(13 / Junho / 2026)
HOMILIA
«Sua Mãe guardava todas estes acontecimentos em seu coração.»
Acolher esta passagem do Evangelho acerca da Virgem Maria, leva-nos a aprofundar três realidades que desejo meditar convosco: “ter coração”, “manter vivo no coração” e “partilhar com coração”
“Ter coração” é sinal de humanidade. Em primeiro lugar, significa ter empatia, ser capaz de se colocar no lugar do outro, valorizá-lo na sua unicidade, não reduzi-lo a generalizações, não agir com frieza, distanciamento, calculismo ou, como diz o povo: “sem coração”.
Nestes tempos em que a comunicação mediática e digital potenciam percepções sem adesão à realidade e acusações sem ter de se confrontar com o rosto e o toque do outro, a Mãe do Céu ensina-nos como ter coração para saber lidar com os acontecimentos e, sobretudo, com os nossos semelhantes.
Como escutámos, ter coração é ter um lugar onde os acontecimentos possam ressoar em profundidade, para desvelar o sentido mais completo das palavras e dos gestos, e das aflições e das expectativas, pessoais e colectivas.
Isso supõe cultivar a ressonância do coração, alimentar a vida espiritual e não só psicoafectiva, aprofundar a vida interior. Assim como é necessário cuidar da saúde do corpo e da mente, para ter coração também é necessário desenvolver a vida espiritual.
Nas nossas sociedades que tendem a humanizar não só os animais, especialmente os de estimação com os quais estabelecemos relações de afecto, mas também os dispositivos e as máquinas, a partir da aplicação da Inteligência Artificial à comunicação digital, à biotecnologia e à robótica, podemos esquecer que só nós, seres humanos, temos coração, no sentido usado por Nossa Senhora: esse lugar onde o espírito encontra a luz de sentido dos acontecimentos e da vida.
A Virgem Santa Maria ensina-nos que o cuidado da vida espiritual é fundamental para a ganharmos consciência de nós e das coisas que nos acontecem, e para sermos capazes de lidar com o que passa e o que permanece, e consequentemente, com o sentido da vida.
A dimensão espiritual está inseparavelmente ligada ao desenvolvimento da autoconsciência e capacidade de comunicação da mesma; ao exercício davontade e capacidade de decisão livre; à capacidade de amar e perdoar; e àcapacidade de se transcender e se relacionar.
Partilhando com todos os demais seres vivos a sujeição ao limite do espaço e do tempo, todavia vivemos experiências interiores e profundas que parecem ultrapassar-nos, que nos permitem reflectir sobre elas e projectar-nosespiritualmente para além da nossa circunstância: seja no pensamento, seja na criação artística, seja na realização social, e seja na dimensão crente.
Quem descuida a vida espiritual pode deixar endurecer o coração. E quem perde a sensibilidade do coração, deixa apagar a luz que revela o sentido mais profundo da nossa vida. Isto mostrou Nossa Senhora aqui em Fátima a três crianças, e por elas a todos nós, faz hoje 109 anos, como nos recordou a Irmã Lúcia:
[Aconteceu que Nossa Senhora] «abriu as mãos e nos comunicou, pela segunda vez, o reflexo dessa luz imensa. Nela nos víamos como que submergidos em Deus. A Jacinta e o Francisco parecia estarem na parte dessa luz que se elevava para o Céu e eu na que se espargia sobre a terra.[…]. Vimos, instantes depois, que Ela deixou cair um pouco a mão esquerda e vimos em frente ao peito, para o lado da mão esquerda, um coração cercado de espinhos. […] Entendemos que era o Coração Imaculado de Maria que Ela nos mostrava, pedindo-nos reparação pelos ultrajes que recebe dos homens».
Cuidar da terra a partir do Alto (como Lúcia) e caminhar para o Alto elevando-se da terra (como os seu santos primos): eis o sentido da vida da humanidade. É preciso lembrar o mundo, desde aqui, da Cova da Iria, que o homem tem coração e precisa de cuidar dele. A pessoa humana não é só conhecimento e tecnologia. Não se encontra nem se realiza apenas com razão e Inteligência Artificial. Precisa de alimentar a sua vida espiritual.
Guardar no coração é o modo de o fazer. Guardar não é arrumar, depositar e não mais se lembrar nem cuidar. Guardar no coração é conservar, fazer memória. Cuidar que o coração mantenha vivo o que guardou e, por sua vez, receba vida e se renove a partir do que guardou. Guardar é “manter vivo no coração”.
Isso implica também juntar as peças, ordenar o que muitas vezes chega desordenado, dar horizonte e discernir os acontecimentos e as emoções com serenidade e sem imediatismos reactivos, encontrar-lhes o fio condutor e a luz de sentido que Deus oferece. Escutemos de novo a Irmã Lúcia acerca do que a Senhora aqui mostrou há 109 anos:
«A celeste Mensageira respondeu: ‘filha, e tu, sofres muito? Não desanimes; eu nunca te deixarei. O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus’. Com esta promessa, senti-me confortada, cheia de confiança, certa de que a Senhora nunca me deixará só, seria Ela a conduzir-me e a guiar-me os passos pelos caminhos da vida, por onde Deus me quiser levar… Foi então que a celeste Mensageira, abrindo os braços com um gesto de maternal protecção, nos envolveu no reflexo da Luz do imenso Ser de Deus».
Reparemos bem: «no reflexo da luz do imenso Ser de Deus». É preciso repetir ao mundo, com o Concílio Vaticano II e todos os Papas desde então, também já com o Papa Leão XIV na recente encíclica Magnifica Humanitas: «o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente».
Nessa busca de esclarecimento ninguém está só. Não estamos sós. O Coração Imaculado da Mãe é o lugar-refúgio e o caminho onde esse mistério de cada um de nós e da humanidade pode ir encontrando esclarecimento.Não apenas o lugar-refúgio, mas também o caminho.
“Partilhar com coração” é o modo de percorrer tal caminho. A Mãe de Jesus guardava no coração, não doutrinas ou ideologias, mas todos os acontecimentos da sua vida. Se guardar é manter vivo, e o que se guarda são acontecimentos, então guardar é dar continuidade, é fazer continuar a acontecer, é partilhar o que se recebeu.
Se pelo contrário o reservamos para nós, então tudo o que a vida nos dá consumir-nos-á no receio de o perdermos, no medo de que no-lo tirem, na angústia de nos isolarmos em muralhas que acabam por nos aprisionar.
Nossa Senhora mostra-nos como um coração que repassa todos os acontecimentos pela luz do amor de Deus não hesita em expor a sua vida porque o move o próprio movimento da caridade divina. Escutemos ainda como na aparição de que hoje se cumprem 109 anos, a Mãe do Céu deixou em cada um dos três videntes de Fátima esta mesma partilha de amor:
«A Santíssima Virgem respondeu: […] ‘Jesus quer servir-se de ti para me fazer conhecer e amar. Ele quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. […] O meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus’. […] e assim me abandonei nos braços paternais do nosso Deus, e a Seus cuidados de Mãe.
[…] A Jacinta, quando me via chorar, consolava-me, dizendo: ‘Não chores. Decerto são estes os sacrifícios que o Anjo disse que Deus nos ia enviar. Por isso, é para O reparar a Ele e converter os pecadores…’
[…] Nesta aparição o que mais impressionou o Francisco foi a luz imensa que Nossa Senhora nos comunicou e na qual nos víamos em Deus. ‘Que lindo é Deus, que lindo é Deus! – exclamava – mas está triste por causa dos pecados dos homens. Eu quero consolá-lo, quero sofrer por seu amor’».
Nestes excertos, marcados pela sensibilidade religiosa de há mais de 100 anos, o que importa realçar é o modo como o coração repassado pelo amor de Deus experimenta a urgência de fazer estender a todos a caridade divina, que nem os sofrimentos e as contrariedades padecidas podem diminuir ou apagar.
Diante das contradições e conflitos deste nosso tempo, seja ainda o Coração Imaculado de Maria a ensinar-nos o caminho do amor empenhado e diligente que faz de nós discípulos missionários, com coração, ao serviço da justificação que dá a vida.
D. José Pereira, Bispo da Guarda
Foto: Santuário de Fátima
