No passado dia 28 de março, o Seminário Maior da Guarda acolheu um momento significativo de reflexão quaresmal dirigido aos educadores católicos.
A iniciativa contou com a presença do Professor Juan Ambrósio, docente da Universidade Católica Portuguesa, que orientou a sessão subordinada ao tema “Educar hoje – Novos Mapas da Educação: Habitar e Transformar o Mundo”.
A reflexão apresentada desafiou os participantes a repensar a educação para além da mera transmissão de conhecimentos. Enraizada na visão da Igreja, esta perspetiva encontra fundamento na Gravissimum Educationis, que afirma a educação como um direito fundamental e um caminho de formação integral da pessoa humana, colocando a sua dignidade no centro de todo o processo educativo.
Num contexto marcado por rápidas transformações sociais e culturais, foi também destacado o contributo do Pacto Educativo Global, promovido pelo Papa Francisco, que propõe uma mudança de paradigma: da lógica individualista para uma cultura do bem comum. Neste horizonte, os educadores são convidados a construir uma verdadeira “aldeia que educa”, onde família, escola e comunidade se articulam numa rede de corresponsabilidade.
A recente carta apostólica “Traçar novos mapas de esperança” aprofunda esta visão, sublinhando a necessidade de ir além da simples ocupação dos espaços educativos. O desafio passa por “habitá-los”, ou seja, envolver-se de forma relacional e transformadora, tornando-os verdadeiramente humanos e significativos.
Um dos pontos particularmente marcantes da reflexão incidiu sobre a proposta de uma educação logomítica, que integra duas linguagens complementares: a lógica e a sabedoria. A linguagem da lógica (logos) centra-se na compreensão do “como” e do “porquê” das coisas, recorrendo às ciências, aos conceitos e à análise racional, exigindo um certo distanciamento para categorizar e compreender a realidade de forma objetiva. Já a linguagem da sabedoria (mythos) orienta-se para o sentido da existência e o “para quê” da vida, utilizando a narração e o mito — entendido teologicamente como busca profunda de significado — e implicando uma atitude de proximidade, compromisso e interiorização.
Foi sublinhado que a educação contemporânea tem privilegiado quase exclusivamente a dimensão lógica, esquecendo a sabedoria. A proposta logomítica aponta, assim, para a necessidade de integrar o conhecimento técnico e racional com a procura de sentido, promovendo uma formação verdadeiramente integral da pessoa. Enquanto a lógica analisa e explica o funcionamento do mundo através do distanciamento, a sabedoria interpreta e orienta a vida a partir da experiência e do compromisso pessoal.
Durante a sessão, foi ainda salientada a urgência de promover “constelações educativas” capazes de iluminar o futuro com esperança, bem como a importância de a Igreja marcar presença no espaço público, dialogando com a cultura contemporânea e integrando fé, razão e justiça social.
As escolas são assim chamadas a assumir-se como autênticos “laboratórios de discernimento”, onde se leem os sinais dos tempos e se constrói uma síntese viva entre fé e cultura. Educar para o bem comum implica formar consciências atentas à dignidade de cada pessoa, comprometidas com a justiça social e ambiental, e abertas à solidariedade, reconhecendo que “perder os pobres é perder a educação”.
A educação surge, assim, como um verdadeiro espaço de transformação, onde a interioridade e a solidariedade se tornam forças capazes de humanizar o mundo. Neste processo, o educador é desafiado a assumir o papel de “coreógrafo”, articulando saberes, relações e experiências, integrando mente, mãos e coração.
A sessão terminou com um apelo claro: fazer da educação um lugar teológico e um espaço de esperança, onde o Evangelho se concretiza em gestos, a cultura se abre à transcendência e o mundo começa, efetivamente, a ser transformado.
O Departamento Diocesano do Ensino Religioso Escolar expressa o seu agradecimento a todos os presentes e, de modo particular, a D. José Miguel, pela sua presença, proximidade e acompanhamento atento e amigo junto dos educadores católicos da diocese.
Cristina Brito
