam a recusa de Deus. A história de amizade anterior não se apaga. Nem desparece por completo alguma relação com Deus. Mas dimensões importantes vão permanecendo de fora. Cria-se uma desagregação e ruptura tais que a pessoa é incapaz de, por si, abrir-se à comunhão sem reserva. Precisa da graça sacramental para reverter a situação. Sem ela, a ferida de morte torna-se estável e, na morte temporal, completa e definitiva.
Todavia, abertos à acção da graça de Deus que quer que todos se convertam e vivam, todo o pecado pode ser perdoado. Apenas a recusa radical e definitiva de Deus, eleita como orientação permanente de vida, pela qual a pessoa nega qualquer dom de Deus auto-excluindo-se da salvação que Este lhe oferece, não tem saída. É o que Cristo apresenta como pecado contra o Espírito Santo e sem perdão (cf. Mt 12, 31-32). Que, todavia, tem perdão assim que a pessoa abra uma brecha do coração a Deus.
Como prometido, hoje meditámos no mistério do pecado, e procurámos melhor reconhecer os pecados. Falta olhar os caminhos para os evitar e superar. É o que meditaremos nas próximas catequeses.
+ José Pereira, Bispo da Guarda

