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Pentecostes: deixar arder o coração

Há um tempo singular na vida da Igreja. São os dias entre a Ascensão e o Pentecostes.

Jesus já subiu ao Céu e deixou de se ver, e o Espírito Santo ainda não veio. Os apóstolos ficam ali, à espera, entre a saudade de quem partiu e a promessa de quem há-de chegar. Não fazem nada de especial. Só ficam. Esperam.

Muitas vezes a Igreja parece-se com o Cenáculo. Pessoas com dúvidas, um pouco cansadas, mas que continuam a guardar uma esperança lá dentro.

Todos sabemos que esperar não é fácil hoje em dia. Também não é fácil para quem vive a Missão. Somos quase sempre empurrados para responder depressa, para organizar tudo, para que nada falhe. Reuniões, papéis, preocupações, tarefas que não acabam. E, quase sem darmos por isso, vamos ficando com um exterior impecável e o coração cansado, ou até vazio.

Isto não é apontar o dedo a ninguém. Quem tem um exterior impecável não é, por isso, falso. Muitas vezes é só uma pessoa cansada, cheia de pressas, com medo de deixar cair alguma coisa. Alguém que aprendeu a aguentar a pressão de ter de dar conta de tudo.

Mas Jesus, no Evangelho, pede-nos mais. Não escolheu homens perfeitos, nem gestores do sagrado. Escolheu amigos capazes de aguentar a noite, a fraqueza e até aquilo que lhes foge das mãos. Nesta véspera do Pentecostes, a Palavra de Deus apresenta-nos São Paulo já em Roma, preso, com um soldado a guardá-lo, à espera de um julgamento que não depende dele. Não há ali nada de vitória fácil.

E, mesmo assim, é dessa casa vigiada que Paulo continua a falar de Deus a toda a gente, com liberdade e sem ninguém o impedir. Ninguém lhe abriu a porta. Ninguém lhe tirou as correntes. E, apesar disso, ele é um homem livre.

Talvez porque as maiores prisões nem sempre são feitas de grades.

Há prisões interiores: o activismo, a necessidade de sermos reconhecidos, o medo do silêncio, o medo de ficar com as mãos vazias, a preocupação com aquilo que os outros vão pensar de nós. E há um cansaço que não vem só de trabalhar muito, mas de termos deixado secar a fonte.

Se calhar é aqui que começa a verdadeira liberdade do cristão: não em não ter problemas, mas em ter um coração que ainda não perdeu o mais importante.

O Pentecostes, que está aí à porta, vem para isto mesmo. Não para disfarçar o cansaço, mas para acender outra vez o coração. O Espírito Santo não começa por mudar as estruturas; começa por mudar as pessoas. Não nos torna apenas mais eficientes; torna-nos mais livres por dentro, mais verdadeiros, mais capazes de ver com clareza e de ter compaixão.Talvez por isso seja tão importante olharmos para Nossa Senhora nestes dias. Gosto de imaginar Maria no Cenáculo, calma, sem querer aparecer. Só presente. A rezar. À espera. Continua a haver pessoas assim na Igreja. Não aparecem muito, não fazem grandes discursos, mas vão segurando, em silêncio, a esperança dos outros.

Até a natureza nos diz isto sem palavras. O vento não se deixa prender e a semente cresce escondida, debaixo da terra, longe dos olhos. É quase sempre assim que o Espírito age: não à força, como nós gostaríamos, mas como o vento fresco ao fim da tarde, como a chuva serena, como a luz que volta devagar depois do Inverno.

Parece-me que a Igreja de hoje precisa menos de se preocupar em parecer forte e mais de ter a coragem de voltar ao essencial. Menos preocupação com as aparências e mais vontade de deixar o Espírito trabalhar o coração.

Porque o pior que nos pode acontecer é deixar de arder por dentro.

E, no fundo, talvez a graça a pedir nestes dias seja só esta: que o Espírito Santo encontre, dentro de nós, um lugar para habitar, libertar e reacender.

P. João Marçalo

 

Imagem – The Pentecost
Fray Juan Bautista Maíno
Copyright ©Museo Nacional del Prado