«Fazei tudo o que Ele vos disser».
À luz desta afirmação de Nossa Senhora no Evangelho, podemos meditar na missão da Virgem Santa Maria, como Mãe e Medianeira da Graça.
O que é a mediação que acreditamos ser exercida pela Mãe do Céu em nosso favor? Sabemos bem, é claro, sem qualquer dúvida, que não se trata de um qualquer poder ou atributo divino, que a Virgem de Nazaré não tem. Sendo a Cheia de graça, a Imaculada, a toda Santa, plenamente envolvida pelo Espírito Santo, Nossa Senhora permanece uma de nós, completamente humana e não divina. Só Jesus, Deus feito Homem, é o Mediador da Salvação.
De igual modo, também está completamente excluído (repugnaria até) que se tratasse de uma intervenção desonesta, de um abuso de posição privilegiada, aquilo a que popularmente se chama “cunha” ou “mexer os cordelinhos”, e menos ainda de uma qualquer forma de corrupção em que a Virgem Maria intercederia em benefício daqueles que lhe pagassem favores, fosse em esmolas, sacrifícios ou orações.
A Sagrada Escritura é clara na indicação de que o Senhor se deixa tocar por quem Lhe pede com insistência, e contundente na afirmação de que não Se deixa manipular: aceita os gestos de amor e entrega de um coração contrito, humilde e agradecido, como tantas vezes nos apresentamos aqui na casa da Mãe, mas não se deixa comprar por interesses pessoais ou de grupos.
Também na vida social e geopolítica precisamos de voltar a estas certezas: a força transformadora capaz de mover as vontades na procura do bem comum não é a força das armas, do abuso de poder, das teias secretas de influência, dos “chicos-espertos” que sabem “passar a perna”.
Como pede o Papa Leão XIV e suplicamos com insistência desde aqui, neste altar da Cova da Iria, precisamos de uma paz desarmada e desarmante, de um diálogo franco e ponderado, de colocar o bem comum e o cuidado do maís frágil e vulnerável no centro dos nossos esforços de desenvolvimento.
Então o que é esta mediação de Nossa Senhora? Em primeiro lugar é o colo que nos acolhe e apresenta diante do Pai. Nossa Senhora ensina-nos a desconstruir as falsas ideias de Deus – distante, austero, inflexível diante do preceito, arbitrário, que escuta uns e não atende outros.
No regaço da Mãe de Jesus descobrimos que temos Mãe e temos Pai. Nunca estamos sós. Descobrimos, através da Mãe, que este Pai é bom, é mesmo bom, é sempre bom, não sabe não ser bom; mesmo quando, por incapacidade nossa, não reconhecemos o bem de Deus ou O acusamos de males de que não é responsável. A Mãe ensina-nos o rosto do Pai.
A Mãe mostra-nos ainda que o Pai está próximo, vem até nós, mesmo no silêncio e na invisibilidade em que as feridas da vida não nos deixam reconhecer a sua presença delicada e terna. Ensina-nos que a acção de Deus se revela quando O aceitamos ver onde Ele Se mostra e não onde queremosobrigá-Lo a mostrar-Se. Deus vem até nós, mas para nos levar até Ele; não para nos deixar parados onde estamos. A Mãe ensina-nos o caminho da conversão do olhar e da reforma da vida: pessoal, eclesial e social.
Mas a mediação de Nossa Senhora realiza-se também no modo como nos ensina a escutar a Palavra de Deus, a reconhecer a sua vontade e os seus tempos, e a acolher a sua obra: «Fazei tudo o que Ele vos disser».
Acolhendo-nos no seu Coração Imaculado, Nossa Senhora ensina-nos a recolher da agitação e do ritmo reactivo em que tantas vezes nos aprisionamos, perdendo a paz e a lucidez, e oferece-nos a pacificação de quem sossega e espera em Deus.
A Mãe ensina-nos que os trabalhos são nossos mas a obra é de Deus; que o cansaço é nosso mas a sustentação é de Deus; que as dores, as ânsias e os receios são nossos mas a hora e a Cruz que saram e salvam são de Deus.
Nossa Senhora ensina-nos que podemos confiar sempre: Deus não se ausenta nem se desinteressa. Mas a acção de Deus não se submete às nossas expectativas e modos. Pelo contrário, convoca-nos a reconhecer que a sua iniciativa é que torna possível a nossa vida e alegria plenas; e a aderir aos seus ritmos e horizontes.
Discretamente, Nossa Senhora guia-nos nesta atenção, nesta escuta e neste itinerário. Tendo aprendido a deixar-se conduzir pelo Espírito Santo, suplicamos-lhe desde este altar da Cova de Iria que ensine a Igreja na escuta de Deus e no itinerário de transformação missionária e sinodal que estamos a percorrer.
Finalmente, a mediação de Nossa Senhora também se faz no modo como atrai à vida da Graça. A sua relação materna, que facilmente cada um de nós estabelece com Ela, não nos deixa fechados aí.
Quando passamos de um sentimento religioso infantil que se esconde atrás da Mãe e se vive individualmente, a uma fé relacional adulta que se assume a partir dos ensinamentos da Mãe e se vive eclesialmente, descobrimos o sabor da água transformada em vinho.
A vivência comunitária em Igreja, nas diferentes formas que pode assumir; a presença e acção de Deus no mundo celebradas em assembleia orante em cada domingo; a vida renovada em cada um de nós e entre nós, comunicada na celebração dos sacramentos; a unidade e a caridade alimentadas na reconciliação dos laços e no compromisso fraterno: tudo são instrumentos da Graça de Deus para nos dar vida em abundância.
E Nossa Senhora aí está: a lembrar-nos, discretamente, que sem o vinho bom da acção de Jesus em nós, a vida fica sujeita às carências de cada momento. A Mãe ensina-nos que a água do sentimento religioso precisa de ser transformada pela Graça de Jesus no vinho bom da fé sobrenatural. E que é essa mesma Graça, comunicada pelos diversos instrumentos acima referidos, que permite não apenas uma fé religiosa (um vinho vulgar) mas a fé sobrenatural ou teologal (o vinho bom).
Para acolhermos esta mediação de Nossa Senhora, precisamos de reconhecer a Igreja como esse grupo de serventes que procuram abraçar o que Jesus disser, mesmo quando Ele surpreenda nas suas indicações ou estas não correspondam ao que parecia mais adequado. E precisamos de aceitar que a vida renovada pelo vinho bom da fé não se vive individualmente, mas se recebe da Igreja, se constrói em Igreja.
Nesta peregrinação internacional aniversária confiemos à Mãe, para que apresente ao Pai, os nossos pedidos pela paz desarmada e desarmante, pela irradicação dos compadrios e da sobreposição do bem de alguns sobre o bem comum, pela atenção preferencial pelos mais frágeis e vulneráveis, pela transformação missionária e sinodal da pastoral da Igreja, e pela nossa conversão a uma fé sobrenatural mais adulta e em Igreja.
D. José Pereira, Bispo da Guarda
