CATEQUESES QUARESMAIS
“RENOVAI-VOS E REVESTI-VOS DO HOMEM NOVO”
V
Os diferentes meios para o perdão dos pecados
Neste quinto passo do itinerário quaresmal que propus fazermos juntos, à luz da exortação bíblica “Renovai-vos e revesti-vos do homem novo”, quero meditar sobre “Os diferentes meios para o perdão dos pecados”. Escutemos o que nos diz o evangelho segundo São João:
«À tarde desse mesmo dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas onde estavam os discípulos, por medo dos judeus, Jesus veio, e pondo-se no meio deles, disse-lhes: “A paz esteja convosco!” Tendo dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos, então, ficaram cheios de alegria por verem o Senhor. Ele disse-lhes de novo: “A paz esteja convosco! Como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós.” Dito isso, soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles aos quais os retiverdes, ser-lhes-ão retidos.”»
(Jo 20 19-23)
O que nos diz esta palavra sobre o perdão dos pecados? Ressalta clara a afirmação de que o perdão dos pecados é um fruto da Páscoa de Jesus. É no culminar da acção redentora de Cristo, cuja realização definitiva se iniciara com a sua paixão na sexta feira antes da Páscoa judaica e alcança o seu pleno com a sua ressurreição no primeiro dia da semana, que o Ressuscitado aparece aos seus discípulos e, manifestando a sua vitória, comunica-lhes a faculdade de perdoar os pecados.
Na linha do itinerário que já percorremos nesta Quaresma, o perdão dos pecados não é uma realidade secundária, como se estivesse apenas em causa a correcção de uma falha; ele é de tal modo fundamental, que é um fruto essencial da acção redentora de Jesus. O perdão dos pecados é a nossa salvação; é motivo para a paixão, morte e ressurreição de Jesus; é decisivo para a vida presente e definitiva de todos e de cada um.
Aqui, importa ressaltar a distinção entre desculpar a ofensa, perdoar o outro e perdoar os pecados. Desculpar a ofensa significa não exigir ao ofensor quaisquer contrapartidas pela culpa dos seus actos. Uma espécie de “passar uma esponja sobre o assunto”, “passar adiante”. Ou porque a ofensa não foi assim tão importante que justifique qualquer atenção maior ao assunto. Ou porque o foi, mas não se quer alimentar dores ou consequências que tenham permanecido.
A desculpa, sobretudo quando a ofensa deixou feridas, nem sempre traz consigo o perdão do ofensor. É costume ouvirmos dizer: “não lhe quero mal mas não consigo perdoar”; ou “perdoo mas não esqueço”. Estas frases, tantas vezes não se limitam a afirmar que as ofensas ficaram gravadas na memória (o que seria uma realidade expectável, pois a nossa memória guarda as experiências significativas, sejam positivas ou negativas), mas que se guarda um sentimento de dívida por saldar.
Deste modo, perdoar o outro convoca a algo mais do que apenas desculpá-lo. Não basta não lhe querer mal, mas também não lhe querer nada. Trata-se de lhe querer bem, de querer que as consequências da ofensa sejam sanadas.
Tanto quanto possível, num caminho de reconciliação que recupere a confiança entre ambos e restabeleça a relação. E ainda que tal não seja possível, pelo menos não reste qualquer ressentimento e haja liberdade face ao sucedido. Alguns poderão ter inclinação natural para tal, mas na maioria das vezes não se consegue apenas com as próprias forças. É necessária a graça de Deus que alimente em nós os sentimentos de Cristo.
Outra realidade diferente é o perdão dos pecados. Se, como vimos noutras catequeses, eles não são meros erros ou falhas mas desfiguram a nossa condição de imagem de Deus e incapacitam-nos para uma relação confiante com Ele, só mesmo Deus pode vir em nosso socorro para perdoar os pecados e libertar-nos deles e das suas consequências.
Isso mesmo tinha transparecido durante o ministério público de Jesus: «Os escribas e fariseus começaram a pensar: “Quem é este que profere blasfémias? Não é só Deus que pode perdoar os pecados?” Mas Jesus, que lia nos seus pensamentos, tomou a palavra e disse-lhes: “Que estais a pensar nos vossos corações? Que é mais fácil dizer: ‘Os teus pecados estão perdoados’ ou ‘Levanta-te e anda’? Pois bem, para saberdes que o Filho do homem tem na terra o poder de perdoar os pecados… Eu te ordeno – disse Ele ao paralítico – levanta-te, toma a tua enxerga e vai para casa”» (Lc 5, 21-24)
Jesus, revelando-se Deus durante a sua vida pública, afirmara ter a prorrogativa divina de perdoar os pecados. E ao aparecer Ressuscitado, reafirma-o de vários modos. Em primeiro lugar, comunicando-lhes a paz pascal. Esta paz é o shalom bíblico, com que os judeus se saudavam (e saúdam: shalom aleichem, ou shabat shalom), suplicando a paz de Deus. Não se trata da simples ausência de conflitos. Indica um estado de plenitude, harmonia, cumprimento definitivo, esperado das mãos Deus.
É aquela busca do coração humano só satisfeita em Deus, como ensina S. Agostinho: «criastes-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração anda inquieto enquanto não repousar em vós.» E que S. Paulo, anunciando a Páscoa de Cristo, testemunha-a realizada no perdão dos pecados: «Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. Passaram-se as coisas antigas; eis que se fez uma realidade nova. Tudo isto vem de Deus, que nos reconciliou consigo por Cristo…» (II Cor 5, 17-18).
O Ressuscitado reafirma ainda o perdão dos pecados como dom e obra divina quando o associa ao dom pascal do Espírito Santo, como escutávamos no texto bíblico no início desta catequese. E de novo São Paulo o testemunha, como conteúdo de fé desde a primeira geração cristã. Ouçamo-lo:
«Tendo sido justificados pela fé, estamos em paz com Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual temos acesso, na fé, a esta graça em que permanecemos e nos gloriamos […] porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. Quando ainda éramos fracos, Cristo morreu pelos ímpios no tempo determinado. […] Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores» (Rom 5, 1-2.5b-6.8).
Além destes dons pascais da paz e do Espírito Santo concedidos aos discípulos, o perdão dos pecados é-nos oferecido ainda como obra de Deus e dom pascal, por meio do mandato que dá aos mesmos discípulos de perdoar ou reter os pecados, fundamentação bíblica do sacramento da penitência: «Como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós. […] Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles aos quais os retiverdes, ser-lhes-ão retidos».
Assim, faz parte do ministério da Igreja a comunicação do perdão pascal dos pecados àqueles a quem é enviada e, sob seu discernimento, manifestem disposições para o receber.
Chegados aqui, podemos sintetizar: 1) o perdão dos pecados não é nem se recebe por um simples pedido de desculpa (a outrem ou a Deus). Não basta, para o receber, pedir directamente desculpa a Deus. 2) Também não se reduz à obtenção de uma ajuda para ultrapassar um sentimento de mágoa, ou de injustiça não reparada que atormenta, ou de um peso por falhas praticadas que desconforta. 3) E, sem excluir todos os meios extraordinários que Deus usa para chegar a cada um, o modo ordinário de o receber durante a vida passa pelo ministério da Igreja.
Acreditamos mesmo nestas afirmações? Se acreditarmos, então surgem consequências. A vida da fé deixa de ser uma religião para que tudo corra bem e cada um se torne melhor. Trata-se de um transformação operada por Jesus, a justificação que nos salva, de modo que Cristo de forme em nós, como ensina São Paulo:
«Sabemos que o homem não é justificado pelas obras da Lei, mas pela fé em Jesus Cristo; […] Com Cristo estou crucificado. Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim. Se ainda vivo dependente de uma natureza carnal, vivo animado pela fé no Filho de Deus, que me amou e Se entregou por mim». (Gal 2, 16a.19b-20)
De igual modo, se acreditarmos no que acima enunciámos, o ministério da Igreja é necessário para a salvação de todos. Ninguém se salva sem ele, nem aqueles que nunca chegam a aderir formalmente à Igreja durante a sua vida terrena.
O modo surpreendente como os frutos desse ministério podem tocar o coração de todos, mesmo dos crentes de outras religiões e dos não crentes, pertence ao mistério da acção de Cristo no coração dos que se abrem à busca do sentido e da verdade. Se assim é, podemos dizer: a salvação é para todos, a urgência do ministério é para a Igreja. Ouçamos a palavra de Deus:
«O amor de Cristo nos impele […] Cristo morreu por todos, para que os vivos deixem de viver para si próprios, mas vivam para Aquele que morreu e ressuscitou por eles. […] Tudo isto vem de Deus, que por Cristo nos reconciliou consigo e nos confiou o ministério da reconciliação. Na verdade, é Deus que em Cristo reconcilia o mundo consigo […] confiando-nos a palavra da reconciliação. Nós somos, portanto, embaixadores de Cristo; é Deus quem vos exorta por nosso intermédio. Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus» (II Cor 5, 14a.15.18-20).
Então, como realiza a Igreja esse ministério para o perdão dos pecados? A primeira e mais imediata maneira, escutámo-la na primeira catequese: propondo as muitas e variadas formas de alimentar a virtude da penitência, que transforme por dentro o coração e está acessível a todos. Aqui as recordo:
A liberdade de coração; a renúncia ao mais cómodo; o desapego do que mais apetece; o jejum; a abstinência; a mortificação sadia (sem excessos depreciativos do corpo). Também o encontro com Deus; a escuta orante; a meditação; a contemplação; a conversão do olhar e da mente na oração. E ainda o cuidado do outro, a atenção ao mais pobre, as obras de misericórdia, a reconciliação dos desavindos, a partilha fraterna, a esmola. Pois «a caridade cobre a multidão dos pecados» (I Pe 4, 8).
A Igreja realiza também o ministério do perdão dos pecados distribuindo generosamente a todos a Palavra da reconciliação. Pela pregação que leva à fé (cf. Rom 10, 17), anuncia o Verbo de Deus que dá, a quem O queira receber, o poder de serem tornados filhos de Deus. Este meio é igualmente de acesso universal. Mas para produzir efeitos profundos e duradouros, pede escuta activa e leitura orante, não apenas solitária mas partilhada.
Outro modo pelo qual a Igreja exerce o ministério do dom do perdão dos pecados é a comunicação do Espírito Santo, que santifica e incorpora em Cristo, configurando-nos a Ele e vinculando-nos como membros do seu corpo. Este meio é igualmente de acesso universal. Mas para alcançar frutos mais abundantes (não apenas o perdão individual das faltas mas também a reconstrução da comunhão rompida), supõe a adesão à Igreja como corpo eclesial de Cristo.
O modo mais frutífero pelo qual a Igreja realiza o ministério para o perdão dos pecados é a comunicação permanente da vida sacramental e o seu aprofundamento. Por ela, Deus opera em nós o querer e o agir (cf. Fil 2, 13), capacitando-nos pela sua graça, em aliança e sem substituição da nossa vontade, para a configuração com Cristo. Este meio é igualmente de acesso universal, oferecido a todos. Mas para ser recebido eficazmente, sem cair em simples ritos ou imagens de Deus à medida de cada um, implica a adesão à exigência da vida sacramental.
Vale a pena recordarmos aqui o modo como Jesus exerceu o seu ministério: a sua pregação, a atenção personalizada, a compaixão e a caridade pastoral eram universais, sem acepção de pessoas. A todos oferecia o evangelho e a vida nova do seu Reino. E deixava a cada um o tempo e a decisão quanto ao modo de os abraçar.
Podemos ver em volta de Jesus a multidão que se reunia para O ouvir: havia a que O recusava e perseguia; e a que voltava a suas casas e permanecia na sua vida; e a que aderia aos seus ensinamento e permanecendo em suas terras viviam uma mudança de vida.
Havia, por outro lado, os que se tornavam seus discípulos: uns acompanhavam-no por temporadas, alternando com o regresso a suas casas; outros deixavam tudo para O seguir; setenta e dois foram enviados sem nada, como cordeiros para o meio dos lobos, em missão, para anunciar o Reino.
Havia ainda os que passaram a pertencer ao seu círculo íntimo: doze tornaram-se apóstolos; algumas mulheres acompanhavam-nos; três foram testemunhas de revelações particulares; um teve acesso mais íntimo ao coração do Senhor; um recebeu a missão do primado; uma, a de apóstola dos apóstolos e arauta da ressurreição.
Ou seja, se a proposta de Jesus era universal, as formas concretas de a abraçar, e os modos de participação e exigências daí decorrentes eram diferenciados. Do mesmo modo, se o perdão dos pecados que Jesus oferece é para todos, o seu acolhimento e consequências na vida de cada é diferenciado consoante a maior ou menor abertura à lógica do amor que Jesus propõe.
Como nos ensina São Mateus (cf. Mt 6, 14-15): «Porque se perdoardes aos homens as suas faltas, também o vosso Pai celeste vos perdoará. Mas se não perdoardes aos homens, também o vosso Pai não vos perdoará as vossas faltas». Não se trata de um castigo. É antes a exigência que dispõe para se deixar transformar pelo dom de Deus.
Antes de terminarmos esta catequese, olhemos com mais detalhe para a dinâmica desse meio mais excelente (ainda que não único) de comunicação do dom dos pecados que é o sacramento da penitência.
Como todo e qualquer sacramento, também este da penitência é um sinal que faz memória do passado (o próprio acontecimento pascal de Cristo); que compromete no presente (enquanto insere o pecador arrependido em toda a história do perdão de Deus, tornando-o contemporâneo dos acontecimentos pascais); e que projecta para o futuro (enquanto anuncia, proclama e vai já realizando eficazmente esse futuro iniciado na Cruz de Cristo e para o qual tende toda a história: a vitória da graça sobre o pecado).
Ao aproximar-se deste sacramento, cada pessoa celebra e recorda o juízo de Deus sobre o pecado quando, na Cruz e ressurreição, Cristo destruiu o pecado e a morte. Mas não apenas o recorda como também o acolhe na sua vida quando o próprio Deus, pelo ministério da Igreja, pronuncia sobre o pecador um juízo de condenação e de graça, perdoando-o do pecado e restituindo-o à comunhão consigo e com os demais seres humanos, em Igreja.
O sacramento da penitência também manifesta visivelmente a disponibilidade do penitente para se deixar assimilar a Cristo na aceitação da Cruz, através da aceitação do caminho de conversão e da penitência que lhe são indicados pela Igreja; manifesta ainda o amor misericordioso de Deus, visível na palavra de perdão da Igreja para com os pecadores (pela pregação, pelo diálogo da confissão e, mais estritamente, pela absolvição), na oração por eles, e na ajuda aos mesmos no seu caminho de conversão.
Como vimos noutras catequeses, há uma dimensão comunitária/social do pecado. Por isto mesmo, a reconciliação com o Criador exige a reconciliação com a Criação, e a reconciliação com a Cabeça exige necessariamente a reconciliação com o Corpo todo. O caminho de regresso a Deus tem então de ser o caminho de unidade com os irmãos mediante a Igreja de Cristo, como escutámos atrás.
Todos os sacramentos, e também o da penitência, são assim gestos de Cristo e da Igreja, acções de Cristo pela Igreja, em favor de cada fiel que os recebe e da comunidade eclesial em que cada um é renovado. Isso é testemunhado pelo facto de a forma ordinária de todos eles serem concedidos ser a celebração comunitária com recepção individual.
No caso da penitência, tornou-se mais comum a celebração e recepção individuais, para facilitar a reserva de identidade do penitente, e tendo em conta que a comunidade está sempre presente no ministro ordenado que a representa. Mas tal nunca deve ser celebrado como se de um assunto privado se tratasse.
Já o contrário – celebração comunitária e recepção/absolvição geral – manteve-se como possibilidade muito excepcional, apenas considerada em perigo eminente de morte ou necessidade grave não ultrapassável de outro modo (cf. ritual da penitência, n.º 31). A Igreja continua a acreditar que os constrangimentos inerentes à culpa, vergonha ou medo são mais profundamente sanados no acolhimento, no diálogo, na palavra de absolvição e no envio personalizados, de que o fiéis não devem ser privados.
Celebração comunitária com recepção individual: aquele que se converte e decide viver na intimidade com Deus, necessariamente o manifesta na relação com os irmãos; então, como ministra da reconciliação e reconhecendo a fé e a conversão do penitente, a Igreja concede-lhe o perdão e readmite-o na comunhão, sinal da reconciliação dada por Deus.
Assim se manifesta que a graça principal do sacramento da penitência consiste em restabelecer em nós a unidade do povo de Deus e desta maneira unir-nos a Deus. O nexo indissociável entre a reconciliação pessoal e comunitária, é o que meditaremos na próxima catequese.
+ José Pereira, Bispo da Guarda
