ORDENAÇÃO PRESBITERAL
DOMINGO IV do TEMPO COMUM
(01 / Fevereiro / 2026)
HOMILIA
«Vede quem sois vós, os que Deus chamou: […] Deus escolheu o que é louco aos olhos do mundo para confundir os sábios; escolheu o que é fraco, para confundir o forte […]. É por Ele que vós estais em Cristo Jesus…»
Esta palavra é dirigida a todos nós, os que Deus chamou à missão baptismal que todos recebemos. Decorre da fé autêntica, que cresce como um estar em Cristo Jesus, viver a partir d’Ele, e não resvala para uma simples prática religiosa.
Deus chama-nos a oferecer uma sabedoria que o mundo considera loucura, e uma fortaleza que o mundo julga ser fraqueza. Júlio de Matos (psiquiatra na viragem dos séc. XIX-XX) chegou a considerar a religião uma patologia incurável (a teomania) e autores alemães como Marx e Nietzsche condenaram-na como submissão dos fracos face ao poder dos fortes.
Tal sabedoria e fortaleza que somos chamados a oferecer ao mundo é a das bem-aventuranças que escutámos. Verdadeiro programa de vida dos que procuram viver em Cristo, elas não são uma alienação do tempo presente, sofredor e amargo, na expectativa de um futuro eterno que então será feliz.
O tempo verbal no futuro (“possuirão”, “serão”, “alcançarão”, “verão”) não é cronológico mas revelador: os que entrarem na lógica do reino dos Céus (e nas bem-aventuranças que o referem explicitamente o verbo está no presente (“é”), indicando uma realidade já inaugurada), esses participarão desde logo, primeiro de forma inaugural e depois em plenitude, dos bens e das relações, da visão e da paz, da alegria e exultação que lhe são próprias.
É precisamente para servir o crescimento desta realidade nas nossas vidas que Deus escolheu o Diác. Ricardo para receber o ministério sacerdotal. Meditemos, pois, neste dom que Deus vai dar à Igreja e, de forma mais imediata, à nossa diocese.
Quando da sua ordenação diaconal, já tivemos oportunidade de meditar em algumas dimensões que agora apenas enumero, pois são comuns aos vários graus do ministério ordenado e não cessam com a ordenação presbiteral.
Vimos que o ministério ordenado é uma vocação de vida: concretiza um modo de viver o discipulado de Jesus no meio de um povo de discípulos; é também um sacramento: uma transformação na ordem do ser para se tornar sinal e instrumento da misericórdia e da vida nova que vem por Cristo; é ainda um modo ministerial de ser: perder a vida, renunciar a qualquer projecto pessoal de autorrealização ou de poder, viver como servo, pelas necessidades do reino de Deus.
Vimos igualmente que o serviço pascal de Jesus(vida entregue até à morte pela salvação do mundo) é um traço configurador de todo o ministério ordenado; e que a consagração celibatária favorece a configuração sacramental com Cristo Cabeça à maneira do Servo e aprofunda a configuração sacramental com Cristo Pastor à maneira do Esposo.
Retomo aqui a meditação, agora focada no ministério sacerdotal. É bom conhecermos a evolução histórica do ministério sacerdotal na Igreja, para melhor compreendermos o tesouro que temos hoje.
Desde logo, para percebermos que nem o ministério ordenado nem a sua configuração actual se confundem com o sacerdócio levítico da Antiga Aliança, nem com o sacerdócio ritual dos cultos pagãos, nem com o ministério funcional dasdenominações cristãs saídas da Reforma. E também para reconhecermos porque tem ele, na Igreja de rito latino, configurações distintas do mesmo ministério sacramental na Igreja de ritos orientais.
Mas não é aqui o lugar, nem haveria tempo, para fazer agora esse estudo histórico. Meditarei convosco o que Deus nos dá hoje.
Num povo de baptizados, onde todos somos consagrados para ser sacramentos de Jesus, Filho, o padre é posteriormente consagrado por um novo título, como sacramento de Jesus, Bom Pastor. O Bom Pastor é o que dá a vida pelas ovelhas, para que elas tenham a vida em abundância que vem de Deus. Ou seja, nada guarda para Si, nada vive em função do que pode ganhar, mas enquanto instrumento, canal, do que vai dar a todos.
Por isso, o seu modo de vida à imitação de Cristo – pobre, obediente, celibatário, comunitário, itinerante – é realização dessa forma de ser e amar: o primado são os bens do Reino, a vontade do Pai, os amores de Deus, a comunidade dos discípulos, os lugares onde vive o povo, e especialmente os mais abandonados.
Ter – saúde, segurança, projectos, realizações, relações, bens próprios – é comum a todo o ser humano. Ao padre, também. Mas como sacramento do Bom Pastor, o padre já não tem enquantolegítima aspiração de autorrealização, mas como modo de se doar e gastar, de receber e entregar, pela realização das necessidades do povo. O padre é servidor do povo e os seus bens são o anúncio do Evangelho e a comunicação da graça.
Querer e decidir é próprio do ser humano. Fazê-lo à luz de Deus, é próprio do cristão adulto. E do padre, também. Mas como sacramento do Bom Pastor, o padre já não o faz como legítima realização da sua autonomia crente, mas como modo de permanecer instrumento de comunicação do divino, até no meio da contradição ou da incompreensão. O padre responde com liberdade às necessidades do povo e à vontade de Deus em salvá-lo.
Desposar e gerar vida é próprio do ser humano. E do padre, também. Mas como sacramento do Bom Pastor, o padre não o faz de forma conjugal, mas abraça a esponsalidade virginal com que Jesus escolheu servir o reino de Deus. De modo capaz de preencher, real e afectivamente, a sua dimensão relacional, o padre desposa a Igreja-Esposa.
Fá-lo no concreto da comunidade diocesana (ainda que sem restringir a entrega à Igreja de Cristo, universal), e no cuidado dos filhos que se tornam de ambos: as comunidades e as pessoas a quem é enviado para evangelizar, santificar, curar e reunir.O padre vive a esponsalidade humana na doação às pessoas concretas da comunidade diocesana.
Relacionar-se, ligar-se e associar-se é próprio do ser humano. E do padre, também. Mas como sacramento do Bom Pastor, o padre já não o faz como procura legítima daqueles com quem tem afinidade, mas como fermento de comunhão, unidade, reconciliação e perdão. Inserido no presbitério que é o sujeito colegial do serviço sacerdotal, o padre é lugar e fermento de comunhão.
Partir e abrir-se ao vindouro é próprio do ser humano adulto e livre. E do padre também. Mas como sacramento do Bom Pastor, o padre já não o faz como legítima decisão da sua vontade, mas como disponibilidade pronta a servir o Evangelho onde Cristo queira, geográfica e pastoralmente falando.
Como Jesus que passou fazendo o bem, na Galileia e Além Jordão, na Samaria e na Judeia, sem esquecer o Egipto, também o padre é ordenado para servir na Beira Alta e na Beira Baixa, na Raia e na Serra, sem esquecer a emigração e a missão fidei donum.
De igual modo, é chamado a servir nas paróquias e nas unidades pastorais, nas capelanias e nos movimentos, sem esquecer os serviços diocesanose a presença nas escolas, associações e outros lugares onde se constrói a comunidade humana e se atende aos mais frágeis. O padre é enviado a qualquer parte em nome do Senhor.
Mas notemos no essencial: o padre é tudo isto como sacramento do Bom Pastor para o crescimento de todos na vida em Cristo. Repito: para o crescimento de todos na vida em Cristo.
Então, não é mais possível esperar que o padre seja o funcionário do sagrado que vem à nossa terra dar-nos o serviço religioso que desejamos e a quem depois pagamos; que o padre faça ou diga como se faz; que os leigos assumam as mordomias, irmandades ou contas das comissões mas não se sintam convocados à conversão aos critérios do Evangelho, à formação cristã, à espiritualidade e ao empenhamento pastoral.
Caro Diác. Ricardo: neste tempo que Deus nos dá a viver, neste mundo e na nossa diocese, ambos em transformação, vais receber uma graça para o serviço dos nossos irmãos. Construir a fraternidade evangélica, superar práticas clericalistas de leigos e padres no modo de ser Igreja, multiplicar a alegria da vida em Cristo: eis o caminho que te espera.
Servir o anúncio do Evangelho na Igreja e no mundo, congregar na vida comunitária, discernir e chamar os fiéis a diferentes vocações e serviços na Igreja, acompanhá-los espiritualmente, animar o serviço da caridade e da justiça social, e a quem quiser abraçar um horizonte mais elevado, guiar na exigência da vida sacramental: eis o ministério que te vai ser confiado.
Sim, a exigência dos sacramentos não é a única forma de acesso dos fiéis à graça divina nem esgota o serviço sacerdotal. Sabemos, por São Paulo, que o caminho mais elevado é o da caridade(I Cor 12, 31 – 13, 13). E que tudo começa com a pregação da Palavra de Deus (Rom, 17, !7). A viados sacramentos confirma e eleva a fé, mas supõe uma dinâmica própria e exigente, e não esgota o caminho da santificação.
Sem te tornares alfandegário da graça, cultiva um coração largo, oferecendo a cada um o que precisae pode abraçar. Com discernimento e comunhão pastoral, sem imposições arbitrárias nem facilitismos empobrecedores.
Na comunhão eclesial e sacerdotal, guie-te semprea palavra de Deus: «Fiz-me tudo para todos, a fim de ganhar alguns a todo o custo. E tudo faço por causa do Evangelho» (I Cor 9, 22-23).
