29 de MARÇO de 2026
A Palavra de Deus foi abundante: esta meditação que faço agora será mais curta.
«Toda esta multidão, tanto os que iam à frente de Jesus como os que vinham atrás, diziam em altos brados: «Hossana ao Filho de David! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hossana nas alturas!» (Mt 21, 9).
Acompanhámos como a multidão aclamava Jesus à sua chegada e entrada em Jerusalém. Seis dias depois, a atitude foi radicalmente oposta:
«Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e os anciãospersuadiram a multidão a que pedisse Barrabás e fizesse morrer Jesus. O governador tomou a palavra e perguntou-lhes: «Qual dos dois quereis que vos solte?». Eles responderam: «Barrabás». Disse-lhes Pilatos: «E que hei de fazer de Jesus, chamado Cristo?». Responderam todos: «Seja crucificado».Pilatos insistiu: «Que mal fez Ele?». Mas eles gritavam cada vez mais: «Seja crucificado». Pilatos, vendo que não conseguia nada e aumentava o tumulto, mandou vir água e lavou as mãos na presença da multidão, dizendo: «Estou inocente do sangue deste homem. Isso é lá convosco» (Mt 27, 20-24).
O que mudou? Porque rejeitam Quem há poucos dias aclamaram como rei esperado de Israel? Porque condenam Aquele que receberam como salvação dos pobres e oprimidos?
À primeira vista parece ser uma questão de gestão de expectativas. Uns ter-se-ão sentido frustrados porque afinal o Esperado de Israel não passava de mais um charlatão, que fora preso sem qualquer poder para implantar o novo reino profetizado.
Outros, ressentidos porque entretanto Ele havia-se voltado contra as autoridades de Israel e o Templo, na expulsão dos vendedores, e não contra o domínio estrangeiro romano. Outros ainda terão apenas ido atrás da opinião da multidão mais próxima ou dos comentários mais imediatos, sem juízo crítico fundado.
Simultaneamente, podemos verificar a existência de acções de persuasão de alcance público notório por parte de quem detinha capacidade para influenciar a multidão e mudar a opinião maioritária. A essa prática parece ter estado associada também a capacidade de provocar perturbação social e tumulto.
Também parece claro que as convicções de uma grande maioria da multidão tinham pouca profundidade, pouca raiz ou pensamento amadurecido sobre a pessoa de Jesus e sua proposta de Reino. Estariam, antes, mais assentes nas circunstâncias do momento, em relações de influência, em posicionamentos mais emocionais e reactivos a sugestões do que num projecto de construção do Reino.
Podemos ainda identificar a submissão do exercício do poder público a quem tem maior capacidade de manifestação e a incapacidade de persistir rectamente numa visão justa mesmo que com o desagrado da maioria do momento. A que acresce a desresponsabilização face às consequências graves das decisões públicas assumidas: «Pilatos […] lavou as mãos na presença da multidão». E ainda a ausência de distinção entre a esfera do poder executivo e do judicial.
Podemos, assim, verificar como o processo de Jesus que conduziu à sua paixão ilumina, de forma muito acutilante e actual, a situação social do nosso tempo.Medito convosco esta leitura a partir de quatro dimensões.
1º. Quando o primado da organização social e geopolítica se desvia para o crescimento financeiro e económico a qualquer preço, desvalorizando as vidas humanas e a paz das nações, submergimos a uma “economia que mata” (Papa Francisco).
Parece deixar de haver princípios estáveis e estruturantes das relações entre pessoas e entre países e tudo se joga nas expectativas dos mercados, da produção energética, dos interesses de blocos geoestratégicos. Que são voláteis e se alteram consoantes os flutuações económicas e os interessesdo momento.
A pessoa é potenciada ou descartada consoante as expectativas dos mais fortes. Seja a pessoa singular, hoje facilmente removida ou eliminada com a aplicação da Inteligência Artificial ao armamento. Sejam as populações sujeitas a violência armada, fruto de acções continuadas de grupos terroristas e de Estados em guerra. Sobrepõem-se os interesses de quem pode sobre as vidas humanas.
Inclusive nas relações privadas, vemos surgirem novas formas de eliminar vidas a partir de expectativas contrariadas ou imprevistas: violência contra pais e professores por incapacidade de lidar com a frustração, assassinatos colectivos em escolas e outros espaços públicos, possibilidade de aborto por simples opção, entre outros.
É preciso aprender como Deus propõe o primado da pessoa a todo o custo, até à renúncia total da violência e à vitória do despojamento de si sobre as divisões e a morte.
2º. Quando o alcance do mundo mediático e digital se alargou ao horizonte global, e neste espaço a comunicação encontra formas de se subtrair ao escrutínio da verdade e de determinar, por meio de algoritmos, a informação seleccionada com a qual constrói narrativas que se impõem em determinados grupos e sociedades, submergimos à manipulação que mata.
Os grupos identitários crescem encerrando-se em si mesmos, acentua-se a polarização, perde-se a capacidade de escutar a diferença, usam-se técnicas de cancelamento do outro e imposição de um pensamento dominante, mata-se mediaticamente o carácter do outro, usam-se formas de manipulação e indução comportamental.
É preciso deixar despertar os ouvidos e voltar a escutar como um discípulo, capaz de se interpelar pela busca da verdade e do bem comum e de se abrir ao modo como Jesus o promove.
3º. Quando o domínio do pensamento débil e fragmentário se instala, com a substituição do livro e da reflexão sistemática pela mensagem curta, pela informação de acesso e aplicação imediatos sem necessidade de reflexão crítica, e pela valoração desmesurada do “sentir-se bem consigo próprio” em cada momento e sem constrangimentos, submergimos à superficialidade que mata.
A duração e a profundidade são dons de Deus para estruturar e amadurecer a vida e as relações.
É preciso aprender o silêncio de Jesus, que cala a agitação e o império dos sentimentos e do imediato, e enraíza na vontade do Pai até ao extremo, capacitando assim para o perene, e para o cuidado por todos e por cada um.
4º. Quando o exercício da autoridade concentra em poucos os vários poderes, gera em quem a assume o sentimento de impunidade e poder sem limites, e corrompe o sentido da justiça pessoal e social em função de interesses e posicionamentos a manter, submergimos à arbitrariedade da força que mata.
É preciso aprender a força do Servo de Deus, que não veio para se impor ou salvaguardar a Si próprio mas para Se entregar até ao dom total de Si mesmo para a todos salvar. Sem deixar ninguém para trás.
Como vemos, a paixão de Jesus interpela o nosso tempo e modo de nos organizarmos em sociedade, e convoca-nos a assumir uma posição face ao projecto novo de Reino que o Senhor veio inaugurar. O seu silêncio é um apelo a repensarmos a nossa conduta e a abertura de espaço para assumirmos ou recusarmos o que Ele vem realizar. Por isso se cala e só responde depois:
«Tu o disseste», respondeu Jesus a Judas. «Tu o disseste», respondeu Jesus a Caifás. «É como dizes», respondeu Jesus a Pilatos.
Hoje, de novo, Jesus apresenta-Se diante de todos nós e de cada um e abre espaço: «o meu tempo está próximo. É em tua casa que Eu quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos.» E tu, que Lhe dizes?
+ José Pereira, Bispo da Guarda
